Cultura

Realidade aumentada chega à Floresta Nacional de Ipanema

Lançamento dessa novidade marca a data em que se comemora os 200 anos da construção dos Altos Fornos de Varnhagen
Realidade aumentada chega à Flona
Os altos fornos geminados, cujas ruínas existem até hoje na Flora, representam um marco na história da siderurgia brasileira – Foto: Luciano Regalado / Acervo Centro de Memória de Ipanema

Berço da siderurgia no País, a Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, situada na Floresta Nacional de Ipanema (Flona), em Iperó, será cenário de uma nova era tecnológica a partir desta quinta-feira (1º), data em que são comemorados os 200 anos da construção dos Altos Fornos de Varnhagen. Trata-se do lançamento de um aplicativo de realidade aumentada para smartphone que permite ao visitante conhecer a fábrica com as características do período em que Frederico Luiz Guilherme Varnhagen foi seu diretor.

Patrimônio histórico nacional remanescente da Real Fábrica, os altos fornos geminados construídos por Varnhagen representam um marco na história da siderurgia brasileira, pois seu funcionamento, iniciado em 1º de novembro de 1818, deu origem à produção de ferro gusa em escala industrial no país.

Realidade aumentada chega à Flona
Paulo Edson Alves, idealizador do projeto. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Intitulado “A fábrica de ferro”, o aplicativo gratuito para o sistema operacional Android permite que o usuário, ao apontar a câmera do telefone celular para as ruínas do sítio histórico, veja na tela reproduções tridimensionais da estrutura fabril com suas características originais. “É como uma máquina do tempo que vai transportar o visitante para outra época e ajudar mais gente a conhecer a história e a importância da Real Fábrica de Ferro”, comenta Paulo Edson Alves Filho, idealizador do projeto e professor da Fatec Sorocaba e Uniso.

Frequentador da Flona desde criança, Paulo Edson é aficionado por realidade aumentada, área da tecnologia que pesquisa há quase 20 anos, e, há oito, em um simpósio internacional, conheceu o neozelandês Mark Billinghurst, reconhecido pelo meio como principal referência do assunto em todo o mundo. O pesquisador detalha que, com o auxílio entusiasmado de Billinghurst, de quem se tornou amigo, deu início ao projeto, mas o aplicativo só começou a ganhar forma mais robusta em 2016, graças à evolução dos processadores dos celulares. Nos estudos iniciais, devido ao preço elevado dos equipamentos com tecnologia que suportasse o sistema, o custo do projeto ultrapassava os R$ 200 mil. “Como era inviável, deixei de lado, mas, de lá pra cá, a tecnologia evoluiu bastante que agora foi possível retomar”, diz.

Realidade aumentada chega à Flona
A imagem, de 1884, mostra os fornos em pleno funcionamento, na produção de gusa em escala industrial – Foto: Julio W. Durski / Coleção Princesa Isabel

O aplicativo é resultado de pesquisas acadêmicas da Fatec e contou com a contribuição de seus alunos. Inicialmente, o aluno Iuri Nery desenvolveu uma maquete da fazenda na qual foi possível desenvolver e aperfeiçoar o protótipo de realidade aumentada. Em seguida, o aluno Felipe Ribeiro desenvolveu o aplicativo que faz o reconhecimento espacial das ruínas. “O que será lançado [nesta quinta-feira (1º)] é o galpão com os fornos do Varnhagen. É o pontapé inicial, porque nossa ideia é ir incrementando o acervo virtual por todo a Fábrica”, comenta.

A reconstituição virtual dos fornos contou com assessoria técnica de Fernando Landgraf, professor de metalurgia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e especialista na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, que forneceu cópias das plantas originais e detalhou as etapas do processo siderúrgico.

