Esporte

Na corrida de rua, todos são vencedores

Às vésperas da 12ª edição da Corrida e Caminhada Cruzeiro do Sul, atletas inspiram pessoas a descobrir o esporte
12ª edição da corrida será realizada no dia 30 de junho – Foto: Emidio Marques (24/06/2018)

“Nós corremos porque isso nos faz sentir como vencedores, não importa o quão lento ou quão rápido nós vamos”, dizia a norte-americana Florence Griffith-Joyner, até hoje considerada a mulher mais rápida da história do atletismo. A multicampeã olímpica terminou a carreira depois dos Jogos de Seul, em 1988, e faleceu dez anos depois, aos 38, ao sofrer uma convulsão decorrente de uma malformação congênita cerebral.

Em 2019, Florence completaria 60 anos. Às vésperas de realizar a 12ª edição da Corrida e Caminhada Cruzeiro do Sul, o jornal entrevistou quatro atletas da região de Sorocaba — todos já participaram do evento e podem inspirar pessoas a descobrir essa modalidade do atletismo, graças às respectivas trajetórias.

Dos obstáculos da vida ao hepta na Disney

A história do menino Fredison Costa começa em Riachão do Jacuípe, no interior da Bahia. Caatinga, seca e a pequena fazenda do avô como moradia. Uma vez por dia, o garoto franzino andava várias “léguas” para levar o gado tomar água.

Peralta, o pequeno nordestino estava sempre atrás de burricos e cabritos. Ia a pé à escola: andava nove quilômetros para ir, nove para voltar. “E eu lembro que eu tinha um chinelinho que eu ganhei da minha mãe. Na volta, colocava na palma da minha mão e corria. O pé descalço era para economizar o chinelo”, conta.

Fredison Costa veio do interior da Bahia para a região de Sorocaba; a corrida o levou a morar em Orlando. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Mas Riachão estava ficando pequena para o menino sonhador. Na década de 90, os tios foram visitar os parentes de Fredison e ele implorou que os trouxessem para São Paulo. “Eu ajoelhava e pedia com muita fé. Queria trabalhar, ganhar dinheiro, conquistar as coisas”, recorda. E as preces foram atendidas, em partes, já que não pudera observar a verticalidade da selva de pedra. Foi trazido ao Estado, mas não à capital paulista. O novo canto dele era Piedade e o adolescente deu-se por satisfeito.

Em Piedade, a corrida de rua começava a puxá-lo como um imã, mesmo que indiretamente. “Fui trabalhar na lavoura, era responsável pelo sistema de irrigação. Abria o registro, corria 200, 300 metros, até 600 pra fechar outro registro e dar pressão no sistema de irrigação. E fazia isso com bota de borracha até o joelho, adorava”, lembra.

A primeira corrida de rua, de fato, foi em 1997. Durante a tradicional Festa da Cerejeira na cidade, uma gincana reservava uma prova de três quilômetros, vencida com sobras pelo jovem. “Eu corri com um Kichute que tinha comprado com o meu dinheiro. Fiquei até com dó, pensando que ia sujar, gastar”, diz. “Mas tive a felicidade de ganhar e, nesse momento, descobri o que a corrida representava. Naquele dia, eu ganhei caixas de miojo, caixas de sabão em pó, caixas de bolacha como prêmio. Minha mãe ficou surpresa e feliz, falou que íamos lavar roupa o ano inteiro”, diverte-se.

Fredison encarou preconceito de frente. Conta que pessoas chegaram a arremessar cenouras, beterrabas e até a tentar atropelá-lo quando o viam correndo por Piedade. “Tinha gente que passava e falava ‘vai trabalhar, vagabundo’. E eu já trabalhava de 8 a 12 horas no posto de gasolina, o que fiz por 11 anos. Eu lembro de épocas em que cheguei a treinar em lugar escondido, em estradas rurais. Mas hoje eu entendo essas pessoas, elas não sabiam os benefícios que a corrida traz. Se soubessem, não fariam o que fizeram.”

