OUTRO OLHAR


No calor da hora




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

O homem que desce do ônibus no ponto da esquina é um guarda-noturno. Como habitualmente nessa hora da manhã, ele volta para casa. Passou a noite no trabalho e não vê a hora de deitar e dormir.

De repente, começa um tiroteio. O guarda-noturno corre em direção à entrada da favela, onde mora, mas uma barreira de policiais e soldados do exército impede a passagem. Um caveirão avança beco adentro. Do alto, um helicóptero faz voos rasantes.

O guarda-noturno se abriga atrás de um muro. Deita-se no chão. Sua frio. Nessas horas, o suor traduz o tamanho do medo.

Imediatamente, envia um "zap" para a mulher com alertas: que ela não deve sair de casa, que as crianças não poderão ir para a escola, que ele só poderá voltar quando acabar o tiroteio, que está bem.

Em casa, a mulher recebe a mensagem com um estremecimento. Ela pega as crianças (um menino de 5 e outro de 3 anos) e se joga com eles num papelão estendido no piso do quarto.

Quando há tiroteio, em nenhuma hipótese deve-se ficar sentado ou de pé dentro de casa. Portas e janelas são pontos vulneráveis, pois não resistem a tiros de fuzil. Há vários casos de pessoas atingidas no quarto, na sala, na cozinha. A prevenção exige esforço de guerra.

A mulher abraça os filhos de tal maneira como se a proteção deles dependesse unicamente desse gesto. E ela sabe que não é assim. De repente a casa pode ser invadida por bandidos ou policiais, interessados em fazer do local uma posição de defesa ou de ataque.

Os filhos já não perguntam o que está acontecendo. Sabem de quase tudo. Sabem dos tiroteios, dos riscos, das mortes de crianças atingidas por balas perdidas. Sabem que o terror virou rotina na favela. Só não entendem os motivos da selvageria. Ouvem falar em tráfico, mas ainda não sabem o que é isso.

A mãe se estica e alcança o controle da televisão. O noticiário da manhã foca o cenário de guerra. Dizem que uma grande operação está em andamento para prender traficantes, recolher drogas e armas. Os tiros lá fora pipocam em paredes, telhados, caixas d"água. Cachorros latem, uivam, como se anunciassem mau presságio.

A mãe devolve um "zap" ao marido suplicando que pelo amor de Deus ele saia de onde está e se afaste ainda mais da entrada da favela. Ele está em zona de guerra e isso deixa a mulher apavorada. Em resposta, ele diz que é impossível se deslocar. Além de se expor às balas perdidas, pode ser confundido como suspeito se for visto correndo e nesse caso o risco é maior ainda. Reze por mim, ele pede.

Agora, os filhos começam a chorar. A mulher fica em pânico. Vontade de pegar os garotos e sair correndo, ir para um lugar bem longe, onde não há tiros de fuzil, onde não há balas perdidas, onde o pai pode voltar para casa em segurança, onde a mãe possa levar os filhos à escola, onde a família possa viver em paz.

Nesse instante, a televisão informa que um homem foi abatido a tiros em local próximo à entrada da favela. A notícia diz que sujeito estava armado e atirou primeiro.

A mulher explode de tensão, oscila entre o alívio e a dúvida. O marido é guarda-noturno, mas não anda armado. Então a vítima não pode ser ele, ela pensa. Tenta ficar em paz.

Mas ela logo entra em desespero porque ele não responde ao "zap" que lhe enviou perguntando se está bem. Pior: ele nem viu a mensagem. Ela não se contém e, como as crianças, também começa a chorar.

A televisão não dá as características do homem abatido a tiros. Na cobertura jornalística ele é só um número, uma criatura sem rosto, sem história.

A mulher sente horror ao imaginar que será massacrada pela dúvida até que o marido responda ao "zap" ou que o tiroteio acabe e ele possa voltar para casa.

Ainda abraçada aos dois filhos, a mulher reza. Lá fora, a fuzilaria continua, sem trégua. No "zap", o marido ainda não deu sinal de vida.


Quando é o filho que ensina o pai




Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br
Uma história corajosa, intensa, comovente. Uma narrativa que não poupa emoções, não faz concessões. Vidas como travessias. Experiências compartilhadas como forma de traduzir as inquietações de um pai que tem o filho com síndrome de Down. 

