Letra Viva

O milagre da madrugada

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Aconteceu na semana passada. Já passava das onze da noite. A Patrícia e o João Pedro estavam dormindo pesado. Eu sou o boêmio da casa. Culpa dos litros de café que bebo ao longo do dia.

Passei o dia envolvido com as atividades da escola. Trabalha-se bastante nesta maldita pandemia. As aulas pelo computador têm que render bem. Alguma coisa precisa ser feita enquanto as nuvens carregadas não nos abandonam. Os roteiros para os encontros devem ser caprichados. Não que, antes, as aulas não fossem preparadas. Mas é diferente do que temos agora. Difícil explicar. Só quem está no olho do furacão compreenderá.

Sobrou quase nada para as leituras. A maldita pilha de livros passou o dia olhando torto para mim. Com tudo encaminhado, fui até ela. Semana passada, eu disse aqui que ela refletia minha indecisão nestes dias tão duros. Não mudei o meu ponto de vista de lá para cá.

Gastei uns bons minutos separando os livros que levaria para a cama. Fui até o quarto carregando cinco. Juro que não sabia quem seria o escolhido. Peguei quatro textos sisudos e uma narrativa mais descontraída. Há que se experimentar de tudo um pouco nesta vida.

Deitei tentando não acordar a Patrícia. Deu certo. Liguei o abajur. Luz amarela aconchegante. Parece besteira, mas detalhes como o da luz são cruciais. Fazia um calorão. Apesar de ser quase meia-noite, virava e mexia passava uma moto, dessas esportivas, fazendo um barulho maldito. Sempre achei que deveria ter algo no Código Penal para essa gente irritante.

Minha primeira tentativa de leitura: um relato minucioso da resistência francesa à ocupação nazista. O tema me interessa, e muito. Dá pra projetar muitas de nossas angústias naqueles anos. Bom, podemos conversar a respeito disso numa próxima coluna. Hoje quero cavar meu umbigo. Culpa do jornal, que me dá essa trela toda. Mas voltando ao texto da resistência: triste demais, e tem hora que a gente quer distância das tretas.

O mesmo sentimento para os livros dois, três e quatro. Excelentes, mas sombrios. Quando escrevo uma coisa dessas, impossível não me perguntar se não estou, depois de tantos anos, me tornando um leitor menos rigoroso. Provavelmente, sim. E certamente não me importo. A gente aprende a aceitar as coisas como elas são. Ou como elas estão. Quem sabe a seriedade e o espírito disciplinado não voltam a dar as cartas daqui algum tempo?

O quinto livro era um romance do italiano Andrea Camilleri: “A paciência da aranha”. Antes de avançar, preciso dizer uma coisa: algumas iniciativas editoriais engrandecem a cultura de um país. A editora Record, anos atrás, publicou uma coleção voltada aos romances policiais escritos em vários países. França, Grécia, Alemanha, Itália, Brasil, EUA, Inglaterra, Espanha. Nunca tive ímpetos de colecionador. A Patrícia é muito mais vidrada nesse lance de colecionar coisas do que eu. Mas com a série da Record não tem jeito. Sempre que encontro uma obra perdida em sebos físicos ou virtuais, compro na hora. Muito bem. “A paciência da aranha” é parte da minha coleção predileta.

Renderia um tratado literário robusto mostrar por quais motivos Camilleri deve ser considerado um dos grandes escritores das últimas décadas. Vários dos seus romances são protagonizados pelo comissário Montalbano. As histórias são ambientadas numa cidadezinha de nada. E ali encontramos os horrores e as delícias da vida italiana. Máfia, corrupção, serviços públicos que não funcionam direito, imprensa viciada, gastronomia maravilhosa, senso de humor, coragem, abnegação. Imaginem tudo isso contado com ironia das mais cortantes. Camilleri nos presenteia com aquilo que há de mais sagrado na leitura: o prazer de querer saber o que a página seguinte mostrará.

E, assim, o quinto livro do montinho me acompanhou até o meio da madrugada. Nessas horas, a gente tem a certeza de que a vida sem literatura seria desastrosa.

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