ARTIGOS


O engasgo e seus problemas




Mário Cândido de Oliveira Gomes

Engasgo, entalo ou disfagia é a descida lenta do alimento, parada durante o trajeto ou deglutição com dificuldade. Ocorre em 6% da população adulta, sendo encontrada nas doenças do esôfago, cuja função é transportar a comida da boca para o estômago. O engasgo pode ser por alimentos sólidos ou líquidos, sendo chamada de alta quando se localiza na altura da fúrcula esternal, e de baixa na região retroesternal. Também pode ser constante (todas as refeições) ou intermitente, quando o aparecimento é intercalado com a descida normal do bolo alimentar.

Em relação à localização são classificadas em orofaríngeas, quando acontece na transferência da comida da boca para a faringe ou esofágicas, durante o transporte no trajeto do esôfago. Na disfagia orofaríngea ocorrem engasgos, entalos, tosse, regurgitação nasal dos alimentos, voz anasalada e pneumonias de repetição, enquanto na esofágica surge dor no peito, regurgitação, azia, dor no ato da deglutição (odinofagia) e história pregressa de ingestão de medicamentos, como antiinflamatórios e antibióticos.

A disfagia orofaríngea decorre do comprometimento da musculatura do esôfago ou é secundária a problemas neurológicos. É referida como parada da comida ou desconforto que dificulta, mas não impede a ingestão da comida. Pela aspiração volumosa de alimentos para as vias respiratórias provocam as pneumonias de repetição. Neste caso é impossível o uso da via oral, sendo necessárias vias alternativas para evitar o emagrecimento e a desnutrição progressiva. Por isso, existe dificuldade para fechar a boca na mastigação, excesso de saliva ou falta (xerostomia) e até problemas na fala (disartria). Ocorre em 1/3 dos pacientes com derrame e de 20% a 40% dos portadores de Parkinson, Alzheimer ou traumatismo na cabeça.

Entre as causas locais estão os tumores, bócio (aumento da tireóide). divertículos e abscessos, entre outras. Para o diagnóstico desta disfagia é necessário exame radiológico, endoscópico ou manometria, que mede as variações de pressão dentro da faringe ou esfíncter esofágico superior. Na disfagia esofágica existem dois mecanismos básicos: obstrução à passagem da comida (estenose, câncer, compressão extrínseca do esôfago) ou falência das contrações fisiológicas do órgão (peristalse), que movimentam o alimento para o estômago, como nos portadores de acalasia (falta de abertura do esfíncter inferior, que separa o esôfago do estômago), observada na doença de Chagas e nos espasmos. Na obstrução mecânica, a dificuldade inicial é para os alimentos sólidos, depois líquidos e, finalmente, para ambos. Com a progressão do entalo torna-se necessária a ingestão de pequenos goles de líquido, cuja quantidade aumenta com a intensidade da obstrução.

Um tipo de engasgo relativamente frequente ocorre na doença do refluxo gastroesofágico (oclusão progressiva do esfíncter inferior), que se manifesta por pirose ou azia (queimação no peito). Para esclarecer o refluxo é preciso a esofagografia convencional, complementada pela endoscopia e biópsia. O engasgo pode ser confundido com o "qlobus", que é uma sensação de "bolo na garganta", sem interferência com a deglutição. É encontrado nos estados depressivos ou com tendência obsessivo-compulsivo. Assim, todos os indivíduos que ingerem grandes volumes de líquidos durante as refeições, na tentativa de obter alívio da comida entalada no peito, devem procurar um especialista para esclarecer o problema, pois as enfermidades que levam ao mal do engasgo são progressivas, mas tratáveis. A correção vai depender da enfermidade de base, sendo geralmente cirúrgica, como ocorre com a doença de Chagas e o refluxo gastroesofágico. No mal de Chagas o esôfago sofre dilatação progressiva, caracterizando o megaesôfago.

Artigo extraído do livro Doenças - Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.


