ARTIGOS


Pese com a mesma balança




Geraldo Bonadio

Em entrevista à Folha de S. Paulo, após desfilar numa escola de samba, Martinho da Vila disse que os ministros do Supremo estão se portando como artistas. "Falam de assuntos que ainda vão decidir, (...) dão opinião. (...) a coisa é tão triste que não tem jeito." Como dizer que ele exagerou?

Usamos de severidade exemplar ao julgar a conduta alheia. Raramente aplicamos, ao nosso proceder, igual rigor. Assim agindo, contrariamos o ensinamento de Jesus, cuja clareza é insuperável.

Ao avaliar nossas atitudes, palavras e pensamentos não podemos usar medidas e balanças diversas das que empregamos para condenar o semelhante.

Vivemos rodeados de pessoas que, muito duras na apreciação da conduta do outro, mostram-se condescendentes ao extremo face às barbaridades que elas próprias cometem.

Seus olhos muito atentos quando se trata de captar detalhes sórdidos na vida alheia, são incapazes de discernir a presença da perversidade nos acontecimentos em que, por alguma razão, se envolvem.

Ao sentir-se tomado por uma vontade imensa de tecer uma crítica ferina a alguém; quando a ocasião lhe parecer propícia para uma observação mordaz e provida de força capaz de implodir a credibilidade e o respeito de um adversário, dirija uma prece silenciosa ao Altíssimo. Peça a ele, em nome de Jesus, que o ajude a se manter em silêncio.

Deixará escapar uma ocasião imperdível, de reduzir a cacos a integridade de alguém; privar-se-á das palmas e gargalhadas dos circunstantes, mas, e isto é só o que importa, evitará o risco de cometer uma injustiça irreparável.

O Senhor, que abomina julgamentos apressados e aprecia a misericórdia, o abençoará por abster-se do mal que teve a chance de ocasionar.

"Escute o que Javé grita na cidade; escutem tribo e suas assembleias: (...) Acaso devo desculpar balanças viciadas, sacolas cheias de pesos adulterados?"

Miquéias 6:9-11

Edição Pastoral
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com


Dicionários




Aldo Vannucchi

O Carnaval me ensinou uma palavra: glitter. É puro inglês, mas brilhou, literalmente, nesses festejos do rei Momo. Foi elemento decorativo de foliões esse quase confete mínimo colorido. Descobri seu sentido na leitura de jornal e na conversa com pessoa mais jovem.

Dessa palavrinha forasteira, recém-metida no papo local, passei a matutar como a vida pende e depende das palavras, para a gente se encaixar na sociedade humana. E para esse encaixe básico, existem dois tipos de dicionários a nosso dispor: o impresso e o mental. O primeiro é público, dá o significado da palavra e a sua grafia. O Houaiss oferece ainda etimologia e datação. Já o dicionário mental é privado, restrito aos conhecimentos pessoais. Está gravado na cabeça de cada um, em permanente construção, desde a primeira palavra de bebê, até as 200.000 e tantas de um adulto de alta escolarização.

Interessante notar que o acesso ao léxico mental é quase sempre automático, fora do controle da pessoa e com atualização constante, tanto no cérebro infantil quanto na cachola de um octogenário. Já o uso do dicionário impresso só pode ser consciente, resultado de uma busca deliberada e nem sempre exitosa, porque podemos estar desatualizados. Veja, por exemplo, se você consegue achar aí glitter, meme, bitcoin...

Nessa altura, alguém pode me corrigir citando um terceiro dicionário nem mental nem impresso, o google, e, realmente, esse meio eletrônico enciclopédico representa, hoje, o salva-vidas de nossas ignorâncias, de nossa pressa ou, confessemos, de nossa preguiça. Vale como recurso, não elimina o dicionário tradicional e muito menos o cabedal intelectual de cada um, tesouro pessoalmente amealhado. Pode haver ótimo dicionário em casa, mas é um objeto. O mental mora em mim. Sou eu.

Com toda certeza, o meu vocabulário, o seu, o de um morador na rua ou de um doutor em letras, esse é o que nos distingue e é com ele que qualquer sujeito tem o direito de figurar em sociedade. E aí acontecem dramáticas discriminações, quando se mede o outro é medido não por critérios racionais, mas só pela sua palavra.

Convém lembrar também que toda palavra se contextualiza, para ganhar boa ou má precisão histórica. Veja-se o terrível refrão, repetido ad nauseam: "ele rouba, mas faz". Não precisa recorrer ao pai-dos-burros para descobrir o que é roubar e fazer. Até analfabetos sabem que roubar é mau, é feio, é crime e pecado, tanto quanto fazer constitui afirmação da capacidade criativa do ser humano. Naquela sentença popular, porém, o que prevalece é o elogio do político pela sua eficiência, apesar dos milhões que surripiou.

Dessa modesta análise salta a importância e o cuidado que as palavras merecem. Elas são umas 250.000 num bom dicionário e milhares em cada cabeça. Impossível pensar e usar todas, na fala e na escrita. Mas que sejam bem acolhidas e respeitadas as que borboletearem à nossa volta. Essa a velha lição de sabedoria dos provérbios: a bom entendedor, meia palavra basta; a palavras loucas, orelhas moucas; as palavras voam, os escritos permanecem; palavra e pedra solta não voltam atrás; palavras bonitas não enchem barriga; o boi pega-se pelos chifres, o homem pela palavra.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br