Crises diplomáticas com EUA e Argentina se agravam
Governo de Trump revogou visto da embaixadora brasileira e Itamaraty rebaixou representação frente ao governo argentino
As relações entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, e seu aliado argentino, Javier Milei, sofreram uma grave deterioração.
O governo de Donald Trump revogou na terça-feira (4) o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após já ter aplicado, em julho, duas rodadas de tarifas sobre produtos brasileiros que Lula denunciou como tentativas de interferência política.
O Itamaraty também rebaixou na terça-feira sua representação diplomática na Argentina ao nível de encarregado de negócios, depois que o presidente argentino, o ultraliberal Milei, chamou Lula de "ladrão" pela segunda vez em poucos dias. O Brasil convocou, em julho, seu embaixador na Argentina para consultas.
Lula mantém uma relação fria com Milei desde que o ultraliberal assumiu a Presidência da Argentina, em 2023. À frente de dois países vizinhos e parceiros estratégicos no Mercosul, os dois jamais realizaram uma reunião bilateral.
Milei é aliado de Trump, que apoiou candidatos de direita vitoriosos em recentes campanhas eleitorais em países da América Latina, como Honduras e Colômbia.
"Não dá para ninguém pensar que vai se intrometer, de fora, aqui" nas eleições de outubro, afirmou Lula ontem (5), em entrevista ao canal digital Meteoro Brasil.
Ao sancionar a embaixadora brasileira, o governo Trump "tomou uma atitude irresponsável, impensada, (...) totalmente desnecessária", acrescentou.
A medida não implica a expulsão da representante diplomática, embora, se ela deixar os Estados Unidos, não possa retornar ao país.
Lula enfrenta tensões com Washington desde 2025, quando Trump impôs uma primeira rodada de tarifas sobre o Brasil - posteriormente suspensa em grande parte — em represália a um julgamento por tentativa de golpe de Estado que terminou com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) preso.
O governo brasileiro negou em julho os vistos a dois funcionários americanos "que viriam para se intrometer, fiscalizar e investigar as urnas (eletrônicas)", disse Lula ontem.
O Departamento de Estado negou qualquer intenção de "minar as eleições" brasileiras e cobra do governo Lula a aprovação da nomeação de um novo embaixador americano em Brasília, argumento utilizado para revogar o visto da representante brasileira em Washington. (AFP)