Esporte

‘Marta é minha inspiração’, diz jovem de Votorantim que joga futebol nos EUA

Bruna Moureira comemora a artilharia da primeira divisão de uma das ligas universitárias norte-americanas
Bruna é atacante e nos Estados Unidos conquistou três diplomas de melhor jogadora. Foto: Fábio Rogério

“O preconceito ainda existe, mas as meninas não podem desistir dos seus sonhos”. É assim que a jovem Bruna Moureira, que é de Votorantim e joga futebol nos Estados Unidos, define a situação da modalidade. A atleta, de 21 anos, endossa o discurso da atacante Marta após a eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo de Futebol Feminino, em que pede mais incentivo às jogadoras. “Sou muito grata a todo o apoio que recebi e que me ajudou a chegar onde cheguei”, diz a votorantinense, que se inspira na brasileira eleita seis vezes a melhor futebolista do mundo.

A trajetória de Bruna começou aos 9 anos, quando começou a ensaiar os primeiros toques na bola. Hoje, ela exibe com orgulho o certificado de artilheira da primeira divisão de uma das ligas universitárias de futebol dos Estados Unidos, conquistado em 2017. “Foram 19 gols e três assistências”, comemora ela, que conseguiu bolsa integral para estudar e treinar no IOWA Central Community College  e posteriormente na Northern Michigan University. E ela quer ir ainda mais longe.

“Meu objetivo é seguir no futebol profissional e conquistar uma oportunidade na seleção brasileira”.

A paixão pelo esporte surgiu ainda criança, quando Bruna acompanhava o pai nos campeonatos varzeanos que ele disputava por hobby. “Ela pedia para ir junto”, conta o autônomo Josélio Alves Moureira, de 48 anos. Depois, ela começou a jogar com os meninos do condomínio onde morava com a família. A primeira oportunidade de treinar futebol com outras meninas surgiu aos 12 anos, quando passou a fazer parte do time do colégio Salesiano, em Sorocaba. A iniciativa faz parte de um projeto para pessoas carentes e, por meio dela, Bruna também conseguiu uma bolsa de estudos.

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Foi por meio do treinador desse time que a jovem ficou sabendo da possibilidade de jogar fora do país. “Eu percebi que era isso que eu queria, mas eu ainda tinha 16 anos, não tinha terminado o ensino médio, então fiquei bastante ansiosa”, diz. A atleta conta que esse treinador tinha um sobrinho que trabalhava com intercâmbio esportivo e os dois passaram a filmar seus jogos e enviar para universidades norte-americanas. “Aos 17 anos eu passei a treinar com essa empresa de intercâmbio, mesmo sendo com meninos, pois eu já estava acostumada”, lembra.

Bruna exibe os troféus que conquistou quando jogava futebol na região de Sorocaba. Foto: Emídio Marques

A oportunidade de conseguir uma bolsa integral surgiu aos 17 anos, mas esbarrou em uma dificuldade: a unidade exigia uma nota mínima na prova Toefl, que é referência na avaliação do nível de inglês. A jovem de Votorantim tinha então dois meses para se dedicar o idioma. “Eu não gostava do inglês, achava difícil, mas passei a estudar em tempo integral pois meu sonho dependia disso”. Bruna prestou a prova duas vezes e conseguiu uma nota acima da exigida pelo colégio em Iowa, onde ela faria dois anos de uma espécie de “pré-graduação” antes de entrar para a universidade.

Conquistas nos Estados Unidos

Depois de conseguir o visto, Bruna embarcou em janeiro de 2017 e começou a estudar fisioterapia. A adaptação não foi fácil, relata, mas ela conseguiu estrear como titular no time e, além da artilharia do campeonato, conquistou também três diplomas acadêmicos e outros três de melhor jogadora. Além disso, em seu primeiro ano, a votorantinense ajudou o time Tritos a chegar na semifinal da primeira divisão da liga universitária que disputou. No segundo ano, a equipe avançou até a final.

