Letra Viva

A farsa da leitura

Ler o livro da moda à beira na piscina e ficar só nisso não será ingresso para o glamouroso mundo das sumidades intelectuais

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Se eu ganhasse um real a cada vez que ouço alguém dizendo que ler é importante, eu estaria escrevendo este texto numa mansão incrustada numa ilha cinematográfica. Como as coisas não são assim, escrevo nesta cidade cada vez mais barulhenta.

Barulhenta e que nutre uma certa aversão por livrarias. De uns tempos pra cá, duas livrarias importantes encerraram suas atividades. Uma delas ficava num dos shoppings da cidade. Era grande e tinha vasto acervo. Muita gente achava que era mais um lugar para passear. Impossível bancar um mastodonte daqueles com vendas ralas. Deu no que deu. É uma tendência que pode ser acompanhada em várias partes do Brasil. A gente lamenta, claro, mas não se sente pessoalmente atingido.

A outra livraria que fechou doeu na alma. Era a minha predileta. Não era grandona, não ficava em shopping. Era pequenininha e ficava na rua. O acervo era voltado para crianças. Quem cuidava da minha livraria preferida entendia do riscado. Não tenho medo de dizer: era a melhor livraria infantil do Brasil. Lá era possível encontrar editoras consagradas e editoras minúsculas. Era o paraíso para quem acredita que a leitura é uma forma de felicidade. Eu estou falando da maravilhosa Livraria do Elefante, conduzida pelas geniais Silvana Rando e Maria Cristina Perez Vilas. O Marcelo Raymundo também merece menção honrosa.

E o paraíso fechou. Fechou porque, quando o assunto é leitura, muitas pessoas apostam alto na hipocrisia. É que é bacana encher a boca para falar bem dos livros. É que é bacana fazer selfie numa livraria charmosa. Dá credibilidade franzir o cenho e falar que o brasileiro lê pouco. Parece conversa de elevador, quando a gente diz algo sem querer correr riscos.

Eu acompanhei a Livraria do Elefante desde o início. A megalomania passava longe dali. Nada de cenários opulentos que favorecem a praga das selfies. Cabeça no lugar era o lema. Espaço modesto e bonito. Eventos criteriosamente escolhidos. Pessoas que conduziam a empreitada entendendo de verdade dos produtos. Nunca ouvi ninguém falando mal do lugar. Muito pelo contrário: todos fazendo os maiores elogios. O que eu vou dizer aqui não é científico e tem muito mais a ver com o que eu vi e ouvi por aí: centenas de pessoas amavam a Livraria do Elefante. Enquanto ela estava funcionando, impossível não ficar otimista. Se essas centenas de pessoas comprassem um livro, sei lá, a cada quinze dias, minha livraria preferida não precisaria fechar. Só que não é assim que a banda toca por aqui.

Não estou falando de preço dos livros. Livro não é barato no Brasil, e você não venha ensinar o padre a rezar. Poupe-me das obviedades. É claro que eu gostaria que os livros fossem bem mais baratos. Só sendo muito cretino para afirmar o contrário. O problema aqui é mais sutil: muita gente que “amaaaaaava” a Livraria do Elefante tinha carros que valiam o preço de um apartamento. Gente que gasta uma fábula no rodízio de comida japonesa. Gente que sempre viaja ao exterior. E gente que choraminga na hora de gastar quarenta reais num livro. Então a questão não é financeira.

A questão é de prioridade. Sem problemas. Cada um sabe o que faz com a sua grana. Só não vale botar banca. É aquela velha história do sujeito achar que é da elite intelectual. Más notícias: ler o livro da moda à beira na piscina e ficar só nisso não será ingresso para o glamouroso mundo das sumidades intelectuais. Eu estou com sobrepeso e sou sedentário. Se eu resolver fazer uma caminhada leve, seria absurdo alguém achar que sou um atleta. Prometo que, se eu sucumbir à tentação e resolver bancar o atleta, você tem toda liberdade para me fazer baixar a bola. Eu até agradeceria. Ninguém quer vestir o manto do ridículo.

Faz tempo que venho venerando a franqueza. Não aguento mais os discursos doces e repletos de espuma. Não gosta de ler? Sem problemas. Caráter e dignidade não têm a ver com quantidade de livros lidos. Muitos dos responsáveis pelos campos de extermínios alemães sabiam Goethe de cor. O que eu espero é bastante simples: seja feliz assumindo quem você é. Só não vale assumir o papel que não é seu. Eu não sou atleta, eu não sou estadista, eu não sou um gestor brilhante. Eu sou professor e acredito que boas leituras são redentoras. Eu acredito que boas leituras afiam nossos pensamentos e nossa capacidade de observação. Nunca abrirei mão dessa fé. É aquilo que eu tenho de mais sagrado. E é por isso que o sinal vermelho acende quando vejo livrarias sendo dizimadas.

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