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Letra Viva

Entrevista imaginária (final)

Confira a coluna "Letra Viva", de Nelson Fonseca Neto

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Em algumas de suas crônicas, você demonstra aversão a inovações em várias áreas. Podemos dizer que você se considera um sujeito antiquado?

Depende. Para algumas coisas, sim; para outras, não. Por exemplo, o livro eletrônico. Fiquei vários anos atacando a engenhoca. Eu estufava o peito e dizia que nada supera o cheiro do papel. Eu era muito burro. Hoje eu leio muita coisa pelo livro eletrônico. Economizo um dinheirão. Posso comprar livros que dificilmente chegariam até a nossa cidade. É fácil de carregar. Não estou dizendo que não leio mais livros de papel. O que eu quero dizer é que dá para usar os dois recursos numa boa, sem fanatismos ou discursos melosos.

Você deu o exemplo do livro eletrônico. Tem mais algum?

Tem um monte. Ar condicionado. Televisão de tela plana. Carro com injeção eletrônica. E-mail. E por aí vai.

A sua aversão a mudanças é dirigida a quais áreas?

Eu acho que estamos abusando das firulas em algumas áreas. Eu cresci vendo os adultos sabendo dizer claramente quais eram as suas profissões. Hoje, muita gente ou é consultora ou é coach. Na maioria das vezes, é apenas uma mudança de nomes, só para dar um ar de refinamento à coisa toda. Perdi a conta de gente que é vendedora e se diz consultora. Quase sempre essas mudanças de nomes são perigosas.

Explique melhor.

São perigosas porque escondem algumas coisas básicas. Talvez eu seja um cara antiquado, mas ainda acredito numa coisa chamada salário. É com ele que pago as minhas contas e faço as minhas estripulias. O problema é que muita gente é tapeada com o verniz de sucesso profissional. Se a sala tem ar condicionado, se a decoração é moderninha, se a firma fornece celular corporativo, está tudo bem para a galera. Melhor ainda se o sujeito não precisa trabalhar com algum uniforme tosco. Todos os dias vejo pessoas assim na padaria. Agora, vá perguntar se ganham bem. Ganham uma merreca. É fácil perceber.

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Você mencionou o coach. Inegavelmente, é algo que veio para ficar. Não seria melhor aceitar o mundo ao seu redor?

Quem disse que eu não aceito? Eu sou um cara dos mais pacatos. Você nunca vai me ver arrumando briga por bobagem. Agora, eu acho que tenho o direito de me aborrecer quieto em algumas situações. Tenho implicado cada vez mais com gente que fala alto. O pessoal sempre tem uma listinha das coisas que têm atormentado a humanidade, mas nunca vejo o barulho feroz na tal listinha. É claro que eu não vou encontrar sussurros num show de rock. Seria idiotice. Mas seria pedir muito que as pessoas não falassem alto numa livraria? E então chegamos ao fenômeno do coach. Não conheço coach que fala baixo. Um simples papo é, para ele, uma palestra em miniatura. Já conheço de cor e salteado a conversinha. Isso porque, por conta de algum treinamento maldito, os caras falam alto pra caramba.

Quer dizer, então, que se o coach falasse mais baixo, você o veria com mais carinho?

Não. O estrago já está feito. Infelizmente, como eu acabei de dizer, eu já ouvi algumas horas dessas conversas. Também não tem como não reparar no gestual. Sempre as mãos juntas, formando uma espécie de pirâmide. A cabeça levemente inclinada. Os olhos transbordando de compreensão. Isso enquanto o pobre cliente diz os seus problemas. Depois vem o pior. Surgem os conselhos miraculosos. Tudo temperado com historinhas de superação. Esse coach precisa desaguar as horas de vídeos assistidos no Youtube. Dureza é ter de ouvir que todo mundo tem um tesouro dentro de si, e que basta acionar o botão certo para que a vida do sujeito se torne uma maravilha. E muita gente acredita. E tem gente ganhando horrores com essa papagaiada.

Mas você não acha que o coach pode…

(Nelson Fonseca Neto grosseiramente interrompe a entrevista. Diz, entre palavrões, que não quer perder mais tempo falando a respeito de algo que abomina. Pedimos desculpas aos leitores.)

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