Letra Viva

Novas paixões

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

A coluna de hoje já estava certinha na minha cabeça. Eu trataria de alguns tipos de fotos que têm circulado nas redes sociais nesta época em que muita gente decidiu que a pandemia acabou. Decidiu assim: puf, xô, pandemia! E vivemos felizes para sempre. Mas aí eu pensei: melhor deixar quieto. Não sou o sábio da montanha. Então eu optei para algo mais ameno e produtivo para este texto: minhas paixões literárias mais recentes.

Estes últimos meses foram férteis no terreno das descobertas literárias. É fácil atribuir isso ao entorno que forçou muita gente a ficar em casa. Sempre perguntam se tenho lido mais no isolamento. Não percebi grande alterações. Se mudou, mudou muito pouco. O que mudou foi a minha postura de leitor.

Vocês já me viram aqui defendendo os clássicos. Foram textos e mais textos enaltecendo o frescor de “Dom Quixote” ou a visão da História em “Guerra e paz”. Tentei não ser pedante nessas ocasiões. É sempre um perigo tratar dos clássicos por conta do pedantismo. Tentei dar o melhor de mim na empreitada.

Não tratei exaustivamente dos clássicos à toa. Naqueles momentos, eu estava mergulhado nas chamadas “grandes obras”. As pessoas mais próximas até tiravam sarro. Eu era o bitolado das releituras. Passei vários anos reservando o mês de dezembro para reler Tolstói. Não estou brincando. Mas passou.

A contradição está na essência do ser humano. Não precisa vir um colunista tosco para dizer uma coisa dessas. Mas alguma coisa mais densa eu preciso colocar aqui. Então fique com a lição de que a contradição está na essência do ser humano. Minha contradição, no âmbito da leitura, revelou-se numa guinada ocorrida há mais ou menos um ano. E a coisa se intensificou nos últimos meses.

Sem qualquer tipo de explicação ou de transição, deixei os clássicos e acelerei nos romances policiais. Baita contraste. Não que não existam autores policiais clássicos. Existem, claro, mas são, para muitos, clássicos de outra grandeza. Não é simples explicar. Vou tentar resumir.

Numa prateleira, você encontrará Tolstói, Homero, Cervantes, Kafka, Machado de Assis etc. São os medalhões. Merecem estar ali. Dificilmente alguém ousaria colocar Raymond Chandler ou Dashiell Hammett ali. (Eu colocaria fácil, fácil). Quem gosta de história policial sabe que os dois são mestres enormes. Mas é como se vivessem num mundo à parte. Como se a literatura policial tivesse de se contentar com um cômodo menor da casa. Bom, isso renderia uma discussão das mais interessantes. Fica para uma outra ocasião.

Você chegou até aqui e deve estar comentando: o cronista se perdeu nas voltas de sempre; prometeu entregar laranjas no início e entregou morangos. Desculpe, mas você está enganado. Até entendo o porquê. Você imaginou que eu escolheria alguns autores e faria um resuminho do que me chamou a atenção neles. Já fiz isso em outras oportunidades, mas decidi mudar. Tem uma explicação: aqueles resuminhos, ainda que modestos, já continham pitacos. Aqueles pitacos inibiam a descoberta dos leitores que fossem seguir as minhas indicações. Atribua aquilo ao cacoete de professor. Mania de querer explicar tudo.

Dito isso, seguem algumas das minhas paixões literárias recentes, grande parte delas pertencendo ao terreno policial. Importante: alguns nomes da listinha não representam necessariamente autores lidos pela primeira vez. O critério é a paixão atual.

José Latour. Elmore Leornard. James Ellroy. Andrea Camilleri. Georges Simenon. Robert Crais. Ross Macdonald. Raymond Chandler. Dashiell Hammett. Peter Robinson. Ed McBain. Luiz Alfredo Garcia-Roza. Manuel Vásquez Montalban. Henning Mankell.

Mais do que autores policiais, eles mostram que o mundo é regido pela violência, pela tramoia, pelo complô, pela ganância mais baixa, pela pilantragem. Ou seja: literatura do mais profundo realismo, não?

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