De fato, aquelas pessoas, realmente, se soubessem o futuro à frente do garoto sonhador, não fariam esse tipo de coisa. O menino do Jacuípe hoje carrega sete títulos da Maratona da Disney, além de outros títulos nacionais em maratonas e provas de 10 e 5 quilômetros. Agora mora em Orlando (EUA), treina no complexo esportivo da Disney com o coach Brooks Johnson, responsável pelos atletas olímpicos americanos e por aí vai…

“Como ia chegar eu não sabia, mas desde 1997 o sonho de ser um grande campeão estava aqui dentro. Mas não imaginava que ia chegar onde eu cheguei”, afirma. Suas maiores motivações atualmente são os filhos Julia, de 11 anos, e Gustavo, de 9.

O atleta que doa seus troféus e medalhas

Em 2010, Elionay Ferreira Correia deixava Zé Doca, no Maranhão, para vir estudar música no Conservatório de Tatuí. Já havia feito musculação, artes marciais e atividades de defesa pessoal, mas não se identificara com nenhuma modalidade. Gostava muito de ler e soube dos benefícios da corrida de rua.

Decidiu arriscar. Procurou uma assessoria esportiva, começou a treinar e logo ouviu que tinha biotipo de atleta de elite. “Estava com 29 anos, jamais soube antes o que era correr”, diz. Passados cinco meses, tomou coragem para competir e, na primeira prova, ficou em segundo lugar entre os corredores da mesma faixa etária.

O maranhense Elionay Correia só foi começar a correr aos 29 anos. Crédito da foto: Arquivo pessoal

De lá para cá, foram inúmeras competições e duas foram marcantes: em 2017, um trial de 21 km na Serra do Japi, em cuja preparação torceu o pé, mas trabalhou a mente, se superou e saiu vencedor. Também lembra dos primeiros 10 quilômetros, em Itu, em 2011. “Eu estava bem no início e disse que faria em 34 minutos. O meu treinador falava que era prova dura, casca grossa, mas eu estava ‘faca na caveira’ e consegui”, conta ele. Hoje, aos 37 anos, atleta experiente, é acompanhado por quiropraxista, fisioterapeuta e nutricionista.

Elionay, apesar dos títulos, enxerga a corrida numa perspectiva interessante. “O principal é ser referência para as pessoas. Quando levanto cedo e pessoas que nem conheço estão falando nas redes sociais que me acompanham, que sou referência, inspiração, isso já faz valer a pena”, comenta.

O maranhense traz uma peculiaridade: não guarda a maioria dos troféus e medalhas. “Não tenho um quarto cheio de troféus. Só os das primeiras corridas. Eu faço doação de todos, com uma dedicação. As pessoas ficam ‘de cara’. Eu faço essa ‘parada’ porque é uma história que a gente passa para a frente. Quando uma outra pessoa pega, é uma lembrança, um estímulo. É algo que faço pela minha consciência, sinto que devo fazer isso”, explica.

Conversar com Elionay é quase uma aula de psicologia, devido à maneira dele de pensar. “A corrida não consiste só no físico. É preciso trabalhar outras características, as capacidades funcionais do nosso corpo. É um trabalho holístico completo, uma ‘salada de coisas’. E também não adianta trabalhar a máquina sem trabalhar a cabeça”, fala, reflexivamente.

Ao final da conversa, dá dicas relacionadas à alimentação. “Quem treina precisa comer ‘comidas anti-inflamatórias’, com produtos naturais, aí você vai evoluir o organismo. Se comer muito doce, fritura, refrigerante, você inflama ainda mais o corpo, que já está inflamado do treino”, indica.

Giovanna ganhou a primeira prova aos 5

Giovanna Costa Martins, moradora de Salto e hoje atleta do São Paulo FC, estava à época com 5 anos. Os pais, atletas amadores, estavam prestes a largar para uma prova, quando ela saiu em disparada e começou a correr junto a outros competidores.

Surpreendeu a todos, inclusive os pais, que decidiram colocá-la para treinar. E, beirando o inacreditável, ela disputou os primeiros 10 km da vida aos 5 anos de idade, ficando em segundo lugar no Geral e em primeiro na categoria Mirim. “Na época eu usava botas ortopédicas e, quando vi que pelo esporte poderia deixá-las para trás, nunca mais parei”, resume.

