Exterior

Equipe de Trump leva sua campanha nas redes sociais ao limite

Twitter tomou medidas drásticas, apagando ou alertando sobre várias mensagens do presidente
Nicholas Kamm

 

A campanha do presidente Donald Trump divulgou três vídeos nas redes sociais sobre seu rival democrata. Em um, o ex-vice-presidente parece adormecido, em outro “escondido” – e sozinho – em um sótão e em um terceiro diz: “você não estará seguro” nos Estados Unidos de Joe Biden. Todos foram classificados pelas grandes redes sociais e verificadores de informação como conteúdo falso ou manipulado.

Embora as campanhas difamatórias são praticamente uma tradição na política americana, o uso de imagens adulteradas digitalmente pelas equipes de Trump e outros candidatos em 2020 preocupa as gigantes da tecnologia. O Twitter tomou medidas drásticas, apagando ou alertando sobre várias mensagens do presidente.

O Facebook, citando o risco de distúrbios civis, anunciou na quinta-feira que não permitirá novos anúncios políticos em sua plataforma na última semana antes das eleições presidenciais, marcadas para 3 de novembro. Restam dúvidas sobre se estas mensagens, quase impossíveis de deter após viralizarem, estão influenciando os eleitores, mas é certo que um limite já foi ultrapassado.

“Existe uma longa tradição de que os políticos que se enfrentam apresentam palavras ou crenças de seus oponentes de maneira editada. Isso faz parte da política”, lembra à AFP Ethan Porter, professor de comunicação e assuntos públicos da Universidade George Washington.

“Por outro lado, os partidários de Trump colocaram em prática uma campanha completamente alheia à realidade, de uma maneira com pouco ou nenhum precedente na história política americana”, continua. A campanha de Biden ainda não recebeu o mesmo tipo de censura que a de Trump.

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Resta saber se a manipulação de anúncios e vídeos políticos de maneira tão evidente pode produzir resultados. Os números divulgados pela Real Clear Politics praticamente não mudaram

após a convenção republicana, durante a qual Trump intensificou seus ataques contra Biden, que está sete pontos percentuais à frente do presidente nas pesquisas a nível nacional. Mas, nos chamados “swing states” (estados indecisivos que podem definir a eleição), tudo ainda é uma incógnita.

Unilateral

“A maioria da informação manipulada foi usada pela campanha de Trump para tentar ter mais ‘provas aparentemente tangíveis’ das afirmações que fazem, porque eles não têm provas reais”, analisou Shannon McGregor, professora da Escola de Jornalismo Hussman da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Um método similar foi usado em 2016, mas a tecnologia fez com que as manipulações sejam agora mais acessíveis e sofisticadas.

A campanha de Trump acusou as empresas de tecnologia de usarem dois pesos e duas medidas quando o assunto são vídeos contra Biden. “As elites costeiras liberais do Vale do Silício são descaradamente unilaterais quando se trata de definir quais são os meios manipulados”, critica à AFP Samantha Zager, subsecretária de imprensa da administração Trump.

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Contudo, McGregor garante que, ao invés de tentar atrair novos eleitores, “a retórica de Trump é realmente polarizante”. Um exemplo foi uma publicação no Facebook em 30 de agosto de Donald Trump Jr., depois da morte a tiros de Aaron Danielson em Portland.

“ALERTA, HORROR: Antifa aponta e executa partidário de Trump”, afirmou o filho mais velho do presidente na publicação, que incluía um vídeo que foi visto mais de 780.000 vezes e que recebeu cerca de 50.000 ‘likes’.

Um suspeito de pertencer ao movimento antifascista Antifa foi assassinado a tiros na quinta-feira quando a polícia tentava prendê-lo.

Cartas marcadas

Os atos de violência em Portland aconteceram logo antes do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, anunciar restrições para anúncios políticos em sua rede social, justificadas pelas dúvidas sem fundamento plantadas pela campanha de Trump sobre o voto à distância.

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Porter disse que a equipe de Trump está convencida de estar jogando com cartas marcadas. “Acreditam que sua estratégia para as redes sociais em 2016 fez eles vencerem a eleição”, garante.

“Não se pode dizer que não será eficaz, mas se Trump vencer não posso imaginar que isso seja um dos principais motivos ou os mais prováveis de sua eventual vitória”, completa Porter, reafirmando a importância da verificação de dados e informações.

Cyrus Krohn, que comandou a campanha digital para o Comitê Nacional Republicano para as eleições de 2008, pensa que a disputa deste ano “parece estar apertada” e que isso seria atribuível “ao fator do medo que está sendo criado na internet”.

Isso significa, segundo o especialista, que a manipulação midiática está funcionando para a equipe de Trump. “Há facções da esquerda que gostariam de ver a campanha de Biden usando as mesmas táticas que a campanha oficial de Trump”, afirma.  (Ian Timberlake, Arthur MacMillan – AFP)

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