#Highlight from last nights game vs Indian Hills – @brunamoureira with the game winning goal ⚽️ #TritonNation #gamewinner

Publicado por Iowa Central Community College Women's Soccer em Quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Bruna marca pelo Tritos e ganha destaque na página oficial do time. Vídeo: Reprodução

 

No início deste ano Bruna conseguiu uma nova bolsa integral e se transferiu para a Northern Michigan University, onde dá sequência aos estudos na área da ciência do esporte. Desde janeiro ela treina com a equipe WildCats na preparação para a temporada da liga universitária, que vai de agosto a novembro. Em férias desde maio, que passa com a família em Votorantim, ela não deixou os treinamentos de lado.

“Mesmo no Brasil eu sigo fazendo academia e treinando com meu antigo time. Quero dar o meu melhor, ajudar o time e fazer um bom histórico em campo”, cita.

Estrutura e futebol diferentes

Bruna conta que sofria preconceito desde que começou a jogar futebol, mas nos Estados Unidos tem sido diferente. “Lá, assistir um jogo masculino ou feminino é a mesma coisa, os times têm o mesmo nível de treinamento e o mesmo reconhecimento”, detalha. Para ela, a cultura dos norte-americanos é diferente em relação ao esporte porque quem quer ser atleta precisa conciliar os estudos com os treinos, diferentemente do que ocorre no Brasil. “Você só vai ter oportunidade em um time se também tiver um bom histórico escolar”, afirma.

O estilo de jogar futebol também é diferente, em sua avaliação. “Aqui se preza muito pelo jogo bonito, pelos dribles, e lá o que importa é finalização e efetividade da jogada”, diz ela, cuja rotina de treinamentos inicia às 4h30. “O esporte precisa de adaptar aos horários das aulas. Nós acordamos bem cedo e temos atividade o dia todo, mas como eles oferecem acomodação, alimentação e toda a estrutura necessária isso facilita bastante”, conta.

Inspiração na Marta

Ter a atacante Marta como inspiração pode parecer clichê para qualquer menina que joga ou gosta de futebol, afinal a brasileira quebrou recordes e tabus na modalidade, mas para Bruna é diferente. Além de ocupar a mesma posição que a jogadora da seleção, Marta também joga em um time dos Estados Unidos, o Orlando Pride, e é nesse caminho que a votorantinense quer seguir. “Eu a acompanho em todas as redes sociais, assisti todos os jogos da Copa feminina mas os da seleção brasileira foram os meus favoritos”, aponta.

Marta quebrou recordes e tabu no futebol. Foto: loic Venance / AFP

Além de Marta, no rol das jogadoras preferidas de Bruna estão Debinha, Cristiane e Thaísa. Com essa última, a jovem teve uma grata experiência após ser respondida pela atleta em uma mensagem no Instagram. “Eu mandei para ela que também queria jogar na seleção e ela me respondeu falando que estou no caminho certo. Foi mais um incentivo para seguir meu sonho”, destaca.

Orgulho para a família

A paixão pelo esporte surgiu ainda criança, quando Bruna acompanhava o pai nos campeonatos varzeanos. Foto: Fábio Rogério

Bruna contou com o apoio dos pais para trilhar seu próprio caminho. O pai, Josélio Alves Moureira, se orgulha de ter sido o responsável por apresentar o futebol para a filha, mas mesmo sabendo que desde criança ela gostava da modalidade não imaginava que a filha chegaria tão longe. “Se tem uma palavra que a define essa palavra é corajosa”, diz. O pai ressalta que a filha foi para um país diferente, lidou com as diferenças no idioma, alimentação, clima e ainda tendo que manter a bolsa. “Só quem tem um sonho passa por cima dessas dificuldades”, fala.

Josélio lembra ainda que ele a esposa sempre estiveram presentes na vida esportiva da filha. “A gente levava e buscava dos treinos, participávamos dos jogos nos fins de semana”, afirma ele, que assistiu inclusive algumas partidas disputadas por Bruna nos Estados Unidos, através da internet. A jovem também serve de inspiração para um de seus irmãos, de 14 anos, que desde pequeno também tomou gosto pela modalidade. “Ele quer seguir os mesmos passos”, finaliza Josélio.

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