Dramaturgia ganha novas vozes em Sorocaba

Projeto reúne escritoras e atrizes para experimentar novas formas de levar a escrita para a cena; leituras serão gratuitas

Por Camila Santos

Na primeira edição, o feminino é ponto de partida para uma investigação sobre escrita, cena e diferentes formas de existência

Nem todo texto nasce para chegar pronto ao palco. Às vezes, ele começa como uma pergunta, uma lembrança, um depoimento ou uma tentativa de encontrar palavras para uma experiência. É nesse território de descoberta que se instala a 1ª Mostra de Dramaturgia Experimental de Sorocaba, que terá leituras dramáticas gratuitas nos dias 7 e 8 de novembro, no Nauta Estúdio.

A proposta é acompanhar justamente essa etapa em que a escrita ainda está em movimento. Em vez de partir de peças acabadas, o projeto coloca escritoras, dramaturgas, pesquisadoras e atrizes em contato durante um processo de investigação que pode misturar literatura, teatro, performance e outras linguagens.

Sob direção artística de Robson Catalunha, a mostra foi pensada como um laboratório. Os textos desenvolvidos ao longo do projeto podem assumir formatos diversos, passando por poesia, prosa, narração, cartas, depoimentos, slam e escrita performativa. Depois, as produções serão levadas às atrizes para as leituras, abrindo espaço também para que a interpretação interfira na maneira como cada texto pode ser percebido.

"O projeto nasce do desejo de criar um laboratório de dramaturgia, um espaço em que a escrita possa ser experimentada, discutida e transformada", afirma Catalunha.

Nesta primeira edição, a investigação parte de uma palavra que, em vez de funcionar como definição, aparece como provocação: feminino. A curadora e produtora executiva Bruna Moscatelli explica que a intenção não é buscar uma característica comum ou uma suposta identidade feminina, mas colocar em questão as imagens, os lugares e as possibilidades associados ao termo.

A programação começa com encontros de pesquisa e formação conduzidos por artistas e pesquisadoras. A partir dessas discussões, escritoras e dramaturgas de Sorocaba desenvolvem textos inéditos e curtos, que posteriormente chegam às atrizes para as leituras dramáticas. O processo é contemplado por edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

Para Moscatelli, o recorte permite investigar quem pode ocupar o lugar do feminino e quais outras formas de existência aparecem quando essa perspectiva é ampliada. "Não estamos propondo uma mostra sobre a 'mulher' e muito menos tentando encontrar uma suposta essência feminina", afirma.

O público poderá acompanhar parte desse percurso nos dois dias de leituras, quando os textos deixam o papel e passam a ser experimentados pela voz e pelo corpo das atrizes. Depois da mostra, as produções também serão reunidas em uma publicação digital, criando um registro do processo e ampliando a circulação dos trabalhos.