Empatia

Entre passos, rodas e mãos estendidas, Associação Galera Empresto usa a corrida de rua para promover inclusão e transformar realidades em Sorocaba

Por João Frizo

Galera Empresto conta com 23 atletas com deficiência e cerca de 50 voluntários

No ritmo cadenciado das passadas, no som das rodas girando sobre o asfalto e nos sorrisos que se encontram ao fim de cada percurso, o esporte deixa de ser apenas competição e passa a ser convivência. Em Sorocaba, essa cena se repete todos os domingos pela manhã, quando pessoas com e sem deficiência dividem o mesmo espaço, o mesmo percurso e o mesmo objetivo: estar juntas.

É nesse contexto que atua a Associação Galera Empresto, um projeto que utiliza a corrida de rua como ferramenta de inclusão social e que, agora, amplia sua atuação para modalidades como duathlon (combinado de ciclismo e corrida) e triathlon (natação, ciclismo e corrida), transformando vidas dentro e fora das pistas.

Segundo a presidente e fundadora do grupo, Josy Yume Garcia, fisioterapeuta, de 42 anos, a proposta sempre foi garantir que todos pudessem participar, independentemente de idade ou limitação física. “A corrida de rua é a nossa principal atividade, mas já estamos iniciando no duathlon e no triathlon. Os triciclos que usamos têm capacidade para atender diversas idades e tamanhos e, quando necessário, realizamos adaptações para cada atleta”, explica.

Os equipamentos permitem que pessoas com deficiência participem ativamente dos treinos e competições, sempre acompanhadas por voluntários.

Aberto à comunidade

Os encontros do Galera Empresto são realizados todos os domingos, no Parque das Águas. Não é preciso inscrição prévia. “Todos são bem-vindos em nossa associação. Basta comparecer no domingo, no Parque das Águas, às 8h, em frente à escultura vermelha”, reforça Josy.

De acordo com ela, os resultados do projeto são visíveis na saúde física e emocional dos participantes. “Temos diversos testemunhos dos atletas PcDs, dos familiares e também dos voluntários. Pessoas com deficiência que diminuíram o uso de medicação, reduziram convulsões, ganharam automotivação, estão mais calmas e sociáveis”, relata.

O impacto também alcança as famílias, que passam a adotar um estilo de vida mais ativo. “Temos familiares que eram sedentários e hoje são atletas corredores. Alguns já iniciaram treinos de natação para, futuramente, participar de travessias e até triathlon com seus filhos”, completa.

O voluntariado é outro pilar do projeto. Para quem empresta tempo e esforço, a experiência gera aprendizado e transformação pessoal. “Os voluntários passam a ter uma visão diferente da pessoa com deficiência, do carinho que elas demonstram, da capacidade de cada um e dos sonhos que têm. O nosso pouco é muito retribuído por eles, cada um do seu jeito, com gratidão e afeto”, afirma Josy.

Histórias que representam a inclusão

Entre os exemplos que simbolizam o impacto do Galera Empresto está o de João, atleta com deficiência que não aceitava utilizar cadeira de rodas. “O João não gostava de usar a cadeira de rodas. Ao iniciar no Galera, passou a aceitá-la melhor e hoje tem mais liberdade para passeios com a família”, conta a presidente.

Outro destaque é Vanessa, mãe de atleta PcD e também pessoa com deficiência. “Ela era sedentária e apenas espectadora do filho. Hoje é atleta da nossa associação e já coleciona troféus e medalhas”, diz.

Já Kaique, que inicialmente só participava no triciclo, apresenta evolução marcante. “Até pouco tempo ele dependia de guia e hoje já realiza sozinho corridas de cinco quilômetros. Está se preparando para ainda este ano disputar provas de duathlon e, futuramente, triathlon”, relata Josy.

Atualmente, o Galera Empresto conta com 23 atletas com deficiência e cerca de 50 voluntários. O grupo busca participar de todas as competições de corrida de rua realizadas na cidade e, ainda neste ano, pretende incluir atletas em provas de águas abertas, duathlon e triathlon.

Desafios financeiros e sustentabilidade

Apesar do crescimento, a associação enfrenta dificuldades financeiras. “Ainda não temos nenhum patrocinador forte. O que mais nos mantém hoje são os recicláveis”, explica a fundadora. A arrecadação por meio de lacres de alumínio e tampinhas plásticas tem sido fundamental para a manutenção das atividades.

A principal prioridade do grupo, neste momento, é a conquista de um espaço próprio. “Queremos uma sede própria. Um local mais aconchegante e acolhedor para todos os participantes, onde possamos guardar e realizar a manutenção dos nossos equipamentos”, conclui Josy.