Alvo de revolta da população, governo do Líbano recebe socorro internacional

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Suprimentos médicos são carregados em um Boeing 737-800, no Bahrein, em direção à capital do Líbano. Crédito da foto: Mazen Mahdi / AFP (7/8/2020)

Suprimentos médicos são carregados em um Boeing 737-800, no Bahrein, em direção à capital do Líbano. Crédito da foto: Mazen Mahdi / AFP (7/8/2020)

Liderados pela França, vários países começaram quinta-feira (6) a enviar ajuda emergencial para o Líbano, em razão da explosão que deixou 137 mortos e dezenas de desaparecidos, na terça-feira (3). O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro líder político a visitar a capital libanesa e caminhar pelas ruas da cidade - antes mesmo das autoridades locais. Acusada de negligência, a classe política do país virou alvo da fúria da população.

Entre os prédios destruídos do bairro de Gemmayze, equipes de resgate reviravam escombros e voluntários removiam pilhas de vidro e detritos. O cenário caótico foi o pano de fundo da caminhada de Macron. "Garanto que a ajuda não vai para mãos de corruptos", disse o presidente francês a um homem que acompanhava a comitiva.

Mais tarde, Macron disse que sua visita - que foi feita sem um convite do governo - era uma "oportunidade de ter um diálogo franco e desafiador com as instituições políticas libanesas". A ajuda da França, segundo ele, se concentraria nas necessidades humanitárias. "Se as reformas não forem feitas, o Líbano continuará a afundar."

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Na quarta-feira, dois aviões militares franceses voaram para o Líbano transportando 55 funcionários da Defesa Civil especializados em emergências, 15 toneladas de equipamentos e uma unidade móvel de saúde para atender 500 feridos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a União Europeia enviará € 33 milhões (cerca de R$ 208 milhões) ao Líbano para ajudar na recuperação. A declaração foi feita durante um telefonema entre ela e o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, na manhã de ontem.

Desabrigados

Outros países também mandaram ajuda emergencial. O Catar enviou hospitais de campanha, geradores de energia elétrica e ataduras contra queimaduras, enquanto a Argélia preparou quatro aviões e um navio com ajuda humanitária, equipes médicas e bombeiros.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) prometeu enviar utensílios cirúrgicos. A Alemanha despachou dezenas de especialistas em resgate para ajudar nas operações de busca por sobreviventes sob os escombros.

Após a tragédia, o maior desafio para os habitantes de Beirute é acomodar os cerca de 300 mil desabrigados - a explosão dizimou um pedaço do centro da cidade.

O porto era um centro crucial, com 60% das importações do país fluindo por ele, em uma cidade que é o motor econômico do Líbano As operações portuárias agora estão paralisadas e o suprimento de grãos foi destruído, aumentando as preocupações sobre a segurança alimentar dos 6,8 milhões de libaneses. A calamidade agravou a crise financeira e política, com inflação crescente e desemprego generalizado.

As causas do acidente ainda são desconhecidas. A origem da primeira explosão é um mistério - há relatos de que o estopim foi o estouro de fogos de artifício em um armazém, mas a imprensa local disse que o primeiro incêndio pode ter sido causado por trabalhos de soldagem de estruturas.

A explosão que provocou a devastadora onda de choque em Beirute foi resultado da combustão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio que estavam estocados de maneira imprópria havia 6 anos em um armazém portuário. A ONG Human Rights Watch pediu ontem ao governo libanês que convide especialistas internacionais para conduzir uma investigação independente sobre a tragédia.

Bahaa Hariri, um bilionário libanês e irmão do ex-primeiro-ministro Saad Hariri, também pediu uma investigação internacional sobre a explosão e uma reforma política no Líbano. "Esse relacionamento simbiótico e falido entre funcionários do governo e senhores da guerra tem de acabar", disse Hariri, em Londres. "E chegará ao fim. Precisamos de uma investigação internacional que não esteja sob o controle do governo. Não acreditamos sequer em uma palavra do que eles dizem."

Revolta

Na quinta-feira (6), em Gemmayze, uma multidão furiosa cercou Macron para denunciar o governo do Líbano. "Como você quer dar dinheiro a eles? Eles não roubam?", gritou um homem, referindo-se à elite política do Líbano. "Você está protegendo bandidos", disse outro, enquanto Macron implorava à multidão. "Você confia em mim?", respondia o francês, conforme imagens transmitidas pela TV libanesa.

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"A França está pronta para pressionar por um grande pacote de ajuda da UE, possivelmente do Banco Europeu de Desenvolvimento. Mas terá de haver condições muito rigorosas para determinar como o dinheiro será gasto, provavelmente sob supervisão internacional", disseram Ayham Kamel e Mujtaba Rahman, analistas do grupo de risco político Eurasia Group.

"As condições econômicas se tornarão mais agudas e a necessidade de ajuda externa será ainda mais vital", disseram eles, em nota. De acordo com Rahman e Kamel, o maior desafio a ser superado pela comunidade internacional é que "os partidos políticos libaneses não estão interessados em reformas profundas e não estão convencidos de que ela traria um apoio financeiro internacional significativo". (Estadão Conteúdo, com agências internacionais)