Cultura Letra Viva

’Oi, hoje tem live’

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com 

“Lives” são transmissões ao vivo que ocorrem na internet. A live (a partir deste momento, abro mão das aspas, por pura preguiça) pode ser um show do Michel Teló, pode ser uma aula que dou nesta semana, pode ser uma entrevista com o Drauzio Varella, pode ser uma dica de um coach, pode ser uma aula de ginástica. Cabe tudo na live. E a live é uma das marcas da quarentena seguida por muita gente.

Dia desses, vi uma charge maravilhosa na internet. Era um sujeito abrindo a geladeira e tendo que encarar uma live dentro do glorioso eletrodoméstico. Claro que se trata de uma situação exagerada. Se bem que não acho tão exagerada assim. Se eu fico alguns minutos vagabundeando pelo Facebook, é batata: no mínimo, aparecem umas dez lives rolando.

Longe de mim bancar o sábio que não se envolve com as questões mundanas. Nestes dias esquisitos, as lives vêm tapando uns buracos importantes da rotina escolar. Se eu fosse um cara sério, centrado e puro, vocês leriam aqui palavras enaltecedoras. Eu tentaria mostrar que estamos separados, mas unidos. Eu daria exemplos lacrimejantes de interações virtuais que estão mudando o mundo. Esta coluna teria aquele jeitão das propagandas socialmente responsáveis que assolam os pobres coitados que apenas querem ver um vídeo no YouTube.

(Só uma interrupção no curso principal deste texto: o João Pedro, tadinho, não consegue ter alguns minutos de paz. Ele só quer ver um desenhinho dos insetos musicais. A coisa rola por alguns míseros minutos. Aí a tela fica preta. Aí aparece uma música produzida para arrancar lágrimas de marmanjos. Aí aparecem imagens de uma cidade grande vazia. Aí o locutor fala que estamos vivendo uma situação inédita. Aí ele diz que sairemos dessa. Aí aparecem as ações da empresa. Ao longo desses sinais, eu quase destruí o controle remoto ao apertar freneticamente o botão que pula o comercial.)

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Bom, voltando ao que interessa. Se eu fosse um cara bacana, vocês leriam um texto inspirador. Infelizmente, meu espírito de porco prevalece. Sempre vejo os aspectos bizarros da vida. Passei um tempo tentando controlar este meu temperamento. Desisti faz tempo. Convenhamos, essa montoeira de lives não colabora.

As lives que eu faço até que são espartanas. Pedi para a coordenação do colégio onde trabalho que as minhas aulas, nestes dias de pandemia, fossem marcadas para o início da manhã. Ou seja: entro diariamente às 7h20 da manhã e saio às 9h. Faço a live no escritório aqui do apartamento. Às minhas costas, uma prateleira branca repleta de livros. Culpa exclusiva minha, há alguns buracos, há alguns livros inclinados. É que meu esporte predileto é bagunçar bibliotecas. Antes de ligar a câmera, jogo uma água no cabelo, confiro se não ficou alguma migalha de pão no bigode, essas coisas. Dou uma ajeitadinha na câmera. Aí é só correr pra galera, como diria o saudoso Seu Boneco. Meus alunos são elegantérrimos. Certamente notam a precariedade da live do professor urso. Notam, sei que notam, mas não dizem nada. Participam bem da aula, fazem ótimas perguntas, despedem-se alegre e carinhosamente. Sou um cara dos mais sortudos.

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Sou o primeiro a reconhecer a minha, digamos, rusticidade. É que somos, por natureza, comparativos. Tenho visto uma cacetada de lives nestes dias. Não vou nem falar das celebridades, de gente que ganha a vida fazendo isso. Seria covardia. Estou falando de amadores que, por algum motivo, precisam recorrer à bendita live. Dá pra notar o esmero. Os livros arrumadinhos. Os bonequinhos moderninhos acomodadinhos na prateleira. As flâmulas dos times milimetricamente dispostas na parede. A iluminação que acolhe e aquece a alma. O enquadramento correto. O tom de voz melífluo. A alegria de viver. A endorfina tomando conta da banda larga. Ou seja: tudo que não consigo fazer ou ser. Capricho. Senso estético. Noção. Empolgação.

Quem é o errado nesta história? Claro que sou eu. Eu sou o implicante. Eu sou o resmungão. Eu sou o antipático. Eu sou o cricri. E imploro para o mundo analógico voltar com tudo.

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