Letra Viva

A palhaçada tem que acabar

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Já faz um bom tempo que as narrativas que mostram um futuro de pesadelo fazem sucesso. Tem havido, nos últimos anos, um crescente interesse por livros de ficção científica. Muita gente boa tem produzido obras interessantíssimas. Sem contar que os clássicos do gênero estão sendo resgatados em edições caprichadas. Séries distópicas da Netflix são garantias de boa audiência.

Até janeiro deste ano, as pessoas consumiam essas narrativas, olhavam ao redor e, no máximo, diziam: “tomara que o mundo não vire esse horror”. Mas agora a história é outra. A pandemia do coronavírus mostrou que o pesadelo chegou.

Vivemos numa época maldita que embaralha fato e opinião. Existe uma coisa chamada “ciência” e existe uma coisa chamada “conversa de boteco”. Hoje, os conversadores de boteco têm influência decisiva na sociedade. Perdi a conta de quantas vezes ouvi abobrinhas que, quando muito, rendiam conversas irônicas com a Patrícia no aconchego da alcova. Sabe aquele lance do “tadinho, ele é meio birutinha?”. Sabe aquele lance do “nossa, em que mundo ela vive?”. Eu estava errado quando encarava as coisas daquela maneira. Aquelas conversas absurdas eram a serpente chocando o ovo.

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O coronavírus mudou as coisas de patamar. Sabe aquela reação horrorizada depois de assistir a um episódio de “Black mirror”? O que você viu ali talvez se torne uma brincadeira de bebê se compararmos com o que está acontecendo. Ainda dá pra virar o jogo, mas tem que ser agora.

Os discursos que amenizam o que está acontecendo não devem ser apenas combatidos, como se estivéssemos numa sala de debate ideal, com palavras suaves; eles devem ser proibidos. Repetindo: proibidos. Esses algoritmos das redes sociais têm que servir para alguma coisa. Empresas de jornalismo devem vetar qualquer conversinha que ponha em xeque a seriedade do que estamos vivendo. Censura? Sim, censura. E tolerância zero com receitinhas caseiras e sessões de cura pela reza ou pela oração. Essas posturas devem ser enquadradas como atentados à saúde pública. Chega de brincar com coisa séria. Se a conscientização não dá conta do recado — e não tem dado –, as pessoas precisam sentir na pele as consequências de sua leviandade e de sua tosquice.

Há muitos apelos para que medidas urgentes sejam tomadas. A mais evidente é a que clama pelo confinamento das pessoas. Do ponto de vista médico, trata-se de algo crucial. Mas temos dois problemas na execução disso.

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O primeiro deles tem a ver com a boa e velha falta de noção. No sábado, quando voltávamos da casa da minha sogra, a Patrícia e eu vimos barzinhos lotados. Muitas pessoas rindo gostosamente. Tomara que seja exagero meu (sinceramente, acho que não é), mas vai virar um terror combater o coronavírus com pessoas promovendo aglomerações e dando gargalhadas. Infelizmente, a internet vem mostrando praias lotadas, baladas trepidantes e formaturas glamourosas. É triste demais ver o abismo chegando.

O segundo problema é culpa da estrutura econômica do Brasil. Temos milhões de trabalhadores informais e milhões com vínculo empregatício frágil. Essas pessoas não podem se dar ao luxo do confinamento. Ou saem de casa ou morrem de fome. E a esmagadora maioria dessas pessoas precisa recorrer a um transporte coletivo lotado. É só ver os ônibus e metrôs na hora do rush. Some-se a isso a condição sanitária grotesca de muitos bairros e comunidades. Pense nos presídios abarrotados. Muita gente morre de tuberculose no Brasil. O que está acontecendo aqui é devastador.

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Num cenário assim tão grave, semear desinformação é crime. Nunca vou me conformar com portais de notícias que permitem que todo e qualquer comentário apareça ali numa boa. Quer falar besteira? Fale pros mais chegados. É preciso dar um breque nessa farra.

O país já está de joelhos agora. Não precisamos de otários que venham jogar gasolina na fogueira.

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