EDITORIAL


Intervenção no caos




Não foi uma Sexta-Feira 13. Foi uma Sexta-Feira 16, três dias após o fim do Carnaval. Os brasileiros começaram o dia com a notícia bombástica da decisão do presidente Michel Temer de decretar intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Foi como se a história rasgasse de vez a fantasia carnavalesca para reentrar na realidade carioca castigada por violência, facções e milícias criminosas, tiros de fuzil, mortes de inocentes.

A situação é tão grave e dramática que nem mesmo o Carnaval, com seu tradicional clima de alegria, foi suficiente para ofuscar a realidade insuportável. Ao contrário, as imagens de multidões nos sambódromos e nos blocos nas ruas dividiram espaços no noticiário com arrastões, assaltos, saques, mortes de civis e de policiais, pânico e medo.

Semanas antes do Carnaval, em várias ocasiões, os brasileiros já estavam chocados com as imagens de tiroteios, balas perdidas, enterros de inocentes, incompetência e omissão das autoridades de governo no combate ao crime organizado.

Como se tudo isso não bastasse, durante o Carnaval o clima também castigou o Rio com enchentes que causaram grandes prejuízos aos cariocas. Foi um peso a mais na rotina de escolas fechadas, roubos de cargas, motoristas encurralados por tiroteios. São 16 tiroteios por dia, segundo um site criado para acompanhar o caos.

Nesse círculo de calamidade, o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Marcelo Crivella passaram o Carnaval fora do olho do furacão que aterrorizou a Cidade Maravilhosa. Pezão estava no interior do Estado, e Crivella, em roteiro turístico na Europa. Eventuais justificativas pareceriam desculpas. Na prática, a ausência dessas autoridades representa omissão e fuga de problemas que os dois tinham a obrigação de enfrentar em busca de solução.

Diante do caos, ao decretar a intervenção federal, Temer proclamou: "Não podemos aceitar passivamente a morte de inocentes e é intolerável que nós estejamos enterrando pais e mães de família, trabalhadores, policiais, jovens e crianças."

Enquanto a intervenção estiver em vigor, nenhuma reforma constitucional poderá ser votada. E a medida é tomada às vésperas de uma tentativa de votação da reforma da Previdência no Congresso, prioridade máxima de Temer. Porém, se conseguisse reunir os 308 votos na Câmara dos Deputados (de 513) para aprovar a reforma, o presidente suspenderia a intervenção e depois a retomaria novamente. Essa possibilidade alimenta teorias de conspirações segundo as quais Temer teria se apropriado do tema da violência carioca para preparar uma saída honrosa para eventual derrota no projeto de reforma da Previdência. A intenção também poderia capitalizar para o presidente o reflexo positivo de quem toma uma atitude no mar de omissões de Pezão e Crivella. Para a baixa popularidade de Temer, na casa de apenas um dígito segundo as pesquisas de opinião, seria uma oportunidade de melhorar essa performance, mesmo que não se saiba quanto.

As contradições também avançam sobre a Emenda Constitucional 95 (proposta por Temer e aprovada pelo Congresso), que retirou recursos da Segurança Pública. No orçamento do ano passado havia mais de R$ 6 bilhões de reais do governo federal para a segurança pública, que poderiam ser usados em parcerias com os Estados, e este ano há menos de R$ 2,9 bilhões. Esse dado faz da proposta de criação do Ministério da Segurança Pública, confirmada ontem, parecer uma ideia fora de foco.

Agora, quem manda na segurança do Rio, por indicação de Temer, é o general do Exército Walter Souza Braga Netto, do Comando Militar do Leste. Que o general possa encontrar a forma para transformar o que é hoje um campo minado em cenário de paz e segurança para a população carioca.