Letra Viva

Carnaval amargo

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Sempre gostei do Carnaval. Ao longo de quatro décadas de vida, gostei de maneiras diferentes. Eu participei de bloquinhos de crianças quando tinha, sei lá, seis ou sete anos. Eram bloquinhos que viviam ganhando concursos nos clubes da cidade. Quando virei adolescente, descobri as doideiras dos bailes noturnos. Mais velho, perto dos trinta, pendurei as chuteiras. Continuo gostando de Carnaval, mas agora muito mais como espectador.

Acho que nunca perderei a empolgação que marca a sexta-feira que antecede os festejos. Mesmo sabendo que passarei no aconchego do lar, fico empolgado com a empolgação dos outros. Não consigo agir de outra maneira.

Esse é o lado, digamos, bonitinho de lidar com o que vem acontecendo nos últimos dias. Escrevi os dois parágrafos anteriores para não passar a impressão de ranhetice. Mas o duro de ficar de fora da farra é que a gente vai enxergando uma coisa aqui e outra ali. Coisas ruins.

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Já disse aqui que gasto uns bons minutos do meu dia percorrendo as notícias da internet. Não foi diferente neste Carnaval. É óbvio que uma festa dessa dimensão terá cobertura ampla. Puxa vida, sou do tempo em que a revista Manchete aparecia nas bancas com páginas e páginas com fotos de bailes. Algo semelhante ocorria nos jornais.

O problema é que o Carnaval também é assassino. Esse lado assassino é bem a cara do Brasil. Festa e sangue. Gargalhada e fraturas expostas. Neste ano, várias pessoas foram aterrorizadas, em Olinda, por um sujeito que dava agulhadas por aí. Nas aglomerações, agressões, brigas, furtos e assaltos. Talvez alguém diga que festas dessa magnitude são assim mesmo. Eu sei que são. E isso não impede que a gente fique horrorizado com um sujeito que sai dando agulhadas por aí. Pense no desespero das vítimas. Não precisa ser infectologista para entender o drama.

Aí você entra nos grandes portais de notícias brasileiros e percebe que as notícias relevantes encolheram. Algumas desapareceram. Pode me chamar de ranzinza, mas nunca entrará na minha cabeça que a fantasia da Sabrina Sato é mais importante que os relatos sobre o coronavírus.

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No quesito formação básica, sou um sortudo. Tive excepcionais professores de ciências e biologia no fundamental II e no ensino médio. Sem contar que, em casa, meus pais sempre conversaram conosco a respeito de curiosidades da biologia. Desde sempre aprendemos como funciona a vida de vírus e bactérias. Favor não confundir com hipocondria. É o bom e velho pensamento científico. Você não imagina o bem que isso faz numa época em que muita gente acha que basta dar três pulinhos para combater uma doença.

Eu desviei a conversa para essa história de vírus e bactéria porque as notícias são tristes. Nesses dias de farra, a gente tem de recorrer a jornais estrangeiros. Vou repetir para não ficar com fama de implacável: não tem problema mostrar a folia em São Paulo, mas mostre, com destaque, que muito provavelmente viveremos uma situação de pandemia em relação ao coronavírus. Estou escrevendo numa terça-feira, e que tudo não passe de paranoia minha.

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Mas é bom preparar-se para uma pandemia. E é bom saber que a economia mundial — que já vem mostrando sinais de tombo, independentemente de pandemias — poderá sofrer amargamente. Impossível saber ainda, mas é prudente projetar os cenários mais sombrios. E tudo fica ainda mais preocupante quando sabemos de algumas pessoas que estão no poder.

Ou você acha que tuitadas e tiradas supostamente engraçadas darão conta da desgraça? Ou você acha que figuras superficiais revelarão informações cruciais? Mais provável que as notícias ruins fiquem escondidas até onde for possível. Só que chega a hora da verdade. E, nesses momentos, o estrago sempre é maior. Teoria da conspiração? Tomara que eu esteja errado.

Nestes dias, as notícias sobre paetês e purpurinas, com todo respeito, devem ser marginais. Independente disso, que o Carnaval de todos tenha sido bom.

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