Estas sensações são reflexos da leitura do romance "O filho eterno" (Editora Record, 222 págs,) do escritor catarinense Critovão Tezza, que vive em Curitiba. Leitura feita com atraso. Publicado há nove anos, o livro virou filme, ganhou prêmios, foi traduzido em várias línguas, sucesso de público e de crítica.

"O filho eterno" pertence à categoria dos romances que não são escritos para entretenimento. Campanhas de incentivo à leitura pretendem atrair público para o universo literário com a demonstração de que ler pode ser um ato prazeroso e divertido. E isso é verdade. Mas há livros que transcendem esse rótulo e fazem da leitura uma experiência de vida. É nessa categoria que se inclui a história criada por Tezza.

Cada página de "O filho eterno" abre uma possibilidade de mergulho no que há de mais denso na existência. Pai de um filho com síndrome de Down, o autor usa a vivência como inspiração. Segue o lema de Hemingway de só escrever sobre o que se sabe. É uma opção para traduzir a realidade da forma mais verdadeira possível.

O narrador (um personagem sem nome) contraria os discursos de ânimo ouvidos por pais de crianças especiais e se expõe com todas as tintas da insegurança, da perplexidade, das dúvidas que o consomem diante do desafio de criar um filho diferente na comparação com os padrões "normais" de comportamento.

A convivência familiar se torna difícil. A mãe (também sem nome) confronta a nova realidade do casal: "Numa das crises, ela lhe diz, no desespero do choro alto: Eu acabei com a tua vida. E ele não respondeu, como se concordasse --- a mão que estendeu aos cabelos dela consolava o sofrimento, não a verdade dos fatos."

Agora, com o nascimento do filho, há um novo destino a ser cumprido. Pai e mãe não podem fugir da surpresa, não têm para onde fugir. Encaram uma programação de visitas a clínicas, consultórios, especialistas, projetos de estimulação.

Começam uma maratona de atividades em função da esperança. Entregar-se a essa rotina é um importante fator de ativação da fé que os move em direção a um futuro possível para Felipe -- o filho é o único que tem nome, numa sintonia com a força narrativa que faz dele o protagonista. Pai e mãe, embora criadores do filho, desempenham papéis de coadjuvantes.

O autor optou pelo ponto de vista do pai como foco narrativo. Há dor, angústia, aflição em tudo o que ele descreve. Não poupa nem a si mesmo. Confessa que é um escritor fracassado, autor de livros difíceis de serem publicados e, quando os edita, ninguém os lê. Sente-se frustrado como marido e também como pai.

Quem o vê dirá que, mais do que o filho, quem precisa de ajuda é o pai. E é na convivência diária com Felipe, superando cada dificuldade, que ele encontra a redenção e a paz para seguir em frente. No conjunto, Tezza criou uma história de compaixão e esperança.

A linguagem é confessional, embora a narrativa seja em terceira pessoa. O estilo, marcado pela poesia em prosa dinamitada pela dor humana, faz recordar Raduan Nassar (um clássico brasileiro, autor de "Lavoura arcaica"). E também há uma presença oculta de Thomas Bernhard, o genial autor de "O náufrago", que abre o romance com uma de duas epígrafes: "Queremos dizer a verdade e, no entanto, não dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fidelidade à verdade, no entanto, o descrito é outra coisa que não a verdade."

O leitor acompanha o drama do pai com uma cumplicidade de amigo ou de irmão. O inesperado acontece quando, a certa altura, a sensação é de que as inquietações do pai passam a ser nossas. E é como se Felipe também fosse nosso filho. Chegamos a recriá-lo como num processo imaginário de câmera e a suspirar com as pequenas vitórias do menino no relacionamento com a família, a escola, o futebol.

O livro de Tezza não é obra para quem busca só entretenimento na ficção. Literatura é vida pulsante, que às vezes nos esmaga, nos castiga, nos parte ao meio e nos ensina a viver. "E isso é muito bom", como poderia ter dito o pai de Felipe.


A Justiça segundo Kafka




Numa época marcada pela dúvida e a desconfiança como armas de interpretação da realidade, o que mais chama a atenção é a certeza com que grupos à esquerda e à direita lutam para fazer valer as suas verdades.

