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Cultura

Camila Fontenele em busca do pertencimento

Artista apresenta “Quando sou aquilo que não lembro que fui”, em cartaz no Sesc até 16 de junho
Camila Fontenele em busca do pertencimento
Camila Fontenele já teve seu trabalho premiado e destacado internacionalmente com o projeto “Todos podem ser Frida”. Crédito da foto: Emidio Marques

Um caminho íntimo e inconsciente em busca de pertencimento é percorrido na exposição “Quando sou aquilo que não lembro que fui”, da fotógrafa e artista visual Camila Fontenele, em cartaz no primeiro andar do Sesc Sorocaba. Com curadoria de Allan Yzumizawa, a mostra é resultado de uma pesquisa de seis anos desenvolvida pela artista, que investiga as relações simbólicas entre o mar, a infância e as memórias, para recontextualizar e reconhecer sua própria identidade.

Dividida em duas paredes, a exposição inédita reúne fotografias feitas em diferentes períodos — e que têm como mote recorrente o mar. A mostra conta, ainda, com a vídeoperformance intitulada “Eu, baleia”, definida como registro do reencontro sagrado entre a criança, a mulher e o oceano, e também com objetos que fazem parte do “inventário afetivo” da artista, como um relicário construído com a ajuda do pai e bordados em tecido, que fazem alusão ao conhecimento ancestral transmitido pela mãe. “São coisas que me conectam à ideia de origem. É como se essas coisas pudessem contar realmente a minha história e como, a partir delas, eu me tornei o que sou”, comenta Camila.

Deslocamento

Paulistana, filha de pai carioca e mãe cearense, Camila Fontenele perdeu as contas de em quantas casas e cidades morou até se estabelecer em Sorocaba. Por isso, por algum tempo, acreditou que o sentimento de “deslocamento”, em diferentes espaços e grupos sociais, era reflexo de uma crise de territorialidade, isto é, da ausência de um lugar onde pudesse reconhecer como seu habitat natural. “Mas vi que é mais do que uma questão geográfica. É esse eu no mundo, que não quer viver isolada, que quer ser aceita”, complementa, reconhecendo que ser artista em uma cidade de perfil predominantemente industrial, como Sorocaba, “também é uma forma de deslocamento”. Na adolescência, em sua fase mais “nômade”, chegou a criar uma couraça afetiva, evitando fortalecer laços de amizade. “Eu era sempre apresentada na escola como a aluna nova”, lembra.

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Camila Fontenele em busca do pertencimento
Exposição apresenta coleção de conchas da artista que, segundo ela, “ajuda a memória a ficar mais evidente”. Crédito da foto: Emidio Marques

Hoje, Camila faz uma ideação madura e, ao mesmo tempo, inusitada, para definir o território a qual faz parte. “Sou como uma baleia, que não pode viver no fundo do mar, precisa subir para respirar, mas também não pode ficar na superfície o tempo todo. Entendo que o meu pertencimento está no deslocamento. Não ter um lugar definido e estar sempre se deslocando também é pertencer”, diz.

Quatro vias

A exposição artística transita sob quatro vias: a infância, o inconsciente, a ancestralidade e o espiritual. Camila relata que, a rigor, a pesquisa que culminou na mostra tem muito mais de seis anos. Já adulta, ela notou que desde que se descobriu fotógrafa, o mar — ou melhor, as formas únicas geradas pelo congelamento das ondas — era um objeto recorrente de sua produção. No entanto, esse percurso marítimo começou ainda criança, de maneira inconsciente, colecionando conchas colhidas das areias das praias cariocas. “Como não tenho uma lembrança linear da minha infância, as conchas ajudam a memória a ficar mais evidente e eu as conseguia carregar em todas as mudanças.” Paradoxalmente, na instalação “Quando sou aquilo que não lembro que fui”, essas conchas — como a materialização de fragmentos de lembrança — são reorganizadas rigorosamente em fileiras simétricas, em ordem de tamanho crescente.

Artista premiada e destacada internacionalmente pelo projeto “Todos podem ser Frida”, Camila afirma que relutou até reconhecer que a nova pesquisa poderia resultar em uma exposição individual. O convencimento partiu do amigo e curador Allan Yzumizawa, que lhe mostrou uma unidade narrativa diante dos diferentes fragmentos artísticos. A fagulha foi provocada por Allan, que conduzia um grupo de pesquisa e discussão artística do qual Camila fazia parte. “Ela me mostrou várias coisas antigas e eu identifiquei alguns caminhos que poderiam fazer sentido para ela. O mais importante foi ela ter aceitado percorrer esse outro caminho”, diz.

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Camila Fontenele em busca do pertencimento
“Esse [trabalho] é praticamente a imagem dela, sempre em preto e branco. É o oposto, é a descontinuidade”, afirma o curador Allan Yzumizawa. Crédito da foto: Emidio Marques
Para Allan, “Quando sou aquilo que não lembro que fui” representa uma ruptura da Camila que ganhou o mundo fotografando pessoas anônimas transfiguradas na artista mexicana Frida Kahlo. “Enquanto o ‘Todos podem ser Frida’ são os outros que se colocam com muita cor e muito vivo, esse [trabalho] é praticamente a imagem dela, sempre em preto e branco. É o oposto, é a descontinuidade”, afirma.

Camila concorda. É o seu trabalho mais íntimo e o primeiro em que se permitiu colocar “num lugar de vulnerabilidade”, não apenas ao mostrar seu corpo, nos autorretratos e na aparição na vídeoperformance, mas também sua alma, em poemas que expõem sentimentos mais internos.

Reflexão

O texto de apresentação da exposição é assinado pela artista visual e terapeuta de arte integrativa Malu Aguiar e defende que a obra de Camila suscita “assombro diante dos mistérios insondáveis e do mundo” e convoca o observador a refletir sobre a própria trajetória, a refazer percursos e ressignificar as próprias experiências. “A artista nos inspira a oferecer um epitáfio cotidiano a tudo que diariamente morre em nós e, com isso, celebrar e cultivar nova vida”, afirma.

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A exposição permanece em cartaz até 16 de junho e pode ser vista de terça a sexta, das 9h às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30. Durante esse período, o Sesc realizará atividades de ativação com o curador e a própria artista. A primeira ocorre no dia 10 de abril, intitulada “Tópicos sobre documentação de performance”, com Allan Yzumizawa. “Os arquétipos dos fluxos emocionais” serão discutidos em uma oficina com Camila Fontenele no dia 15 de maio. Já no dia 12 de junho, artista e curador participam do bate-papo “Processos de produção nas artes visuais”. O Sesc fica na rua Barão de Piratininga, 555, Jardim Faculdade. (Felipe Shikama)

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