Quem fez suas roupas?




Sofia Coelho Moreira

Normalmente a pergunta que vem à cabeça de alguém que está fazendo compras ao provar uma roupa é: "Ficou boa essa roupa em mim?". Dificilmente a pessoa se perguntaria: "Quem será que fez minhas roupas?". Mas será que esta pergunta realmente não é relevante?

O setor têxtil é um dos que demanda maior mão de obra humana, e o valor dessa mão de obra é um fator chave na decisão das grandes empresas de fast fashion para alocar suas produções fabris. Dessa maneira, países como Bangladesh, China e Indonésia se tornam alvo para implantação do sistema produtivo pois possuem mão de obra extremamente barata. A condição dos trabalhadores, em sua maioria mão de obra feminina, se torna mais crítica devido à ausência de leis trabalhistas que favoreçam sua condição e devido à dificuldade de monitoramento de trabalhadores "indiretos" de grandes marcas.

Essa dependência que a indústria têxtil tem da mão de obra humana e as práticas listadas no parágrafo anterior podem configurar um sistema de "escravidão moderna", que precisa ser repensado. A que preço estamos pagando nossas necessidades de consumo, e essas são realmente necessárias? Há opção para consumir de maneira mais justa?

Nesse sentido, um acidente em Bangladesh no dia 24 de abril de 2013 chamou a atenção da mídia e começou a mudar o olhar de pessoas do meio sobre a moda. O desabamento do prédio Rana Plaza, construção em condição precária que alocava trabalhadores têxteis, deixou mais de 1.133 mortos e mais de 2.500 feridos gravemente. O conselho formado por líderes da indústria da moda sustentável, ativistas, imprensa e academia se uniu após o acidente e iniciaram o movimento chamado Fashion Revolution Day, que leva a mesma data do acidente 24 de abril, e completa 5 anos hoje. Desde 2014, na mesma data do acidente, ações de conscientização sobre os aspectos obscuros da indústria da moda foram e são evidenciados.

Em pouco tempo este movimento, inicialmente nascido de ativistas em Londres, tornou-se global, ganhando também representatividade no Brasil. O Fashion Revolution Day cresceu e se tornou Fashion Revolution Week. Ao longo de uma semana, em diversas cidades do mundo, acontecem eventos e ações para aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto social e ambiental em todas as fases do processo de produção e consumo.

Este ano, o Fashion Revolution Week acontece mundialmente nesta semana, dos dias 23 a 29 de abril, encorajando o máximo de pessoas a se juntar ao movimento, perguntando à marcas e varejistas "#quemfezminhasroupas". Em Sorocaba, o Fashion Revolution Week estará presente com três eventos esta semana. Hoje, dia 24, no Studio Karuna de Yoga, com uma roda da conscientização seguida de prática de yoga e meditação; amanhã, quarta-feira, dia 25, na Unesp, com a exibição do documentário "River Blue"; e dia 27, na Esamc, com bazar de troca, oficina de bolsas de retalho e roda da conversa sobre sustentabilidade e responsabilidade na moda. O local, horário e programação completa pode ser conferido no evento ofical do facebook "Fashion Revolution Week Sorocaba" (https://www.facebook.com/events/210738429512539/). Eventos das demais localidades do mundo podem ser localizados no site https://www.fashionrevolution.org/events/.

Vivemos em tempos de estímulo ao consumo, o que cria um vínculo muito superficial entre o consumidor e o produtor. Nossos hábitos de consumo incentivam mudanças na maneira de produção. Com mais consumidores conscientes pensando de forma diferente sobre o que vestem, a indústria terá que se adequar ao novo comportamento. Isso torna a ação individual uma arma poderosa de mudança quando vista da ótica coletiva.

Sofia Coelho Moreira é engenheira ambiental, mestranda em Ciências Ambientais (ICTS Unesp Sorocaba) e representante do Fashion Revolution em Sorocaba.