Falta de mão de obra pressiona pela retenção de profissionais

Estudo do FecomercioSP cita estratégias de empresas para manter funcionários

Por Cruzeiro do Sul

Setor de serviços vive escassez de trabalhadores

O apertado mercado de trabalho brasileiro caminha para reproduzir fenômenos vistos nos Estados Unidos na década de 80 e no Brasil no período que antecedeu e durante o ano de 2008, nos quais as empresas se viram obrigadas a oferecer prêmios salariais para atrair e reter mão de obra qualificada.

Estudo do Conselho de Serviços da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) tomando como base o setor de serviços, confirma para onde caminha o cenário ao afirmar que a escassez de mão de obra nos serviços tem se agravado em meio ao aquecimento do mercado de trabalho, elevando a dificuldade de retenção de profissionais.

“O setor abrange 57% dos empregos formais no País e responde por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB), o que amplia os impactos da falta de trabalhadores sobre a atividade econômica. Ao mesmo tempo, indicadores revelam vínculos mais curtos e aumento da rotatividade, mesmo diante do crescimento expressivo das contratações”, diz o levantamento.

Um dos principais sinais desse quadro, segundo a entidade, é a queda no tempo médio de permanência no emprego (TMP). Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026, o indicador recuou 27% e 27,2%, de 6,8 meses no Brasil e 6,3 meses em São Paulo, respectivamente. Isso evidencia relações de trabalho mais breves e maior dificuldade das empresas para manter seus quadros. “Apesar disso, o volume de admissões avançou em torno de 80% no período analisado, indicando um mercado aquecido, porém mais instável”, observa a FecomercioSP.

Na prática, as empresas estão contratando mais, mas estão enfrentando dificuldades para reter trabalhadores, o que eleva custos operacionais, exige investimentos contínuos em treinamento e afeta a produtividade. Segundo o presidente do Conselho de Serviços da FecomercioSP, Marcelo Braga, o momento exige uma mudança de foco por parte dos empresários. “Hoje, mais do que contratar, o empresário precisa pensar em como reter. O mercado está mais dinâmico e o profissional circula mais”, afirma.

De acordo com o estudo, no Brasil a redução no tempo de permanência nas empresas foi generalizada entre diferentes faixas etárias, mas mais intensa entre trabalhadores de 50 a 64 anos, grupo que apresentou as maiores quedas em termos absolutos e relativos. O movimento reflete mais mobilidade no mercado, em especial entre profissionais mais experientes, que encontram mais oportunidades e passam a trocar de emprego com mais frequência.

Outro aspecto observado é a mudança no perfil das contratações, com aumento da participação relativa de trabalhadores mais velhos. Esse comportamento, que também foi visto no Brasil nos anos que antecederam e o próprio 2008, ocorre em paralelo ao crescimento das admissões e sugere uma reconfiguração da força laboral, com maior valorização da experiência.

Na análise por atividade, alguns segmentos se destacam pelo ritmo de expansão das contratações em São Paulo. Alojamento e alimentação lideram, com alta de 159,4%, seguidos por outros serviços, 112,8%, e transporte e armazenagem, 81,9%. Esses setores, tradicionalmente mais intensivos em mão de obra e com mais rotatividade, tendem a sentir de forma mais acentuada os efeitos da escassez. (Estadão Conteúdo)