Um círculo de fogo é provocado pelo choque de contradições. Ninguém se entende. Instaura-se o clima de ódio que converte as redes sociais em campo de batalha. Que destrói amizades. Que resvala para o desencanto e a indignação.

Certamente esse quadro de fratura da realidade não é originado de forças da natureza como o terremoto, a tempestade, o furacão. Criaturas humanas estão no centro das feridas abertas e fechá-las parece ser tarefa impossível.

A desconstrução dos ideais de progresso e proteção social passa pelos desgastes do Executivo e do Legislativo. Corre-se para o Judiciário, notadamente na figura do Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte da Justiça brasileira, a última trincheira no equilíbrio das instituições. Mas também aqui o cidadão depara com dúvidas que o levam à sensação de total desamparo.

Nos corredores dos tribunais e de outros centros e poder, repete-se o mantra de que "decisão judicial não se discute, se cumpre". Há quem discorde, sem medo de ser acusado de desobediência civil. Até porque, decisão judicial também gera dúvidas e nem sempre esclarece todos os pontos de uma questão. Tanto isso é indiscutível que há margens para recursos, embargos, contestações diversas. Se a própria ideia de verdade é relativa, tudo é relativo.

Essas questões afloram no desafio cotidiano de interpretar a realidade brasileira com rumos cada vez mais ditados pela Justiça como instituição de poder. A política perdeu autonomia para a judicialização. Nos municípios, pendências são submetidas aos tribunais, que acabam por determinar o veredito final. No âmbito do País, o STF é a última esperança. E nem por isso a dúvida deixa de persistir.

Sobre essas inquietações, o professor de direito constitucional da USP, Conrado Hübner Mendes, contribui com a avaliação de que, assim como o Executivo e o Legislativo, o STF também reúne características que fazem dele "protagonista de uma democracia em desencanto". Em contundente artigo com o título "STF, a vanguarda ilusionista", publicado na Folha de S. Paulo (Ilustríssima, págs 4 e 5) de domingo passado, Mendes analisa: "Os lances mais sintomáticos da recente degeneração da política brasileira passam por ali (STF)."

O raciocínio do professor se ampara em questões como a de políticos denunciados por corrupção em Brasília, que detinham as mesmas prerrogativas parlamentares, e pergunta por que, diante das evidências de crime, receberam tratamento diferenciado. Também considera se o auxílio moradia para juízes, criado em 2014, custa ao país mais de R$ 1 bilhão por ano, como pôde um ministro da corte impedir que o plenário se manifestasse até este momento. Há outras perguntas, igualmente críticas ao STF.

A resposta de Mendes tem o efeito de um soco no estômago: "Ao se prestar a folhetim político, o STF abdica de seu papel constitucional e ataca o projeto de democracia." Ele também constata: "É um tribunal que se autorregula e não responde a ninguém. O que justifica tanto poder e a imunização contra canais democráticos de controle?"

Mendes admite que a análise jurídica não responde a essas questões e acredita que esse papel cabe à arte. De fato, quando o homem não dá conta de suas dores, recorre à arte como válvula de escape.

O escritor tcheco Franz Kafka é o nome mais lembrado nessa hora. Com o romance "O processo" e o conto "Diante da lei", ele traça um papel sombrio da Justiça. No primeiro caso, um homem é preso sem saber o motivo e, quanto mais faz perguntas para entender o que se passa, mais se afunda em acusações. Na segunda história, um homem passa toda a vida na luta por acesso à Justiça e a frustração é indescritível. Nos dois casos, seja no labirinto de Kafka, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Na sofisticação da arte como na aridez do mundo real, o perigo é que o grau de responsabilidade das instituições possa abrir espaços para o surgimento de forças capazes de transformar os brasileiros em personagens de Kafka.

Tudo isso é muito triste num país que ainda tem energia para o Carnaval. Pão e circo, eis a questão. A casa-grande vibra enquanto a senzala se diverte.


