Barrichello cobra R$ 2,4 milhões da Scuderia Bandeiras na Justiça; equipe se manifesta

Time de Átila Abreu afirma que nunca impediu piloto de defender outra equipe e oferece estrutura, sem custos, para retorno às pistas

Por Murilo Aguiar

Piloto também busca suspender a cláusula de exclusividade prevista no contrato para poder defender outra equipe

A saída da Scuderia Bandeiras da Stock Car, anunciada no início de julho em meio a uma disputa da equipe com a organização da categoria, ganhou um novo capítulo fora das pistas. Rubens Barrichello entrou na Justiça contra o time comandado pelo piloto sorocabano Átila Abreu e empresas ligadas à escuderia, em uma ação de aproximadamente R$ 2,4 milhões envolvendo o contrato firmado para a temporada de 2026. Procurada, a Bandeiras afirmou que nunca se opôs à liberação do bicampeão da Stock Car para competir por outra equipe.

As informações sobre o processo foram reveladas pelo Motorsport.com. A ação tramita na 10ª Vara Cível da Comarca de Sorocaba e envolve pedidos de resolução contratual, cobrança e reparação por danos materiais e morais.

Barrichello sustenta no processo que foi contratado para disputar exclusivamente a temporada de 2026 pela Scuderia Bandeiras. O acordo previa remuneração total de R$ 2 milhões, dividida em dez parcelas mensais de R$ 200 mil, além de comissão sobre patrocínios provenientes do Grupo ALE.

A relação foi afetada pela decisão da Bandeiras de deixar a Stock Car em 1º de julho, quando cinco das 12 etapas previstas para a temporada haviam sido realizadas. De acordo com a ação, Barrichello cumpriu as obrigações assumidas até aquele momento e respeitou a cláusula de exclusividade prevista no contrato, mas ficou sem carro e estrutura para continuar no campeonato após a saída da equipe.

Entre os pontos discutidos está uma multa contratual. O acordo previa penalidade de R$ 2 milhões em caso de descumprimento injustificado de cláusula considerada essencial, com redução proporcional ao período já cumprido. O valor reivindicado por esse item foi calculado proporcionalmente.

Barrichello também pede R$ 200 mil por danos morais e à imagem. Somadas as parcelas contratuais, multa, comissão e indenização, o valor atribuído à causa chega a R$ 2.405.666,67.

O piloto também busca a suspensão da cláusula de exclusividade. O argumento apresentado é de que, embora a Scuderia Bandeiras tenha deixado a Stock Car, o vínculo contratual continuaria impedindo que ele buscasse outra equipe para permanecer na competição.

Bandeiras diz que nunca impediu Barrichello de correr

Em posicionamento, a Scuderia Bandeiras afirmou que não se opôs à possibilidade de Barrichello defender outro time. A equipe também declarou que está disposta a disponibilizar sua estrutura gratuitamente para viabilizar o retorno do piloto ao grid.

“A Scuderia Bandeiras reforça que nunca se opôs à liberação de Rubens Barrichello para competir por outra equipe e mantém, inclusive, acima de qualquer divergência contratual, à disposição do piloto, a custo zero, o carro, carreta, estrutura, engenheiros e mecânicos para viabilizar a sua volta ao grid”, informa.

A equipe ressaltou ainda a relação construída com o ex-piloto de Fórmula 1 e afirmou que a disputa contratual não modifica a consideração pelo competidor.

“Destaca algo que sempre foi verdadeiro dentro da Scuderia Bandeiras: a admiração e o respeito por Rubens Barrichello. Rubens construiu uma das histórias mais importantes do automobilismo brasileiro e fez parte da história da nossa equipe. As questões contratuais não apagam os momentos vividos, as conquistas compartilhadas e, muito menos, o respeito construído ao longo dessa caminhada.”

Segundo a Bandeiras, a expectativa é de que as divergências sejam solucionadas entre as partes. Átila Abreu também afirmou que deseja ver Barrichello novamente nas pistas.

“Independentemente dessas questões, o desejo continua sendo o mesmo: ver Rubens fazendo aquilo que sempre fez tão bem, acelerando e disputando vitórias nas pistas”, destaca Átila.

A manifestação, entretanto, não detalha a posição da equipe em relação aos valores cobrados por Barrichello, incluindo as parcelas contratuais, multa, comissão e indenização por danos morais e à imagem. 

Entenda a saída da Bandeiras da Stock Car

O processo movido por Barrichello ocorre menos de dois meses depois de a Scuderia Bandeiras anunciar a saída imediata da Stock Car. A decisão foi comunicada em 1º de julho, em meio a disputas judiciais e desportivas entre a equipe e a categoria.

Na ocasião, Átila Abreu afirmou que a escuderia havia investido mais de R$ 20 milhões na estrutura montada para disputar o campeonato. Segundo ele, durante o período na Stock Car, a equipe conquistou duas pole positions, cinco vitórias, 14 pódios e registrou 14 vezes o pit stop mais rápido.

Entre as divergências estava a cobrança relacionada ao chamado “Kit V8”, conjunto de componentes necessário para a mudança técnica dos carros da categoria. A Scuderia Bandeiras questionou a cobrança na Justiça e obteve uma decisão liminar favorável. A discussão envolvia a classificação das alterações como atualização ou evolução do equipamento e, consequentemente, quem deveria arcar com os custos.

Outro conflito ocorreu após punições aplicadas aos carros da equipe. Barrichello e Nelsinho Piquet foram desclassificados da etapa de Interlagos após irregularidades identificadas nas pinças de freio. A equipe recorreu, mas o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) manteve as penalidades por unanimidade.

Fora da esfera desportiva, a Bandeiras também conseguiu uma liminar relacionada às sanções financeiras decorrentes do episódio. Segundo a equipe, os valores envolvidos ultrapassavam R$ 2,3 milhões.

Ao anunciar a saída da Stock Car, Átila afirmou que a equipe passou a enfrentar situações que considerava incompatíveis com seus valores, mencionando cobranças que classificou como indevidas, insegurança jurídica, restrições ao direito de manifestação das equipes e questionamentos sobre procedimentos tributários.

“A história da Scuderia Bandeiras na Stock Car termina hoje. Mas a história da Scuderia Bandeiras no automobilismo está apenas começando”, declarou Átila na ocasião.

A Vicar Promoções Desportivas, responsável pela Stock Car, apresentou uma versão diferente. A organizadora informou que recebeu a comunicação da saída das equipes Bandeiras e Bandeiras Sports após o STJD manter as penalidades aplicadas anteriormente pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).

Segundo a Vicar, as punições decorreram de irregularidades técnicas encontradas em componentes homologados durante fiscalizações e envolviam aspectos relacionados à segurança dos competidores. A empresa afirmou ainda que o procedimento seguiu os regulamentos da categoria e passou pelas instâncias competentes da Justiça Desportiva, com direito de defesa às equipes.

Agora, além das divergências entre a Scuderia Bandeiras e a organização da Stock Car, a decisão de deixar o campeonato também é discutida na esfera judicial por um de seus principais pilotos.