Acidente na Espanha: 'Pessoas foram arremessadas para fora dos trens', relata sobrevivente

Acidente deixou pelo menos 64 mortos após colisão em alta velocidade

Por Da Redação com Estadão Conteúdo

Autoridades investigam causa do acidente; "erro humano" não está descartado

Os passageiros que sobreviveram a uma colisão entre dois trens de alta velocidade na região de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha, relatam momentos de desespero após o acidente que deixou pelo menos 64 mortos nesta quarta-feira, 28.

O repórter do jornal El País, Antonio Jiménez Barca, estava no primeiro vagão do trem da Renfe, que seguia em direção a Sevilha e colidiu com a traseira da composição da Iryo.

Segundo ele, durante a viagem, o trem parou por cerca de 10 minutos, e os passageiros foram avisados de que havia um "problema de superlotação nos trilhos". Em um relato publicado pelo jornal, Barca afirmou que, naquele momento, decidiu pegar algo para comer no refeitório, que ficava no quarto vagão.

"Foi aí que o acidente aconteceu. De repente, senti como se estivesse sendo empurrado por trás, como se estivesse sendo jogado no chão", disse. O jornalista afirmou que foi arremessado da parte da frente para os fundos do refeitório.

"Bati a cabeça com muita força. Senti o trem parar. Fiquei coberto de sangue. Havia pessoas em cima de mim e muitas outras por perto", afirmou. Segundo ele, havia diversos feridos por todos os lados. "No vagão do refeitório, onde eu estava, os passageiros foram arremessados para fora do trem."

Apesar de ter batido a cabeça, Barca relatou que está bem. "Assim que senti o impacto e vi que estava bem, meu primeiro instinto foi ligar para minha esposa para dizer que estava tudo bem. Senti um alívio enorme. Só mais tarde me dei conta do que tinha acontecido", contou.

O repórter afirmou que conseguiu sair da composição com outros passageiros por meio de um buraco. Segundo ele, aos poucos, as pessoas começaram a entender a gravidade do que havia ocorrido.

"Este é um bosque de amendoeiras, e as pessoas caminhavam um pouco desde a estação de trem para refletir e ver o que lhes havia acontecido. E com o passar do tempo, você gradualmente percebia o que tinha acontecido."

Turistas e trabalhadores

O El País também conversou com outros passageiros que sobreviveram ao acidente. A turista Ana María, de 60 anos, disse ao jornal que seguia para Sevilha a passeio com o marido. O casal estava no sexto vagão do trem da Renfe.

Segundo ela, logo após deixar a estação, o trem parou por alguns minutos. "Havíamos sido informados de que havia problemas nos trilhos. Depois, ele voltou a se mover e, em poucos minutos, tudo aconteceu", afirmou.

"Não sei se batemos em outro trem, mas colidimos com o vagão da frente. Fui arremessada em direção às malas. Tudo caiu sobre mim", acrescentou. Ana disse que seu marido sofreu um grave traumatismo craniano e foi encaminhado ao Hospital de Toledo.

"Tudo ficou destruído. Sei que alguns vagões tombaram, mas o nosso não. Os serviços de emergência chegaram rapidamente", disse.

Já o consultor médico Jesús Jerónimo, de 54 anos, estava no segundo vagão do trem da Renfe e seguia para reuniões de trabalho.

"Eu estava trabalhando no meu laptop quando senti uma aceleração tremenda e fui arremessado contra o assento da frente", disse Jerónimo ao El País.

"As pessoas foram arremessadas para fora do trem. Pensamos que tínhamos descarrilado. Então, aos poucos, fomos saindo e vimos que nosso trem estava inclinado", acrescentou. "Agora, estamos ajudando os serviços de emergência, segurando bolsas de soro com as mãos."

O presidente da Confederação Espanhola de Cooperativas Habitacionais, Juan Casares, estava no primeiro vagão do trem da Renfe, e seguia para uma reunião com o governo regional da Andaluzia.

"Acabei no vagão da frente. Houve uma freada brusca e, imediatamente depois, impactos sucessivos", disse Casares ao jornal. "Dois passageiros me ajudaram e quebramos a janela. Tentamos evitar que outro trem me atingisse. Esse era o medo. As entradas e saídas estavam congestionadas com bagagens."

Investigação

O acidente ocorreu por volta das 8h54 no horário local (4h54 em Brasília). Os dois trens colidiram em Urda, na província de Toledo. Segundo a porta-voz do governo de Castilla-La Mancha, Esther Padilla, o trem da Iryo tinha 146 passageiros, incluindo um bebê, e o da Renfe transportava 397 pessoas.

Um porta-voz do Ministério dos Transportes da Espanha disse que as primeiras informações indicam que o trem da Renfe colidiu com a traseira da composição da Iryo, fazendo com que pelo menos dois vagões descarrilassem e caíssem em um aterro. Quatro vagões da Renfe também teriam descarrilado.

Segundo o jornal, o trem da Renfe teria reduzido a velocidade minutos antes da colisão devido a um problema de tráfego na linha. Fontes governamentais ouvidas pelo El País afirmaram que o problema ocorreu no sistema de segurança LZB, que permite a comunicação entre as equipes de infraestrutura e os trens. Esse sistema é utilizado apenas pela linha que liga Madri a Sevilha e está sendo substituído pelo ERTMS, que é mais moderno.

O jornal afirmou que as informações iniciais indicam a possibilidade de "erro humano". Após a falha do sistema de segurança, seis trens interromperam a circulação. Cerca de oito minutos depois, eles foram autorizados a retomar o trajeto, mas o trem da Iryo não conseguiu retomar a marcha e permaneceu parado. Mesmo com a composição bloqueando a via, um operador do centro de controle teria autorizado que o trem da Renfe seguisse viagem, e o veículo colidiu por trás com o trem da Iryo. A investigação do caso ainda deve confirmar os detalhes da ocorrência.