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Dali em diante, só houve progresso e mais progresso. Participou dos Jogos Escolares de Salto em 1998 e, nas provas de pista, bateu todos os recordes, ganhou várias provas. Trilhou um caminho longo até que, em 2011, quando havia desistido da carreira profissional — diante das dificuldades do esporte no Brasil — viu uma revista falando sobre a Maratona da Disney.

Há dois anos, Giovanna superou até os homens numa meia-maratona. Crédito da foto: Arquivo pessoal

“Como eu trabalhava com crianças e tinha o sonho de conhecer a Disney, falei para o meu marido que seria um desafio. Ele me disse que eu estava maluca. Então me preparei quatro anos”, começa. Fez a primeira meia-maratona em 2013, depois uma maratona em Florianópolis no ano seguinte, até que chegou 2015. “Larguei no pelotão de trás, tinha índice, mas não tinha patrocínio grande. E no km 32 comecei a liderar. Todo mundo ficou confuso. E ganhei, para a surpresa de todos”, lembra. Atualmente Giovanna tem quatro títulos da prova.

Em 2017, Giovanna conquistou outro feito: terminou em primeiro lugar geral na Disney Wine and Dine Half Marathon, com tempo de 1h19m16s nos 21 quilômetros. Foi a primeira mulher a finalizar com a marca abaixo de um homem. O segundo colocado, o inglês Paul Graham, fechou a prova em 1h20m27s. “A corrida é um modo de vida”, define.

De um tempo para cá, além das corridas de rua, Giovanna também tem competido no duatlo (corrida e bicicleta) e em corridas de montanha. Ela pretende participar da 12ª Corrida e Caminhada Cruzeiro do Sul.

Para engenheira, corrida é terapia

É muito comum ouvir de quem corre que o esporte transcende os benefícios físicos. A relação da corrida com a mente é inerente. Para a engenheira de produção sorocabana Suzana Oliveira de Arruda, de 26 anos, a modalidade funciona como terapia. Ela começou a praticá-la há seis anos e, em abril de 2015, conquistou o primeiro troféu. “Deixa bem claro que eu sou amadora, certo?!”, pede ela, sendo modesta, mesmo com vários pódios já contabilizados no currículo esportivo. Em agosto de 2017, por exemplo, ela conquistou o título dos 21 km na categoria 18-29 anos de uma prova realizada na Floresta Nacional de Ipanema.

Amadora, Suzana tenta conciliar a rotina de treinos com a vida social. Crédito da foto: Arquivo pessoal

Suzana trabalha em uma multinacional na cidade e iniciou as corridas sozinha, em uma pista perto de onde mora. “Via outras pessoas correndo e tive vontade de fazer o mesmo. Um amigo da empresa viu um post de um treino meu e me convidou para correr pela empresa”, lembra. “A primeira vez que participei de uma prova foi realizador: eu contava quantas pessoas eu conseguia passar, me distraía vendo outros corredores. E me senti tão bem quando passei pela chegada que não quis parar mais”, assegura.

Apesar da rotina frequente de treinos, a engenheira diz ter “fama de quem come muito”. “O que eu procuro fazer é beber muita água, principalmente nos dias que antecedem as provas. Recentemente, procurei uma nutricionista, pois para a maratona (ela disputará pela primeira vez em 23 de junho, em Florianópolis) eu preciso dar um pouco mais de atenção para a minha alimentação e suplementação”, comenta. “Mas não abro mão do churrasco e mesmo de uma cerveja com os amigos, de vez em quando. Tento equilibrar os treinos com a minha vida social”, conta.

Para a sorocabana, a corrida mais marcante até aqui foi a São Silvestre, em 2015. “Lá eu vi de tudo, corredor fantasiado, pessoas correndo descalças, de mais idade, com limitações físicas… Foi muito emocionante, eu chorei várias vezes durante o percurso, achei demais ver a vontade das pessoas em querer completar a prova”, diz.

“A corrida me ajudou a ter mais disciplina e foco, tanto na vida pessoal quanto no profissional: concluir um semestre da faculdade ou entregar um projeto na empresa são como se fosse terminar uma prova. Eu recomendo muito o esporte. É uma terapia, eu converso comigo mesma, com Deus. Eu canso muito, mas a sensação de concluir um treino ou uma prova vale muito a pena. Só correndo para entender”, finaliza. (Esdras Felipe Pereira)

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