Novos protestos na França após adoção forçada da reforma da Previdência

Em Paris, montanhas de lixo continuam se acumulando e o governo prepara requisições dos trabalhadores em greve

Por Cruzeiro do Sul

A photograph taken on March 17, 2023 in Paris' 4th district, shows rubbish on a street near Notre Dame Cathedral as rubbish collectors strike against pension reforms, leaving many streets in the capital piled with stinking waste. - France forced Paris rubbish collectors to return to work after a days-long strike against pension reforms. Workers walked off the job in protest against President Emmanuel Macron's plans to reform the pension system, with headline measures of raising the legal retirement age to 64 and increasing the number of years people must pay in to receive a full pension. (Photo by Bertrand GUAY / AFP)

Estradas fechadas, refinarias paralisadas, escolas bloqueadas, toneladas de lixo acumuladas em Paris... a batalha contra a impopular reforma da Previdência continua nesta sexta-feira (17) na França, com uma multiplicação dos protestos após sua adoção polêmica. "Estamos indignados", disse Soumaya Gentet, sindicalista do supermercado Monoprix e uma das 200 pessoas que bloquearam a rodovia ao redor de Paris por meia hora durante a manhã. "Vamos resistir até a retirada da reforma", frisou.

Na quinta-feira, o presidente liberal Emmanuel Macron decidiu adotar sua reforma - cuja medida mais simbólica é aumentar a idade de aposentadoria de 62 para 64 anos - sem submetê-la ao voto dos deputados, temendo uma derrota no Parlamento, ao recorrer a um mecanismo legal, mas controverso: o artigo 49.3 da Constituição. Em meio a gritos da oposição e cantos do hino nacional, a primeira-ministra Élisabeth Borne formalizou a reforma pouco depois na Assembleia Nacional (câmara baixa), desencadeando protestos em várias cidades que deixaram mais de 300 detidos.

Em Paris, a polícia usou gás lacrimogêneo e jatos de água na quinta-feira à noite para dispersar os manifestantes reunidos na Place de la Concorde, perto da Assembleia. Incidentes também foram relatados em Rennes, Nantes e Lyon. "A oposição é legítima, as manifestações são legítimas, a desordem não", disse o ministro do Interior, Gérald Darmanin, à rádio RTL, antes de alertar que o governo não permitirá o surgimento de "manifestações espontâneas".

O líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon "encorajou", por sua vez, "manifestações espontâneas" em todo o país, enquanto aguarda o novo dia de protestos massivos convocados pelos sindicatos na próxima quinta-feira. Protestos esporádicos e pontuais se multiplicaram na França com o bloqueio das escolas de ensino médio, linhas ferroviárias, centros de distribuição de correio, entre outros. Em Paris, as montanhas de lixo continuam se acumulando e o governo prepara requisições dos trabalhadores em greve.

"Fracasso" 

O governo está sob pressão. Para os analistas, o uso do artigo 49.3, em vez de submeter o plano à votação, é um "fracasso" e simboliza a "fraqueza" de Macron, que coloca em risco seu segundo mandato. O presidente poderia se salvar "anunciando que a lei será revogada após essa adoção antidemocrática. Mas não é típico dele ouvir os franceses", afirma o editorial do jornal esquerdista Libération.

"Não é um fracasso", argumentou o ministro do Trabalho, Olivier Dussopt, aos veículos RMC e BFMTV. "Nossa vocação é continuar governando", disse o porta-voz do governo, Olivier Véran, à rádio France Inter. Mas a primeira-ministra parece muito debilitada, depois de ter defendido durante meses o diálogo com a oposição para tentar aprovar esta reforma.

Dois em cada três franceses são contra a reforma. A líder da extrema direita Marine Le Pen, cujo partido aparece cada vez mais forte nas pesquisas sobre o conflito social, já anunciou a apresentação de uma moção de censura ao governo, a única forma de derrubar a reforma. (AFP)