Campanha nacional alerta para aliciamento de crianças e adolescentes pela internet

Iniciativa que chama a atenção para o tráfico de pessoas no ambiente digital foi desenvolvida pela Anac em parceria com a Asbrad e o MPT, por meio do projeto Liberdade no Ar

Por Da Redação

Segundo a ONU, em 2024, uma em cada três vítimas de tráfico de pessoas no mundo foi criança ou adolescente

Uma conversa aparentemente inocente nas redes sociais. Um convite para uma oportunidade de trabalho, viagem ou amizade. O que começa no ambiente virtual pode terminar em uma grave violação de direitos humanos. É para alertar sobre essa realidade que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (Asbrad), o Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio do projeto Liberdade no Ar, e outras 14 instituições parceiras, lançaram no início de julho, uma nova campanha nacional de conscientização sobre o tráfico de pessoas e o trabalho escravo.

A iniciativa quer sensibilizar passageiros, trabalhadores do setor aéreo, famílias e toda a sociedade para um cenário cada vez mais preocupante: o uso da internet como porta de entrada para o aliciamento de crianças e adolescentes, que pode ser denunciado pelo Disque 100. Os números reforçam esse alerta. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em 2024, uma em cada três vítimas de tráfico de pessoas no mundo é criança ou adolescente. Já um levantamento da Unicef, de 2025, aponta que 52% dos casos tiveram início por meio de contatos feitos pela internet. No Brasil, somente em 2024, a SaferNet identificou 49 mil páginas com indícios de abuso sexual infantil online.

O lançamento da campanha, que será veiculada em terminais de passageiros de diversos modais, estádios de futebol e locais de passagem de pessoas, ocorre em um momento especialmente relevante, marcado pela entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), que amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual e reforça a responsabilidade de famílias, educadores, empresas e do poder público na prevenção de crimes praticados pela internet. A campanha também fez parte da agenda de julho, marcada pelo Julho Azul, destacando o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, no dia 30.

Projeto Liberdade no Ar

A campanha também reforça as ações do projeto Liberdade no Ar, iniciativa coordenada pelo Ministério Público do Trabalho para prevenir o tráfico de pessoas e combater o trabalho em condições análogas à escravidão. O projeto reúne instituições públicas e organismos internacionais, como a Organização Internacional para as Migrações (OIM), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça, a Anac, a Infraero, a Asbrad e a campanha Coração Azul contra o Tráfico de Pessoas.

A iniciativa está alinhada ao Protocolo de Palermo, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas e aos Planos Nacionais de Erradicação do Trabalho Escravo e de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Ao reunir governo, sistema de Justiça, organizações internacionais e sociedade civil, a campanha reforça que enfrentar o tráfico de pessoas depende da atuação conjunta de toda a sociedade. A mensagem é clara: por trás de uma simples conversa na internet pode existir uma tentativa de aliciamento. Informar, orientar e acompanhar crianças e adolescentes é uma das formas mais eficazes de impedir que essas histórias avancem do ambiente virtual para a vida real.

O perigo nem sempre é visível

A campanha foi construída de forma colaborativa entre todos os parceiros envolvidos, desde a definição da mensagem até a criação da identidade visual, buscando traduzir para o público uma realidade que muitas vezes passa despercebida. O conceito criativo estabelece um contraste entre o ambiente virtual, onde o aliciamento frequentemente começa, e suas consequências no mundo real. A identidade visual utiliza elementos inspirados nas notificações de aplicativos de mensagens, aproximando a campanha do universo digital frequentado por crianças e adolescentes. A proposta é mostrar que o perigo pode surgir de forma silenciosa, escondido atrás de uma conversa aparentemente comum. Além disso, a campanha faz uma relação entre a preocupação em deixar uma criança viajar sozinha e navegar na internet sem supervisão.

As peças utilizam cores de alto contraste, tipografia de forte impacto e recursos visuais que remetem à urgência e ao alerta. O destaque dado às palavras "supervisão" e "internet" conduz rapidamente o olhar para a principal mensagem da campanha: a presença e o acompanhamento dos adultos continuam sendo uma das formas mais eficazes de proteção.

O vídeo acompanha a rotina de uma adolescente em seu quarto, utilizando um tablet, até o momento em que ela aparece sozinha em um terminal de passageiros, sugerindo, de forma sutil, o processo de aliciamento iniciado no ambiente digital. A narrativa evita cenas explícitas e aposta na conscientização por meio da reflexão.