A vida começa aos 90




Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br


Severino Salazar comemorou 80 anos em 7 de janeiro. Quem o visse pela manhã, diria que ele estava indiferente ao aniversário. Aparentava tranquilidade. Engano. A preocupação com a proximidade do fim da existência crescia a cada década vivida. A quem ousasse perguntar se aos 80 anos tinha a sensação de missão cumprida, ele responderia:

- Que nada. Tenho muito o que viver ainda. A vida começa aos 90.

Desde a infância tinha ouvido tantas vezes dizerem que a vida começa aos 40, que não tinha como não acreditar nisso. E, quando chegou aos 40, não teve dúvida em reformular:

- A vida começa aos 50.

E assim foram as coisas para esse homem que duelava com o tempo. A cada década transcorrida, adiava o reconhecimento de que tinha entrado para a terceira idade e renovava a ilusão de que podia prolongar a juventude por mais uma década.

A rebelião contra o tempo não se restringiu ao ponto de vista, mas se estendeu também ao comportamento. Separou-se aos 49 anos, após um casamento de 30 anos, e passou a procurar namorada. Intensificou o ritmo de academia pela manhã e corrida de rua após a bateria de exercícios. Seguia-se um banho, que o deixava pronto para mais um dia de trabalho.

Almoçava por volta das 11h30. Começava a trabalhar ao meio dia e conduzia o expediente até às 22h. Antes de dormir, habitualmente passava em um bar e afogava a solidão na sempre renovada esperança de encontrar um novo amor.

Perguntavam por que não descansava, após muitos anos de trabalho, e por que não se refugiava numa praia para curtir a tão merecida aposentadoria. Ele não queria descanso. Argumentava que o seu coração trabalhava sem cessar e essa era a sua referência de hábito e conduta.

Também gostava de ter a cabeça em funcionamento o tempo todo. Queria estar focado em projetos, desafios, riscos. Abriu um negócio que consumia as suas energias, mas sentia-se satisfeito. E priorizava as oportunidades de ganhar dinheiro. A aposentadoria não era suficiente para sustentar o seu padrão de vida. E, mais do que vocação, correr atrás do dinheiro era o seu destino.

Como parte dessa programação, decidiu ignorar todas as notícias de Brasília. Não tinha dúvida de que os acontecimentos gerados na capital do país causavam muito mal à saúde e deviam ser evitados. Mudava de canal na televisão sempre que aparecia o presidente ou outro político.

Os poucos amigos começaram a dizer, brincando, que era por causa do seu exemplo que o governo brasileiro queria reformar a Previdência. Nos comentários, acusavam-no de mostrar que a capacidade de trabalhar vai longe e que o descanso pode ser adiado por muitos anos. "Nada disso", ele rebatia. "O meu caso é só uma opção de vida."

E uma obsessão também. Severino não tinha dúvida de que o trabalho, somado a outros fatores, era o principal segredo da longevidade. Os outros itens, acreditava, eram ter saúde, preservar o equilíbrio, dormir bem, controlar o estresse, cultivar o bom humor. Mas o trabalho era essencial para manter a cabeça como dínamo impulsionador da existência.

Oscar Niemeyer era a sua maior referência. Se o gênio da arquitetura tinha chegado aos 104 anos, pensava, eu vou passar disso. Agora falavam na possibilidade de o homem viver 150 anos. A ciência alcançara tantos avanços que podia contribuir de forma concreta com a garantia de qualidade de vida. E ele acreditava (e queria com todo gosto) chegar ao menos aos 120. Era a sua maior ambição.

Na semana passada, quem passasse em frente à casa de Severino se surpreenderia com tudo fechado. Nada da presença dele na sua rotina de ir à academia pela manhã, correr pelas ruas do bairro, cumprimentar as pessoas.

Alguém, movido pela curiosidade, perguntou a um vizinho o que aconteceu com Severino.

-- Viajou -- disse o vizinho. -- Conheceu uma nova namorada e viajou. Foi curtir um desses paraísos exóticos, ilhas paradisíacas, sombra e água fresca. Saiu sem data para voltar.

-- O que aconteceu?

-- Descobriu que namorar e viajar também fazem parte do elixir da longa vida -- informou o vizinho.


