Moradores convivem com angústia à espera de notícias

Por Cruzeiro do Sul

Bombeiros utilizam cães farejadores na busca por soterrados.

Ruas enlameadas, ônibus caídos em córregos, inúmeros veículos uns sobre os outros, casas destruídas, falta de energia elétrica em diversos bairros e uma quantidade de mortos que só aumenta. Há ainda incerteza sobre o total de desaparecidos, uma vez que não se sabe ao certo quantas casas estão soterradas no Morro da Oficina.

A área foi a mais atingida pelas chuvas em Petrópolis (RJ). Ao longo da madrugada e de toda a manhã, bombeiros, moradores e voluntários trabalharam no resgate de vítimas. No pé do morro, amigos e parentes aguardavam em vão por notícias, uma vez que o sinal de celular praticamente inexiste.

“Vim por causa de um colega. A mãe e a filha dele, de cinco anos, estão soterradas”, contou Letícia Jennifer, de 28 anos. “Meu colega ficou a noite toda ajudando a cavar. A casa está soterrada, ela tem três andares e o segundo está soterrado.”

Letícia é tia de Emanuelle, uma das crianças que estava na escola José Fernandes da Silva, que fica na mesma área e que teve os fundos parcialmente destruídos. “Ela (Emanuelle) falou que foi horrível, que parecia filme de terror. A água batendo nela, as cadeiras. Um amiguinho ficava segurando a mão do outro, porque a correnteza estava muito forte.”

A mãe de Emanuelle só foi ter notícias da filha por volta das 22h, quando a encontrou no Pronto Socorro que fica ao lado. “Minha filha ficou soterrada, foi levada pra UPA cheia de barro, bebeu água de lama”, narrou a dona de casa Dayana Gonçalves. “Ela me disse que os alunos agiram por conta própria. Muitos ficaram machucados, havia muitos em estado de choque. Minha filha está muito assustada e disse que não vai mais pra escola ‘

A costureira Sheila Mara Loiola, de 45 anos, também estava à espera de notícias sobre desaparecidos. Ela disse que acolheu muitas pessoas em sua casa desde a noite de terça. “Dois amigos nossos perderam a família inteira. Teve uma menina que só sobrou ela, não sobrou ninguém da família. Foi mãe, marido, todo mundo.”

Moradores usaram as redes sociais para contar o drama. As publicações e os vídeos incluem deslizamentos, enxurradas com veículos e árvores e até relato de arrastão após os temporais. “Gente se aproveitando do caos para roubar as pessoas e lojas”, disse o youtuber Peter Jordan num vídeo. 

Tragédias são frequentes na região

Em 2011, a região serrana do Rio viveu outra catástrofe natural por causa de chuvas e deslizamentos de terra, considerada a maior tragédia climática do Brasil. Na época, em poucas horas, um temporal na madrugada do dia 12 de janeiro matou mais de 900 pessoas em três municípios -- 130 em Teresópolis, 97 em Nova Friburgo e 18 em Petrópolis. Não foi só: em 2001, foram 57 mortos em Petrópolis e, em 2013, houve outra tragédia por causa da chuva, com 33 mortos.

A chuva extrema que atingiu a serra do Rio nesta terça-feira (15) foi motivada pela formação de áreas de instabilidade a partir da passagem de uma massa de ar fria pelo Estado e potencializada pelas características do relevo da região, segundo meteorologistas.

Ao chegar à região, a massa de ar frio resultou na chamada “chuva orográfica” ou “chuva de relevo”, na qual as características de serra forçam uma elevação dos ventos úmidos, o que leva a um encontro com temperaturas mais baixas e a consequente precipitação.

“O relevo obriga a umidade a subir na atmosfera e formar nuvens que devolvem a umidade na forma de chuva”, explica Estael Sias, meteorologista da MetSul.

Também influenciam para o cenário catastrófico o histórico recente de chuvas, as mudanças climáticas, a urbanização desordenada e a ocupação do solo, por exemplo. (Estadão Conteúdo)