Marco tecnológico

Paulo Edson acrescenta que, dado o “pontapé inicial”, o app deverá ser enriquecido de maneira colaborativa, por meio de pesquisas de extensão acadêmica, como iniciação científica, e de trabalhos de conclusão de curso. Ele detalha que a iniciativa também tem apoio de seu colega Randolph Souza, professor do curso de Jogos Digitais da Uniso. Futuramente, segundo ele, além dos fornos, os visitantes poderão ver ainda o funcionamento dos malhos (equipamento usado para quebrar os torrões de mineiro antes de ser fundido), os sopradores (responsáveis por oxigenar os fornos) e a roda d’água que gerava força motriz para o funcionamento do maquinário.

Realidade aumentada chega à Flona
Ao apontar a câmera do celular para as ruínas, será possível ver na tela reproduções tridimensionais da estrutura fabril – Foto: Luciano Regalado / Acervo Centro de Memória de Ipanema

Assim como os fornos, que foram inovadores em sua época, o aplicativo representa um novo marco tecnológico, já que seu apelo lúdico tem potencial de multiplicar o número de visitantes ao local que abrigou um dos principais empreendimentos industriais do Brasil colonial. “Toda ferramenta que pode ser usada para facilitar o visitante a compreender melhor o significado do que aconteceu no passado da unidade é muito bem-vinda”, comenta Maria Helena de Almeida, analista ambiental da Flona. Segundo ela, além de aumento de público, que atualmente é de 48 mil visitantes por ano, o aplicativo deverá estimular a sensibilização histórico-cultural, ambiental e de lazer e recreação, por meio de um contato mais próximo com a natureza.

Vale destacar que, a tecnologia de realidade virtual — semelhante à do famoso game Pokémon Go, lançado em 2016 — tem sido cada vez mais explorada em treinamentos de empresas, já que o ambiente digital permite a simulação de situações de risco de forma segura e supervisionada. No entanto, esta é uma iniciativa pioneira no Brasil voltada a sítio histórico, com finalidade educativa e cultural. Com inúmeras possibilidades transversais, que unem história, cultura, turismo, entretenimento e economia criativa, o aplicativo é inspirado em iniciativas já em curso na Europa, como, por exemplo, o Archeoguide, que recria virtualmente paredes de templos, onde hoje só restam ruínas.

Solenidades e selo marcam a data

O lançamento oficial do aplicativo ocorre nesta quinta-feira (1º), às 11h, em meio às atividades comemorativas de 200 anos dos Altos Fornos de Varnhagen que serão realizadas na Flona, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Prefeitura de Iperó.

Solenidades e selo marcam a data
Selo e carimbo serão utilizados até 30 de novembro

Além de poder experimentar o aplicativo in loco, os atos comemorativos começam às 9h45, quando o professor Fernando Landgraf fará a palestra “1818: a saga de Varnhagen na produção de ferro gusa nos altos fornos em Ipanema”. Às 11h30 haverá o lançamento de carimbo postal e selo comemorativo, pelos Correios, para marcar a data. O carimbo postal apresenta, ao centro, imagem da Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, com os dizeres “Altos Fornos de Varnhagen — 1º de novembro de 1818” na parte superior e “Correios-Iperó-SP — 1.11 a 30.11.2018” na parte de baixo. As datas são alusivas ao período de utilização do carimbo, que estampará as correspondências confiadas à agência central de correios na cidade de Iperó. As atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados.

Tombado como patrimônio histórico nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a fábrica de ferro em Ipanema, segundo o professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Nestor Goulart Reis, é considerada “o núcleo mais importante de desenvolvimento de tecnologia em São Paulo, antes da ferrovia”.

Solenidades e selo marcam a data
Ação dos Correios visa celebrar a data histórica

Os altos fornos geminados construídos por Varnhagen em 1818 não foram os primeiros do Brasil, nas figuram como um marco na história da siderurgia brasileira, já que consolidaram a produção industrial do ferro em gusa em território brasileiro.

Deles saíram moendas em ferro fundido, que contribuíram significativamente para o aumento na produção de açúcar em diversas regiões do País, substituindo as moendas fabricadas em madeira – e menos resistentes. Durante o seu período de funcionamento, de 1810 a 1895, a fábrica de ferro de Ipanema figurou como uma das principais fornecedoras de ferro fundido para os arsenais de guerra, indústrias de utensílios agrícolas e para o comércio em geral.

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