Processo de criação de Tarsila do Amaral está em cartaz no Fama
Exposição em Itu reúne parte de um acervo de 204 folhas da artista e mostra como o desenho acompanhou sua pesquisa e a construção de uma linguagem própria
O desenho, antes de chegar à tela, já era espaço de investigação para Tarsila do Amaral. É a partir desse aspecto menos conhecido da trajetória da artista que o Fama Museu, em Itu, apresenta, a partir deste sábado (26), a exposição "Tarsila - Onde Nascem as Imagens". Com curadoria de Marcos Amaro, fundador do Museu Fama, a mostra reúne uma seleção de desenhos pertencentes ao acervo do museu e propõe um olhar sobre os caminhos percorridos pela artista entre observação, estudo e invenção.
O acervo do Fama conta com 204 folhas de Tarsila, que somam 238 imagens, algumas delas com desenhos nos dois lados. O conjunto percorre um período de 1919 a 1959 e está entre os maiores acervos de desenhos da artista reunidos por uma instituição. A exposição, no entanto, não pretende fazer um panorama completo dessa produção. A proposta é apresentar um recorte capaz de evidenciar a diversidade de interesses de Tarsila e a importância do desenho em seu processo criativo.
Ao lado de paisagens, figuras humanas, estudos arquitetônicos, cenas do cotidiano e composições imaginárias, aparecem trabalhos ligados ao universo teatral. São desenhos em que a artista experimenta personagens, gestos e expressões com traços sintéticos, revelando uma produção que ultrapassa o papel de simples estudo preparatório para pinturas.
A exposição também permite acompanhar a transformação da linguagem de Tarsila. Os trabalhos evidenciam a formação acadêmica da artista, marcada pela atenção às proporções, à estrutura das formas e à construção do espaço, ao mesmo tempo em que apontam para o afastamento gradual desses modelos. No desenho, ela encontra um campo para testar novas possibilidades e elaborar formas que mais tarde seriam reconhecidas entre as marcas de sua produção modernista.
Esse percurso inclui referências diversas, da tradição acadêmica e do barroco brasileiro às vanguardas europeias. A influência do cubismo aparece na geometrização das formas e na reorganização do espaço, mas é assimilada por Tarsila dentro de uma pesquisa própria, em diálogo com a realidade cultural brasileira.
Um dos pontos da exposição é justamente a presença de uma obra de Pedro Alexandrino, artista que foi um dos mestres de Tarsila. A peça estabelece uma relação direta com sua formação e ajuda a compreender como o domínio do desenho acadêmico esteve na base das rupturas promovidas posteriormente pela artista.
Também estão presentes desenhos que antecipam elementos do imaginário antropofágico, com experimentações de corpos, figuras híbridas e outras construções formais. O conjunto mostra que essas imagens não surgiram de maneira isolada, mas foram resultado de um processo contínuo de pesquisa.
Para além das obras
A exposição também aposta na experiência do público, especialmente das crianças. Segundo Sandra Senamo, presidente do Fama Museu, uma sala interativa foi criada para aproximar os visitantes do processo de criação por meio do desenho.
"Nosso objetivo é cada dia mais atingir essas crianças, dar oportunidade para cada criança entrar aqui e poder conhecer", afirma Sandra. A proposta inclui atividades conduzidas pela equipe educativa, nas quais os visitantes podem desenhar e interagir com elementos da exposição.
A acessibilidade também integra o projeto. O museu mantém obras táteis e peças em 3D para visitantes com deficiência visual, permitindo que a experiência artística também aconteça pelo toque.
Para Sandra, a aproximação com a arte começa pela possibilidade de vivenciá-la. "Não é uma exposição que você fala: é rica, tem isso, tem aquilo. Ela tem o essencial para atingir o coração de cada criança que entra dentro desse museu e cada pessoa que gosta da arte e da cultura", diz.
A exposição ainda se insere em um movimento mais amplo de preservação e circulação da obra de Tarsila. Parte de seus trabalhos vem sendo apresentada em exposições no Brasil e no exterior, enquanto o Fama mantém em Itu um conjunto expressivo de seus desenhos.
Em "Onde Nascem as Imagens", o público é convidado a olhar para esse momento anterior à tela: o instante em que a artista observa, registra, testa, transforma e inventa. É no desenho que a mostra encontra uma Tarsila em processo — menos conhecida, mas fundamental para compreender a artista que ocupa um lugar central no modernismo brasileiro.