Votação sob desconfiança

Conselho Fiscal do São Bento aponta falta de comprovação financeira do Grupo Convocados para formação de SAF; apesar do parecer negativo, decisão caberá aos sócios

Por Thaís Marcolino

Conselheiros se reuniram, na noite de quinta-feira, para analisar documentos apresentados

Às vésperas da assembleia geral dos sócios do São Bento, que votará a proposta do Grupo Convocados para a formação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), o Conselho Deliberativo se manifestou oficialmente sobre o parecer fiscal. Como antecipado pelo Cruzeiro do Sul, a avaliação não foi positiva. Ainda assim, a convocação para hoje (15), a partir das 9h30, está mantida.

Por 14 votos a dois, o parecer fiscal relativo à due diligence — análise financeira das partes envolvidas — que se posicionou “expressamente desfavorável à aprovação da operação de aporte de capital” foi corroborado pelos membros do Conselho Deliberativo presentes na reunião realizada, na noite de quinta-feira (13), no Centro de Treinamento Humberto Reale.

A nota oficial cita que o parecer negativo se deu pela “ausência de comprovação material, documental e auditável da capacidade econômico-financeira do grupo investidor”. O Cruzeiro do Sul teve acesso ao documento completo, que detalha diversas fragilidades. Entre elas, o fato de que o Grupo Convocados foi constituído em setembro deste ano com capital social de R$ 3 mil, sendo uma sociedade recém-formada — integrada por Rodolfo Kussarev, Cesar Grafietti e Vitor Roque — sem histórico contábil ou demonstrações financeiras.

O relatório aponta que, por isso, o Conselho Fiscal solicitou documentação adicional que comprovasse a capacidade financeiro-econômica dos proponentes, mas recebeu apenas currículos resumidos, sem documentos referentes a patrimônio, rendimentos, fontes de financiamento ou garantias relacionadas aos aportes projetados.

O trio de sócios tem experiência no setor esportivo, e o texto reconhece isso, mas reforça que o material apresentado não atende aos parâmetros mínimos para uma operação desse porte. “A ausência de demonstrações financeiras, de comprovação de disponibilidade de recursos próprios ou de garantias formais inviabiliza a aferição objetiva da liquidez, solvência e sustentabilidade do aporte prometido”, aponta o parecer.

Mesmo assim, o documento, assinado por Vinícius Rostelato (presidente), Paulo Alex Pantojo (vice) e Teófilo José Negrão Duarte (1º suplente), frisa que não estão descartadas novas propostas de investimento, seja pelo grupo atual ou por outros interessados. A proposta em análise avançou após vencer, por dez votos a nove, a apresentada por Rodrigo Pastana, em setembro, ocasião em que a due diligence teve início.

O presidente do Conselho Deliberativo, Wilson Vieira, foi questionado sobre o motivo de a assembleia geral ser mantida para a manhã de hoje, mesmo com o parecer negativo, e respondeu: “Porque a assembleia é soberana”. Ou seja, caberá aos sócios deliberarem se aprovam ou não a proposta do Grupo Convocados.

Grupo se manifesta

Diante do parecer desfavorável, o empresário Rodolfo Kussarev foi procurado e afirmou ter tomado conhecimento da reprovação pela imprensa, fato que o gerou surpresa. Em nota oficial, a Convocados informa que o parecer se baseou na empresa de consultoria usada na negociação — e que o São Bento tinha conhecimento disso —, e não a futura empresa que será criada com os investidores para gerir a SAF, o que não representa sua real capacidade financeira.

O grupo ofereceu investir R$ 30 milhões ao longo de dez anos e assumir 90% da SAF, mantendo o clube com 10% de participação e assentos nos conselhos. A proposta prevê preservação da identidade, limite de endividamento, exclusão do CT da negociação e repasses mensais ao clube, com projeção de movimentar R$ 140 milhões no período para profissionalizar o departamento de futebol.