ARTIGOS


Descentralize e faça o outro crescer




Geraldo Bonadio

Descentralizar conhecimento, delegar poder e partilhar responsabilidades estão, para o mundo profissional, como o tempero para a gastronomia. O bom prato não deve ser insosso nem condimentado em excesso: num caso e noutro a apreciação de seu sabor fica prejudicada.

Você alcançou alto nível de expertise. Tornou-se um quadro competente e respeitado, do qual a empresa se socorre com frequência, sempre que precisa de alguém apto a bem coordenar grupos de trabalho ou de estudo, capazes de, prontamente, solucionar questões intrincadas e eliminar gargalos e deficiências comprometedoras do processo produtivo.

É uma realidade confortável que, numa perspectiva personalista, interessa a você manter. O ideal, no entanto, é aprimorá-la, aperfeiçoando os esquemas hoje vigentes e, desse modo, localizar novos talentos.

Quando dispôs os acontecimentos de modo a conduzi-lo ao cargo que hoje ocupa, Deus expressou, sem alarde, a vontade de vê-lo galgando funções de ainda maior relevância. Isso somente será possível na medida em que, descentralizando a experiência acumulada, você permita que surja e cresça, ao seu redor, uma plêiade de novos talentos. Essa é uma tarefa que somente você, graças à maturidade obtida, tem condições de orientar. Exercitá-la não vai erodir a sua posição. Antes consolidará o seu papel, caracterizando-o como um líder de qualidade superior, capaz não apenas de consertar o que está errado, mas antecipar-se às emergências, para o qual sempre haverá espaço e oportunidade em qualquer organização.

Encare essa possibilidade com coragem e entusiasmo, sem temer que isso coloque em risco a sua posição, até porque a instituição que se priva de maiores competências seja a que pretexto for, certamente está fadada a não durar muito.

"Patrões (...). Não se aproveitem nem façam ameaças. Vocês e seus empregados estão abaixo do mesmo Senhor no céu. Saibam que ele não faz distinção entre vocês."

Paulo aos Efésios 6:9 A Mensagem - Bíblia em Linguagem Contemporânea
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com


Microplásticos: um poluente emergente




Walter Ruggeri Waldman

Antes de falar do tema deste texto, os microplásticos, proponho um exercício de abstração: imagine que você está faminto e na sua busca por alimentos apareçam coisas parecidas com comida. Aí você come isso e a sua barriga enche. Quando a fome volta, você come mais um pouco disso. Após mais um tempo a fome volta, mas você não consegue mais comer porque seu estômago ainda está cheio e a comida não entra! Aí você descobre que o que você comia, apesar de parecer comida, não era digerido pelo seu estômago, não vai mais sair de lá e não vai sobrar espaço para você comer mais. E se você não conseguir mais comer... Essa história acontece com muitos animais por culpa do lixo plástico. Aves costeiras podem comer plásticos flutuando no mar pensando serem comida, e morrem de fome com o estômago cheio (de plásticos). A pesquisadora Jennifer Lavren mostrou em vídeo no YouTube (bit.ly/micro-plasticos) a dissecção de uma ave marinha em que foram encontrados 112 pedaços de plástico no estômago. Outro caso clássico são tartarugas marinhas se alimentando de sacolas plásticas, imaginando serem águas-vivas. A ingestão de plásticos por animais, quando não é fatal, pode causar desnutrição e queda na imunidade, entre outros problemas.

Nada é tão ruim que não possa piorar: com a exposição ao sol, os plásticos se degradam e se fragmentam em pedaços menores, e são confundidos com alimentos por animais também menores, que estão na base da cadeia alimentar. Isto significa que se eles comem os lixos plásticos, estes plásticos podem migrar pela cadeia alimentar e chegar até seu topo. Ou seja: o que os invertebrados marinhos estão comendo pode chegar até a sua barriga através do seu prato de Semana Santa! Estes fragmentos pequenos, com menos de cinco milímetros, são os chamados microplásticos. Além de serem gerados na degradação de lixos plásticos, microplásticos são encontrados também em alguns esfoliantes faciais ou pastas de dentes (lista de produtos no Brasil em bit.ly/micro-esfoliante) e são produzidos aos milhares cada vez que você lava uma roupa de tecido sintético.

Você acha que acabou? Alguns poluentes químicos têm mais afinidade em aderir na superfície dos microplásticos do que em permanecer dissolvidos no mar. Isso torna o microplástico um concentrador de vários poluentes, como encontrou o projeto International Pellet Watch (bit.ly/micro-poluente). Neste projeto foi determinada a quantidade de poluentes na superfície de microplásticos espalhados pelo mundo e chegou-se a concentrações significativas do pesticida DDT na sua superfície, mesmo em locais em que o DDT está banido há décadas por ser danoso ao meio ambiente e associado a uma série de doenças. Quando se usa DDT em um país, este é levado para os rios pelas chuvas, de lá para o mar e então espalhado até para países onde eles foram banidos. Esta é a má notícia para quem faz a lição de casa de cuidar direitinho do seu ambiente: não adianta não poluir em seu país se outros países ainda poluem. Este esforço deve ser global!

O problema dos microplásticos é um tema emergente e atualmente muito estudado. Já existem pesquisas que encontraram microplásticos em amostras de cerveja, sal, mel, águas potáveis de torneira e engarrafada e em muitos outros produtos e lugares. Podemos dizer, sem exagero, que microplásticos são onipresentes no nosso entorno. Apesar de evidências apontarem para vários efeitos negativos da sua presença no ambiente, ainda há muito a ser estudado para confirmar de maneira inequívoca se os microplásticos fazem mal e quanto. Até lá não custa prevenir e tomar cuidado para que os plásticos não acabem parando no ambiente e virando microplásticos: use menos descartáveis e destine o seu lixo corretamente, a natureza agradece!

Walter Ruggeri Waldman é professor adjunto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), câmpus Sorocaba - walter@ufscar.br