E por falar em assédio




Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br

Ouvir conversa dos outros é sempre uma falta de modos -- ou de educação. Mas de repente você depara com uma situação em que é impossível não ouvir o que os outros falam.
Você entra na padaria numa manhã de sábado para tomar o tradicional café com pão de queijo. A mesinha escolhida fica ao lado de outro lugar ocupado por um homem e uma mulher. Ele usa óculos e aparenta 50 anos, e ela, uma bela de olhar indecifrável, deve ter 35 anos.

A conversa é inspirada na polêmica de assédio sexual que tem como vilão o produtor de cinema Harvey Weinstein. Parecem amigos. Namorados discutiriam outras coisas. Falam tão alto que é impossível não ouvi-los.

-- Haroldo, não acredito que você acha correta a atitude dos caras que usam o poder para a prática de assédio sexual -- protesta a mulher.

-- Desculpe, Valéria, mas não é uma questão pautada pelo que é certo e o que é errado. Nesses casos que ganharam repercussão mundial, o assédio se faz presente como a regra do jogo. Ninguém (nem o acusado nem a vítima) é obrigado a jogar. Quando se dispõem a isso, não podem alegar inocência. Jogam e ponto. Se são felizes depois disso, muito bem; se ficam infelizes, sabiam dos riscos.

-- Mas o praticante do assédio não pode agir assim. É um comportamento imoral, perverso, criminoso.

-- As vítimas também tiveram o livre arbítrio de dizerem "não" às investidas e quem disse "sim" sabia perfeitamente que pisava em campo minado.

-- Mas eram relações de trabalho. Não devia existir o assédio. As vítimas saíram prejudicadas moralmente e emocionalmente.

-- Quero crer que as vítimas podiam ter repelido a conduta de assédio no momento em que ela aconteceu. Tenho dúvida sobre porque fazem as denúncias somente agora, passados vinte ou mais anos. Quero crer que parece que o que houve nesses casos foram jogos de interesses em que as partes envolvidas lutavam por benefícios emocionais, profissionais, financeiros.

-- Haroldo, não acredito que você aprove essa pouca vergonha.

-- Não se trata de aprovar ou não. Esse tipo de relação se repete no cinema, na televisão e em outros grupos, espaços e atividades humanas, seja no trabalho, na universidade ou na praia.

-- Haroldo, não venha dizer que as mulheres assediadas tiveram benefícios como vítimas. Não fale uma bobagem dessa.

-- Algumas ficaram famosas, ricas, até mais célebres e milionárias do que os caras a quem acusam. E agora, atingido o topo de suas carreiras, denunciam os assédios sofridos em tempos passados. Poderiam ter reagido dessa forma no momento em que os casos aconteceram. Seria uma atitude mais efetiva.

-- Não importa quando denunciaram os assédios -- rebateu a mulher. -- Passado ou presente, isso não muda a gravidade dos casos.

-- Alimenta a dúvida sobre um comportamento "x" do passado em contraste com uma decisão "y" do presente -- ele comparou. -- No passado, quando tiveram a oportunidade de dizer "não" ao assediador, disseram "sim". Por quê? Movidas por quais razões? Isso elas não explicam.

-- Você está contra as vítimas?

-- Jamais. Ter essas dúvidas não me faz tomar posição contra ou a favor de ninguém. Estou sendo apenas realista num mundo (o do cinema norte-americano) desprovido de romantismo, dominado por egos, dinheiro, poder, relações perigosas.

-- Você está sendo machista.

-- Eu nego qualquer machismo. Seria indecente não apoiar as mulheres. Por natureza, sou a favor de todas as mulheres e contra todos os homens. Mas as perguntas têm que ser feitas. E lembre-se que também há mulheres que se comportam sob a influência do machismo. O apoio às vítimas não é unânime entre as próprias mulheres.

-- Sei disso.

-- Essa discussão pode beirar as raias da paranoia. Há risco de confusão entre assédio e sedução. Uma paquera pode ser confundida com imoralidade. Seria exagero. Num futuro como esse, eu seria crucificado só por olhar mulheres bonitas na rua, na academia, no local de trabalho. E esse olhar pode ser lírico, romântico, sonhador. Proibir esse comportamento seria loucura.

No instante em que saíram da padaria, Haroldo falou:

-- Ainda bem que você não ficou brava comigo.

-- Fiquei, sim -- Valéria respondeu. -- Mas a amizade continua.

E continuaram a discussão lá fora.