Economia

Que gasolina você põe no seu carro?

Antonio Geremias – antonio.geremias@jornalcruzeiro.com.br

É bem possível que, ao passar por um posto que anuncia gasolina a um preço baixo, você já tenha pensado sobre qual seria a mágica para vendê-la tão barato. O que todos concordam é que não há mágica possível quando se trata de economia.

No período de 24 a 30 de junho, a média dos preços numa relação de 26 postos pesquisados em Sorocaba foi de R$ 4,202 o litro. Destes, o que pagou mais barato pela gasolina desembolsou R$ 3,660 por litro (e revendia a R$ 4,259).

Se a margem média de lucro líquido do posto é 3%, torna-se incompreensível que se possa vender o combustível a R$ 3,80, por exemplo. Nessa pesquisa, o preço mais baixo encontrado foi de R$ 4,010 — em um posto em que não foi exibida a nota fiscal para comprovar origem e preço de compra.

Um dono de posto pode investir na formação de um grande número de clientes, ganhando apenas poucos centavos por litro, e lucrando com a quantidade de combustível vendido. Mas seriam poucos.

Assim, o raciocínio nos conduz a uma pergunta inevitável: será que a gasolina barata é adulterada? Para isso, é necessário saber de onde vem a gasolina que compramos.

Os três agentes definidos pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) que podem produzir gasolina no Brasil são os refinadores (refinarias), os formuladores e as centrais petroquímicas.

Atualmente existem 15 refinarias produzindo gasolina no Brasil, das quais 13 da Petrobras. Três centrais petroquímicas também produzem gasolina, segundo a ANP. As centrais usam como matéria-prima o gás natural ou a nafta (derivado do petróleo). No Brasil, é utilizada predominantemente a nafta.

Há, ainda, os chamados formuladores ou formulador, pois a ANP lista apenas um, a Copape, que produz gasolina por mistura de componentes adquiridos de produtores (refinarias e centrais), aquilo que o mercado vem denominando de “gasolina formulada”. De maneira geral, tem menor poder calorífico, portanto menor desempenho e maior consumo.

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Existem ainda os importadores de gasolina. Normalmente compram o combustível nos mercados estrangeiros e a revendem a distribuidoras locais.

Três tipos 

Assim, temos três tipos de gasolina à venda nos postos, fabricada pelas refinarias e centrais petroquímicas locais; importada e formulada (que também pode ser importada).

Segundo a ANP, toda a gasolina produzida no Brasil, assim como em outros países, é formulada, e que “desde que atenda às especificações estabelecidas pela ANP a origem da sua produção não interfere na qualidade do produto, além de não causar danos ao funcionamento dos veículos”.

Mas afirmar que toda gasolina é formulada não quer dizer que a formulação de cada uma delas é igual. E a dúvida surge pois a gasolina formulada favorece à adulteração ou à diferença de padronização.

O que se adiciona à gasolina para adulteração precisa ser combustível, tem que entrar em combustão, sumir e não deixar vestígios, ou deixar poucos. É por isso que o cidadão só percebe tarde demais.

A gasolina normalmente é adulterada com álcool, metanol ou solventes industriais de baixo custo. O acréscimo de álcool, ultrapassando os 27% oficialmente determinados, resulta em perda de desempenho e corrosão.

Produtos mais baratos e que se misturam bem à gasolina, como diesel e querosene, também são usados. De baixa octanagem, deixam resíduos na câmara de combustão e, em baixas rotações, geram a pré-ignição (detonação, a popular batida de pino).

Sebastião Pereira de Araújo, o Tuta, é mecânico e proprietário da oficina com o seu nome. Ele lembra, que no carro de um cliente, a mangueira do tanque de combustível foi tão atacada por gasolina adulterada que enrugou e rachou.

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Como reconhecer 

Resta aos consumidor descobrir que tipo de gasolina é vendida naquele posto que abastece. O assunto, porém, vem ganhando importância.

Os postos são obrigados a fazer o teste de densidade, se o consumidor pedir. Se houver a recusa, avise o Procon, a ANP ou a Petrobras.

Algumas dicas para se prevenir do problema são verificar um pequeno cartaz que deve estar sobre a bomba de gasolina. Nele, deve constar (é obrigatório) a razão social do fornecedor de combustível. Se o cartaz não está lá, desconfie.

Prefira postos com bandeira (ou seja, com a marca de uma companhia conhecida, Petrobras, Shell, Ipiranga, Competro etc). Se o posto não tem bandeira, não significa que ele adultera, mas não conta com a visita de equipes próprias de fiscalização.

Procure ter um ou dois postos onde você abastece regularmente e confia na qualidade. Para confiar, convém solicitar o teste de densidade.

Converse com mecânicos de sua confiança. Eles atendem os carros com problemas e acabam sabendo quem vende gasolina que não presta.

Uso da “formulada’ provoca controvérsia 

Euclides: aumento no consumo e perda de potência  - EMIDIO MARQUES

Euclides: aumento no consumo e perda de potência – EMIDIO MARQUES

Rogério Gonçalves, engenheiro mecânico e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, concorda com a posição da Agência Nacional do Petróleo (ANP) de que a chamada “gasolina formulada” é igual às outras. Não difere da que sai das refinarias em nenhum dos testes que a ANP realiza. E que é “lenda urbana” a ideia de que faz mal aos motores.

Não é, no entanto, o que dizem muitos mecânicos, com décadas de experiência, que lidam cotidianamente com os resultados de motores expostos a combustíveis vendidos nos postos.

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Para Sebastião Pereira de Araújo (o Tuta), a gasolina formulada aumenta o consumo, a queima é sempre irregular e o carro perde potência. Segundo ele, não é possível que tantos postos vendam gasolina adulterada.

Euclides Martins de Camargo (o Pachá), ex-jornalista e sócio de uma rede de 15 postos de combustíveis na Região Metropolitana de Sorocaba (Cacel e Competro), concorda. “Por ser construída a partir de solventes fortes, a formulada é muito volátil. Parte dela já entra na câmara de combustão vaporizada e queima antes da compressão estar finalizada, antes da faísca, a partir do elevado calor ambiente. É o que se chama de pré-ignição. Assim, é necessário mais dela para obter o mesmo rendimento, além dos possíveis danos. Forma uma borra no pé das válvulas e, como tem por base solventes fortes, ela dissolve o óleo lubrificante”, explica Camargo.
Velas de ignição indicam falhas no motor por combustível 

Aspecto mostra problema - REPRODUÇÃO

Aspecto mostra problema – REPRODUÇÃO

As velas funcionam como um indicador do que está acontecendo dentro do motor. Aspecto e cor indicam problemas técnicos, por vezes causados por gasolina de má qualidade ou adulterada.

Daniel Lovizaro, gerente de Assistência, Serviços e Treinamento Técnico Automotivo da divisão Automotive Aftermarket, da Bosch, diz que “o uso de combustíveis adulterados ou de procedência duvidosa interfere diretamente no desempenho do veículo, podendo gerar desgaste prematuro e problemas em diversos componentes”.

Para Hiromori Mori, consultor de Assistência Técnica da NGK, os “combustíveis adulterados ou de má qualidade podem causar carbonização ou superaquecimento das velas de ignição”, resultando em dificuldades na partida, falhas no motor e perda de potência”.

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