Cultura

Bossa Nova completa 60 anos nesta terça

A partir desta terça (10) uma atraente sexagenária, a bossa nova ainda brincava de boneca quando foram publicadas as primeiras tentativas de entendê-la. Desde esses pioneiros esforços, concentram o debate os ondes e os porquês da origem do gênero e sua autenticidade à luz da identidade nacional.

Afinal, a bossa veio do samba? Negou-o? Adaptou-o ao jazz? Ou depois o influenciou? João Gilberto e Tom Jobim – e Newton Mendonça, Vinicius de Moraes, Nara Leão, Johnny Alf…- homenagearam as raízes tupiniquins ou as renderam ao imperialismo? “Setores conservadores afirmavam que tomava do jazz, e outros defendiam que se apresentava como alternativa moderna”, resumiu Fabio Saito dos Santos em tese de mestrado em 2006, na Unicamp.

Reportagens, crônicas, livros; muitos deram pitacos sobre a gênese da revolução, que faz 60 anos nesta terça (10). Foi neste dia, em 1958, que João Gilberto gravou o compacto de “Chega de Saudade”. Exatos quatro meses depois, ele gravaria outro, “Desafinado”. “Nunca um acontecimento na nossa música popular trouxera tal acirramento”, descreveu o musicólogo Brasil Rocha Brito em ensaio em “Balanço da Bossa e Outras Bossas” (Perspectiva, 1969), organizado por Augusto de Campos.

O poeta, aliás, identificava na inovação um misto de respeito à velha guarda e subversão da ordem estabelecida. “O resultado é um livro de partido. Contra a Tradicional Família Musical. Não contra a Velha Guarda. Noel Rosa e Mário Reis estão muito mais próximos de João Gilberto do que supõe a TFM”, escreveu. Já em seu “Música Popular, um Tema em Debate” (Editora 34, 1966), o crítico José Ramos Tinhorão reuniu textos publicados na imprensa nos quais detonava a novidade. “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana –inegavelmente sua mãe–, a bossa nova vive o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana: não sabe quem é o pai”, escreveu em um artigo, em 1963.

Leia mais  Secult solicita parecer jurídico a respeito dos recursos da Linc

A leitura de Tinhorão foi influente nas primeiras décadas do pós-bossa – e sabe-se lá o quanto terá colaborado para o precoce ocaso do gênero, que dos anos 1970 aos 90 ficou restrito a espasmos no exterior. Sob o benefício do tempo, contudo, a genealogia ganhou revisões. Para Ruy Castro, as análises que atribuem valor negativo à comunhão entre bossa nova e jazz derivam de equivocada negação da ordem mundial vigente.

Potência cultural, os EUA disseminaram o gramofone e popularizaram até instrumentos como o saxofone. “Como qualquer música popular no séc. 20, ela foi influenciada por toda a sonoridade americana, não pelo jazz”, diz. O escritor e colunista da Folha de S.Paulo ressalta ainda que o fato de o samba assimilar tão bem outras influências abriu margem para leituras equivocadas de um estrangeirismo da bossa. “‘Aquarela do Brasil’ (1939) já tinha big band no fundo, e ninguém se sente agredido.”

Leia mais  Sorocaba para além dos limites da cidade

Crítico de música erudita da Folha de S.Paulo, Sidney Molina reforça a memória de que o contato do som brasileiro com o americano precede Gilberto-Jobim. “Os arranjadores brasileiros pré-bossa, como Radamés Gnattali, sabiam como funcionavam as big bands dos EUA, e Carmen Miranda já levara ao país violonistas como Garoto”. Para ele, “não há purismo nacional nem gringo na bossa, ela é fusão; algum problema?” Além de negar o furto de atributos do jazz, Ruy Castro diz que foram erradas tanto a leitura de que o estilo teria rompido com o samba-canção quanto a de que seria uma síntese ideal da música brasileira, análise embebida no ufanismo do país sob Juscelino Kubitschek (1902-1976). “A bossa nova não veio de nada nem de ninguém, ela veio de si mesma; sua origem está na rica variedade da música brasileira.”

O jeito de cantar e tocar de João foi fruto, diz, da vontade de interpretar a seu modo suas canções preferidas: os sambas feitos a partir de “Jura”, tema escrito por Sinhô e gravado em 1928 por Mário Reis. Para demonstrá-lo, o escritor incluiu na quarta edição de seu livro “Chega de Saudade – a História e as Histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras, 1990), em 2016, um levantamento com mais de 600 canções desde os anos 1920.

Leia mais  Brasil divulga filmes que disputam indicação ao Oscar

Autor de livros como “Copacabana – a Trajetória do Samba-Canção” (editora 34, 2017), o jornalista Zuza Homem de Mello também nega a ruptura. “A bossa veio como um sucessor do samba-canção. Foi a solução encontrada pelo João para fazer o violão soar diferente dos outros violonistas.” Uma evolução natural, portanto, que “simplificou o ritmo e incrementou a harmonia”, na síntese de Alessandro Borges Cordeiro, professor da Universidade de Brasília. Autor do ensaio “Balanço da Bossa Nova” (1969), Julio Medaglia ressalta, por fim, que o nascimento da bossa conectava-se à arte da época. “A economia de elementos lembrava a nouvelle vague: poucos atores, falas, ações. Ecoava Niemeyer: branco, simples, poucas linhas. E a poesia concreta: duas ou três palavras num poema.” Ele remonta o que sentiu ao ouvir “Chega de Saudade”. “Eu me lembro até da rua em que estava quando senti o impacto desse bandido na minha alma. Uma implosão silenciosa.” (Folhapress)

Comentários

CLASSICRUZEIRO