Brasil depende cada vez mais de exportações para a China

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Crédito da foto: Sérgio Coelho / Arquivo Codesp

Desde 2001, a participação chinesa nas vendas do Brasil cresceu de 1,9% para 28,5%. Crédito da foto: Sérgio Coelho / Arquivo Codesp

As exportações brasileiras estão cada vez mais dependentes do apetite do comprador chinês. De 2001 até o ano passado, a participação chinesa nas vendas do Brasil saltou de 1,9% para 28,5%. Com a crise global desencadeada pelo novo coronavírus, essa fatia subiu para 33,8% no primeiro semestre deste ano -- um terço dos US$ 101,7 bilhões exportados pelo País de janeiro a junho teve como destino a China.

Os dados são do Ministério da Economia, compilados pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. Para comparação, no mesmo período as vendas para os Estados Unidos caíram de 22,6% do total para 9,9%; já os embarques para a União Europeia, que respondiam por 25,4% das exportações brasileiras em 2001, ficaram em 15,4% neste primeiro semestre.

Segundo especialistas, o aumento da dependência da China está associado, em primeiro lugar, ao forte crescimento econômico do país asiático nas últimas décadas. Além disso, contribuem para esse cenário a queda recente da demanda por parte de outras nações afetadas pela pandemia, especialmente na América do Sul, e o fato de o Brasil ainda manter uma forte especialização na produção de matérias-primas.

Uma marca dessa especialização, reforçada nas últimas décadas, é o bom desempenho do agronegócio. Ao mesmo tempo em que a elevada produtividade do campo brasileiro reforçou a especialização nas matérias-primas, o acelerado crescimento tornou a China o maior importador global desses insumos. Em contrapartida, por conta da recessão, os Estados Unidos e nossos vizinhos da América do Sul -- principais mercados dos produtos industrializados brasileiros -- já estão comprando menos.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, fala em “interdependência” na relação comercial com a China. Ele lembra que o Brasil é o maior produtor e exportador de soja e carnes -- o fornecimento global desses produtos é dominado por Brasil e Estados Unidos.

Na última terça-feira, o Brasil assinou com os Estados Unidos uma declaração à Organização Mundial do Comércio (OMC) com críticas veladas à atuação da China no comércio internacional, dando mais uma demonstração de alinhamento do governo Bolsonaro com o governo Trump.

Na declaração conjunta, Brasil e EUA defenderam que o princípio de economia de mercado tem de valer para todos os integrantes da OMC, de forma a garantir condições equitativas de competição econômica no comércio internacional. Para ambos os países, as atuais regras da entidade não serviriam para a China, cuja economia é fortemente marcada pela intervenção do Estado.

“O Brasil não ganha nada com isso. Nossa tradição é mais multilateral”, afirmou Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, um dos problemas do alinhamento automático com os EUA é que, na arena do comércio internacional, brasileiros e americanos também são concorrentes. E as duas maiores potências agrícolas do planeta têm a China como principal mercado. (Estadão Conteúdo)