Vitória de Lula marca 1ª virada em disputa de 2º turno

Presidente enfrentará desafios de fazer ajuste fiscal e de ter oposição forte no Congresso em seu quarto mandato

Por Estadão Conteúdo

Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para um quarto e inédito mandato como presidente da República. Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), marcando a primeira virada em uma disputa presidencial na história entre o primeiro e o segundo turno.

Lula ampliará o período de poder do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil pós-redemocratização. Esta é a sexta eleição presidencial vencida pelo PT desde o fim da ditadura militar e volta do voto direto para presidente.

O atual presidente e agora presidente reeleito teve 51,78% dos votos neste segundo turno, com contagem até 22h15 de ontem (15). Flávio Bolsonaro tinha 48,22%.

Desafios do mandato

Lula, de 80 anos, aumentará a marca de presidente mais velho a tomar posse. Ele completará 81 anos amanhã (27). Michel Temer, aos 75 anos, e Getúlio Vargas, aos 68 anos, são o segundo e o terceiro lugar nesse ranking.

Lula é o líder democraticamente eleito a ocupar a Presidência do País por mais tempo e estenderá esse período por mais quatro anos, caso finalize o mandato. Serão 16 anos no posto mais alto do Poder Executivo do País. Getúlio Vargas ocupou o cargo por 18 anos e meio, mas a maior parte foi durante a ditadura do Estado Novo.

O presidente reeleito terá o desafio de liderar, nos próximos quatro anos, uma agenda de ajuste fiscal, diante da deterioração da dívida em relação ao PIB. Os integrantes da campanha responsáveis pela pauta econômica já anunciaram que será necessário conter gastos para evitar uma bomba fiscal nos próximos anos.

Lula também terá de lidar com um País ainda mais dividido do que em 2022 e com um Congresso mais hostil, com o fortalecimento da direita bolsonarista e o achatamento do centro liberal e do Centrão. Tem a seu favor, se souber utilizar bem isso, as numerosas mobilizações a seu favor que tomaram as ruas a partir do primeiro turno.

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e um possível impeachment contra ministros da Corte, em especial o ministro Alexandre de Moraes, também representarão um desafio para Lula neste quarto mandato. O presidente reeleito contou, em seu terceiro mandato, com o apoio do STF para garantir sua governabilidade. Neste quarto mandato, terá de rever essa correlação de forças políticas para aprovar sua agenda.

A última campanha de Lula como presidente começou oficialmente com um ato em São Bernardo do Campo, no estádio da Vila Euclides, local onde foram realizados atos históricos das greves do ABC na década de 1970. Foi uma ideia de dar à campanha um tom de despedida e de defesa do legado do político mais longevo do País em atividade. Essa linha foi seguida ao longo de todo o primeiro turno.

Após o resultado decepcionante no primeiro turno, quando ficou atrás de Flávio Bolsonaro, a campanha fez uma correção de rotas. Lula e seus aliados passaram alguns dias discutindo os erros e como mudar o rumo da disputa. O presidente chegou a dizer, em um evento com petistas, que esta foi a campanha "menos organizada" da qual participou desde 1989.

A campanha ganhou uma nova energia com uma atuação mais agressiva e coordenada nas redes sociais, comandada pelo deputado reeleito André Janones (Rede-MG). Janones criou um canal no WhatsApp para organizar as ações nas redes sociais. Reuniu mais de 10 milhões de usuários em cerca de duas semanas.

Manifestações em todo o Brasil também ajudaram o presidente a reduzir a diferença para Flávio Bolsonaro durante o segundo turno da campanha.

Oposição

O senador eleito pelo Rio de Janeiro Portinho (PL) afirmou logo após a confirmação da reeleição do presidente Lula que o Senado será uma "trincheira" da oposição. Em publicação no X, o parlamentar sinalizou que seu grupo político continuará atuando contra o governo petista

"Estamos polarizados e não seria diferente. E o Senado será nossa trincheira. Teremos reforço. E não desistiremos do nosso Brasil. Nunca!", escreveu.

A campanha de Flávio preparou um evento de comemoração numa casa do Lago Sul. Após a derrota, porém, os convidados passaram a deixar o local.

A derrota de Flávio Bolsonaro foi recebida com indignação por nomes da direita, que reagiram com acusações de fraude, críticas à prorrogação do horário de votação e mensagens de preocupação com os próximos quatro anos.

Uma das reações mais contundentes veio da deputada federal eleita por São Paulo Marina Helena (Novo), que acusou, sem apresentar provas, a ocorrência de fraude eleitoral.

O deputado estadual Anderson Moraes (PL-RJ) colocou sob suspeita o resultado após citar o avanço eleitoral da direita e o desempenho de Flávio no primeiro turno.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, reagiu com uma mensagem curta: "Que Deus tenha misericórdia do Brasil..." (Estadão Conteúdo)