Gatãozinho: quinzista de coração azul

Por Eric Mantuan

Recordista de jogos pelo São Bento é filho de ídolo do XV e começou carreira "do outro lado".

As histórias de São Bento e XV de Piracicaba estão interligadas na vida de José Fernando Naval, o Gatãozinho, hoje com 68 anos. O lado azul aponta que ele é o recordista de partidas na história do Azulão: foram 369 jogos disputados, sendo 305 oficiais, nas temporadas de 1974 a 1981 e em 1990. E no lado alvinegro está a memória de seu pai, Vicente Naval Filho, o atacante Gatão, maior artilheiro da história do XV de Piracicaba com mais de 200 gols marcados. Além disso, foi o Nhô Quim que lhe deu a chance de estrear como atleta profissional, em 1973, após dois anos na base do Corinthians.

“Naquele ano fizemos dois jogos contra o São Bento e em 1974 eu fui contratado”, relembra Gatãozinho, que até hoje mora em Piracicaba. Seu primeiro gol pelo Azulão, aliás, foi justamente contra o XV: uma vitória por 2 a 1 em 27 de abril de 1974, conforme os dados do historiador Guilherme Feliciano.

Contra o XV, as memórias são de jogos sempre muito difíceis, principalmente pela “guerra” declarada pelo presidente do XV na época, Romeu Ítalo Rípoli, contra o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), o sorocabano Alfredo Metidieri, que havia sido presidente do São Bento. A disputa política chegou a tal ponto de duas partidas entre os clubes serem suspensas por confusões, em 1976 (no estádio Barão de Serra Negra) e 1977 (no Humberto Reale), por brigas incentivadas ou diretamente iniciadas pelo dirigente quinzista. Os dois jogos só puderam ser realizados posteriormente em campos neutros. “Eu tinha um gosto muito pessoal de vencer o XV, por ser piracicabano, pela rixa criada. Meu pai, meu maior torcedor, às vezes ouvia xingamentos contra mim vindos da torcida, mas eu sempre tive cabeça boa quanto a isso, e queria mostrar para eles que eu estava muito bem.”

Quando perguntado para quem irá torcer nestas quartas de final, Gatãozinho reconhece que está dividido. Mas não esconde por qual time seu coração bate mais forte. “Eu gosto do XV e gosto do São Bento. Em Sorocaba devo muito ao São Bento, foi o time que mais joguei, fiz muita amizade, sou muito querido, o pessoal me considera muito e eu também tenho esse reconhecimento e gratidão por Sorocaba. Eu estou dividido, lógico, e qualquer resultado me agrada de um lado e desagrada do outro. Mas eu respondo o seguinte: tenho muitos motivos para torcer pelo São Bento, e alguns motivos para torcer pelo XV”. 

Primeira taça do Azulão foi contra o XV

O historiador Guilherme Feliciano aponta que os primeiros confrontos entre São Bento e XV de Piracicaba ocorreram em 1917, na disputa da taça Pierrot — primeira conquista do time de Sorocaba. No período amador, foram oito partidas, com três vitórias do São Bento, um empate e quatro triunfos quinzistas entre 1917 e 1946. Na fase profissional do Azulão, a partir de 1953, foram 27 amistosos (9 vitórias beneditinas e 12 do XV). As equipes jogaram 77 partidas oficiais, a primeira em 1963 e a última na Série A2 deste ano. O confronto está equilibradíssimo: foram 28 vitórias do São Bento contra 27 do XV, mais 22 empates, com 80 gols para cada time.

Curiosamente, a decisão mais significativa foi no “rebolo” de 1981, valendo vaga na Divisão Especial do Paulista 1982. O XV venceu a primeira partida por 1 a 0, o São Bento deu o troco pelo mesmo placar e, na melhor de três, empate sem gols e vitória do São Bento nos pênaltis, por 3 a 1, assegurando os sorocabanos na elite por mais um ano e impedindo o acesso piracicabano.

Basquete

Também houve uma época em que Sorocaba e Piracicaba eram rivais nas quadras de basquete. A Minercal (depois Constecca) tinha a rainha Hortência. Pelo Unimep (depois BCN), Magic Paula. “Era uma tensão sensacional. Vendramini e Maria Helena, os treinadores, “escondendo” seus segredos. Duelos como Branca x Paula, Vânia Hernandes x Vanira. As pivôs Anne e Ruth contra Marta e as americanas Deborah Lee e Charlotte — tempos depois se agregou a provocadora argentina Karina Rodrigues, pivô ‘devastadora’ de defesas e garrafões, que arrumava encrenca com toda equipe de Sorocaba”, relembra o jornalista Rivail Oliveira, que foi setorista de basquete pela rádio Clube de Sorocaba entre 1984 a 1991. Mas antes, nos anos 1950 e 1960, tempos de Cida Comitre e Maria Helena, as duas cidades já eram ferrenhas adversárias. (Eric Mantuan)