Calor extremo na Copinha impõem riscos

Por Cruzeiro do Sul

Na edição deste ano da Copa São Paulo, o São Bento foi eliminado ainda na primeira fase

Disputada em pleno verão, a Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição de categorias de base do País, impõe aos atletas em formação um desafio que vai além do aspecto técnico. Realizado tradicionalmente nos primeiros dias de janeiro, o torneio conta com partidas em horários considerados críticos para jovens jogadores, como 10h e 14h30.

Para o preparador físico Marcel França, do Esporte Clube São Bento, o calor exerce papel determinante no rendimento em campo. “Na Copinha, o calor não é apenas um fator ambiental, mas um estressor fisiológico direto, que interfere no desempenho, acelera a fadiga, aumenta o risco de lesões e compromete a recuperação”, afirma.

Ainda segundo o profissional, mesmo atletas bem condicionados têm o rendimento afetado quando competem sob altas temperaturas. “Nessas condições, o fator limitante deixa de ser o condicionamento físico e passa a ser a capacidade do corpo de dissipar calor”, explica. Em jogadores jovens, o impacto tende a ser mais acentuado, já que muitos ainda não apresentam aclimatação adequada e estão em processo de maturação fisiológica.

Entre os principais riscos associados ao calor estão a desidratação progressiva e a perda de eletrólitos, agravadas pela dificuldade de hidratação durante as partidas. “Mesmo atletas bem preparados desenvolvem déficit hídrico ao longo do jogo”, diz Marcel França. De acordo com ele, a partir de cerca de 2% de desidratação já é possível observar queda de rendimento, aumento de erros técnicos e prejuízo à contração muscular, especialmente no segundo tempo. Por isso, as pausas para hidratação adotadas na Copinha e no Campeonato Paulista da Série A2 são consideradas medidas relevantes de proteção à saúde.

O preparador físico alerta ainda para o risco de hipertermia quando os mecanismos de termorregulação falham. “Com temperaturas corporais em torno de 38,5 a 39 graus já há queda acentuada de desempenho e risco à saúde; acima de 40 graus, trata-se de uma emergência médica”, ressalta. Nesse cenário, o monitoramento fisiológico constante e a retirada preventiva do atleta passam a ser decisões técnicas e éticas.

Com experiência consolidada no trabalho de formação, Marcel França foi reconhecido como melhor preparador físico de categorias de base nas temporadas de 2023 e 2025, durante sua passagem pela Portuguesa de Desportos. Segundo ele, atletas em formação são mais vulneráveis ao estresse térmico do que jogadores adultos. “Os profissionais já passaram por várias pré-temporadas e desenvolveram adaptações crônicas ao calor. Muitos jovens chegam à Copinha sem aclimatação adequada, pois treinam em horários de menor estresse térmico”, explica.

O calor também amplia a importância de fatores fora de campo, como sono, alimentação e recuperação. “O estresse térmico aumenta o custo cardiovascular e o gasto energético. Se a ingestão não é suficiente, ocorre depleção de glicogênio, maior fadiga no segundo tempo e prejuízo cognitivo”, aponta. A restrição do sono, acrescenta Marcel França, compromete processos de crescimento e recuperação, além de elevar o risco de lesões ao longo do torneio.

Para o preparador, o estresse térmico reduz a margem de erro e expõe rapidamente fragilidades de atletas que não mantêm hábitos adequados fora de campo. “Em ambientes quentes, a estrutura do clube deixa de ser coadjuvante e passa a ser determinante”, afirma. Ele cita como fatores decisivos a organização da hidratação e da nutrição, a presença de equipe multidisciplinar e o monitoramento fisiológico contínuo.

Essa diferença estrutural, explica Marcel França, tende a se refletir diretamente no rendimento em campo. “O calor funciona como um amplificador das diferenças entre clubes. Quem tem mais recursos consegue prevenir quedas de desempenho; quem não tem, identifica os problemas mais tarde e assume riscos maiores”, avalia.

Na análise do preparador físico, os horários das partidas em torneios de base também precisam ser revistos. “O melhor horário é após as 17h, o segundo melhor é pela manhã cedo. Entre 11h e 16h é o período mais arriscado”, afirma. Para ele, proteger o atleta em formação é uma responsabilidade do futebol e um passo necessário para garantir jogadores profissionais mais saudáveis no futuro.

(Murilo Aguiar)