Nós nos tornamos irmãos
Lucas França, principal nome do boxe de Sorocaba, lamenta a morte de Maguila
Considerado o principal nome do boxe sorocabano, Lucas França, que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, soube da morte de Adilson “Maguila” Rodrigues pelo WhatsApp. O maior peso pesado da história do pugilismo nacional faleceu ontem (24), aos 66 anos, em São Paulo. Ele sofria de encefalopatia traumática crônica e estava internado há 28 dias. Desde 2010, lutava contra o Alzheimer.
Ao falar do amigo, Lucas não conseguiu conter a emoção. Com a voz embargada, lembrou que esteve presente na maioria das lutas de Maguila, sempre atuando nos combates preliminares, e, assim, construiu uma bela amizade com o peso pesado. “Nós nos tornamos irmãos”, afirma.
Quando Maguila lutou em Sorocaba — em 17 de novembro de 1985 foi nocauteado no quinto round pelo holandês André van den Oetelaar, no Ginásio Municipal de Esportes Dr. Gualberto Moreira —, Lucas França subia ao ringue pela primeira vez. “Neste dia eu fiz a minha estreia no boxe olímpico e ganhei por nocaute no segundo assalto”, conta.
A doença do peso pesado fez com que os dois se afastassem, mas o sorocabano lembra de um fato marcante ocorrido em Campos do Jordão, São Paulo. Naquela ocasião (Lucas não recorda o ano), os boxeadores da equipe olímpica sempre estavam juntos com os profissionais e ele foi chamado para ser sparring de Maguila. Orientado pelos médicos, recusou o convite e justifica: “Eu lutava na categoria até 71 quilos e ele tinha 101 quilos. Eu teria de ficar correndo pelo ringue, mas uma hora ele iria me acertar e fazer carne moída de mim”.
O sorocabano destaca que, nos Estados Unidos, Maguila foi reconhecido como o golpe de direita mais pesado batido em linha reta. “Ele é o nosso super-herói. Dificilmente alguém vai atingir o patamar dele no boxe brasileiro. Eu estou triste ao perder mais um amigo.”
O mais carismático
Faxineiro em Aracaju. Pedreiro em São Paulo. Adilson Rodrigues se transformou no pugilista mais carismático do boxe brasileiro. Simples e espontâneo, Maguila — apelido dado pelos amigos de obra pela semelhança com o personagem de um desenho animado famoso — ganhou espaço na mídia e fez de suas lutas um evento imperdível.
Maguila chegou a São Paulo em 1970. Assustou-se com o frio da cidade e foi trabalhar como pedreiro. Morou em uma boleia de caminhão, foi preso por dez horas por agredir um companheiro de trabalho, se fez de louco para não servir o Exército e entrou no boxe aos 22 anos pelas mãos de Ralph Zumbano, tio de Eder Jofre, na academia do extinto BCN.
Em pouco tempo, foi campeão do tradicional Torneio Forja dos Campeões e do Campeonato Paulista. Em 1983, aos 25 anos, passou para profissional e com apenas três lutas já era campeão nacional. Mais seis combates, já sob a orientação da empresa do narrador Luciano do Valle, veio o cinturão sul-americano.
Maguila virou uma febre nacional. Suas lutas levantavam a audiência da TV Bandeirantes, onde Luciano do Valle trabalhava. No entanto, o ano de 1985 foi complicado para o pugilista. Duas derrotas acachapantes para o argentino Daniel Falconi e para o holandês Andre Van Oetelaar, ambas por nocaute, quase encerraram sua carreira. Ralph foi demitido e em seu lugar foi contratado Miguel de Oliveira que, na época, dividia com o lendário Eder Jofre a glória de ter sido campeão mundial pelo Brasil.
Com Miguel de Oliveira no córner, Maguila devolveu a Falconi e a Oetelaar a derrota na mesma moeda e se transformou em ídolo nacional. O foco de Luciano do Valle e de sua empresa, a Luqui, virou para o supercampeão Mike Tyson. Contatos foram feitos com Don King, que cuidava dos interesses do fenômeno norte-americano. Até uma luta no Maracanã foi sonhada.
Com isso, os desafios ficaram maiores. O primeiro foi a conquista do título das Américas, com mais de dez mil torcedores no Ginásio do Corinthians, em São Paulo. Maguila passou pelo resistente norte-americano Rocky Sekorsky, em 12 rounds.
Mais de 20 mil pessoas lotaram o Ginásio do Ibirapuera, em 1987, para a luta contra o ex-campeão mundial James “Quebra-Ossos” Smith. Em decisão polêmica, por pontos, o brasileiro foi proclamado vencedor. O triunfo o colocou entre os dez primeiros do ranking do Conselho Mundial de Boxe e virtual desafiante de Tyson.
O ano de 1988 foi de espera pela oportunidade de tentar o título mundial. Como ela não veio, Maguila, segundo colocado no ranking, enfrentou Evander Holyfield, que era o primeiro. No duelo de Lake Tahoe, o brasileiro, treinado pelo lendário norte-americano Angelo Dundee, que havia trabalhado com Muhammad Ali e Sugar Ray Leonard, chegou a vencer o primeiro round para dois dos três jurados, mas foi aniquilado no segundo. A partir daí, a empresa Luqui quis encerrar a carreira de Maguila, que não aceitou e enfrentou o mito George Foreman, em 1990. Sofreu, então, mais um nocaute violento no segundo round.
Depois, lutou mais dez anos. Fez uma peregrinação pela América do Sul, acumulou dinheiro, manteve o interesse do público, mas nunca mais foi o mesmo. Chegou a ganhar o inexpressivo título mundial da Federação Mundial de Boxe, quando derrotou o britânico Johnny Nelson. Aliás, bateu este adversário também na revanche.
Em 2000, aos 42 anos, pendurou as luvas, mas se manteve em evidência. Fez comerciais de TV, participou de programas de auditório e gravou CD de pagode. Com sua morte, o boxe perde um personagem único. (Marcelo Macaus - Com informações do Estadão Conteúdo)