TCC de alunos de jornalismo resgata trajetória das irmãs Ramalho
As protagonistas da obra são as irmãs Rosa Maria, Maria Helena, Maria José (Zezé), Marina e Paula Ramalho fundadoras da Torcida Uniformizada Tira-Prosa
Mais de cinco décadas depois de fundarem a primeira torcida organizada feminina do Brasil, as irmãs Ramalho terão a trajetória reunida pela primeira vez em um livro. Produzida como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) pelos estudantes de jornalismo da Anhembi Morumbi Fabrício Rocha e Maria Eduarda Baddini, a obra Irmãs Ramalho: Futebol no DNA resgata a história das cinco sorocabanas que transformaram a paixão pelo São Bento em um marco para a presença das mulheres nas arquibancadas do futebol brasileiro.
As protagonistas da obra são as irmãs Rosa Maria, Maria Helena, Maria José (Zezé), Marina e Paula Ramalho, fundadoras, em 1975, da Torcida Uniformizada Tira-Prosa. Em um período em que a presença feminina nos estádios ainda enfrentava resistência, elas organizaram uma torcida formada exclusivamente por mulheres para acompanhar o São Bento. Décadas depois, a iniciativa passou a integrar o acervo do Museu do Futebol, que a reconhece como a primeira torcida organizada feminina do País. Paula, uma das fundadoras da torcida, morreu em 2004, mas permanece como parte do legado construído pela família.
Para Maria Helena Ramalho, o reconhecimento representa algo que jamais passou pela cabeça das irmãs quando começaram a frequentar os jogos ao lado do pai apenas para demonstrar o amor pelo clube.
"Quando a gente começou, a gente não tinha noção de que 51, 52 anos depois ia estar acontecendo isso. Para a gente é uma coisa muito surreal. Parece que a gente não é merecedora de tudo isso. É uma grande emoção porque a gente vê que aquilo que construiu foi importante de alguma forma."
Maria Helena afirma que, desde o início, a intenção nunca foi conquistar reconhecimento, mas viver o futebol como um espaço de convivência.
"A gente não vê o futebol só como um entretenimento. O futebol, para nós, é uma festa para a família. Eu comecei indo ao estádio quando era solteira, depois levei minhas filhas, meus netos e hoje até minha bisneta já tem camisa do São Bento."
Ao olhar para os estádios atualmente, Maria José acredita que a presença feminina passou por uma transformação significativa ao longo das últimas décadas.
"Agora a gente percebe que abriu portas. A gente acabou quebrando essa barreira da mulher não poder frequentar estádio. Hoje você vê muitas meninas acompanhando futebol naturalmente e isso é muito gratificante."
A pesquisa que deu origem ao livro foi desenvolvida ao longo de quase um ano, sob orientação do professor Rodrigo Gabrioti. Os estudantes reuniram entrevistas, fotografias, recortes de jornais, revistas e documentos preservados pela família para reconstruir uma trajetória que atravessa mais de 50 anos da história do São Bento e do futebol brasileiro.
Ideia
"A ideia do livro surgiu a partir da vontade do professor Rodrigo Gabrioti de contar a história das irmãs Ramalho, personagens extremamente importantes para a cultura esportiva e social de Sorocaba. A partir dessa proposta, iniciamos uma série de conversas com elas e um grande trabalho de catalogação de documentos, fotografias, recortes de jornais, revistas e diversos materiais guardados por mais de 50 anos. Todo esse acervo ajudou na reconstrução de uma parte importante da memória esportiva e cultural de Sorocaba", explica Fabrício Rocha.
Segundo ele, as próprias irmãs foram as principais fontes da pesquisa, complementada por jornais da época, fotografias, documentos pessoais, entrevistas com jornalistas esportivos de Sorocaba e pelo acervo do Museu do Futebol.
"O principal objetivo do livro é fazer com que o leitor valorize as histórias de Sorocaba e reconheça a importância de personagens locais que muitas vezes acabam esquecidos com o passar do tempo. Além disso, mostramos a força dessas cinco mulheres que enfrentaram um período marcado pelo machismo e pelo preconceito contra a presença feminina no futebol. Mesmo diante dessas barreiras, elas construíram um legado importante."
A escolha do tema também nasceu da intenção de contar uma história da cidade. "Nas primeiras conversas sobre o TCC pensamos que queríamos tratar de algo local, da nossa Sorocaba. Cogitamos outros esportes, até que fomos apresentados à história das irmãs Ramalho: a primeira torcida organizada do São Bento e, por acaso, a primeira criada por mulheres no Brasil. Ali sabíamos que tínhamos uma história muito especial", conta Maria Eduarda Baddini.
Durante a pesquisa, os estudantes entrevistaram ex-atletas, antigos torcedores, jornalistas, amigos e familiares das irmãs, além de recorrerem ao acervo do Museu do Futebol, da revista Placar, do Cruzeiro do Sul e do Almanaque do São Bento.
"No começo, o maior desafio foi encontrar um tom para o texto. Depois tivemos uma dificuldade diferente: escolher o que deixar de fora. Como são mais de 50 anos de Tira-Prosa, nem tudo coube no livro", diz a estudante de jornalismo.
Para Maria Eduarda, o principal legado da publicação é ampliar o conhecimento sobre uma história que permaneceu pouco conhecida fora de Sorocaba.
"A história da Tira-Prosa e das irmãs Ramalho foi guardada, mesmo que involuntariamente, como um segredo no interior de São Paulo. Elas sempre priorizaram o São Bento e nunca tiveram pretensão de ganhar mais destaque do que o clube. Espero que esse livro seja uma oportunidade para que possamos apreciar um pouco da história dessas cinco irmãs que são tão importantes para o futebol brasileiro."
Além das arquibancadas
Apesar do reconhecimento nacional, Maria Helena afirma que o sentimento das irmãs continua sendo o mesmo de quando tudo começou.
"O São Bento, para a gente, é uma coisa muito forte, é um amor mesmo. A gente quer preservar essa história. Hoje fazemos parte da associação Vamos Subir Bento e também do Museu do São Bento. Nós somos parte dessa história."
Mais do que registrar a trajetória das Irmãs Ramalho, Irmãs Ramalho: Futebol no DNA preserva um capítulo da memória esportiva de Sorocaba e recupera a história de mulheres que ajudaram a transformar a presença feminina nas arquibancadas brasileiras em uma época em que o futebol ainda era tratado como um espaço exclusivamente masculino.