Dr. Abobrinha volta a Sorocaba após 50 anos
Pascoal da Conceição, de Castelo Rá-Tim-Bum, veio à cidade ministrar oficina do Sesi e relembrou noite passada na rodoviária local ainda jovem
Mais de cinco décadas depois de sua primeira passagem por Sorocaba, Pascoal da Conceição voltou à cidade para ministrar a oficina "110 Anos de Macunaíma". Aos 73 anos, o ator, nacionalmente conhecido pelo personagem Dr. Abobrinha, de Castelo Rá-Tim-Bum, reencontrou também uma parte importante de sua própria história.
A primeira visita ocorreu quando ele tinha apenas "16 ou 17 anos" e integrava o Grupo Soma de Teatro, de São Paulo. O grupo veio a Sorocaba para assistir a uma montagem de A Cantora Careca, de Eugène Ionesco. Como o espetáculo terminou tarde, os jovens não conseguiram voltar para a capital e passaram a noite na rodoviária.
"Como é a vida? Depois de 50 anos, eu volto à mesma cidade e desço na mesma rodoviária [...]. É uma coisa mágica, bonita, querida", contou ao Cruzeiro do Sul.
Na juventude, Pascoal chegou a ser aprovado na USP, mas optou por trabalhar no Banco do Brasil, onde permaneceu por cerca de dez anos. Ainda assim, a vontade de fazer teatro nunca o abandonou. Um curso profissional na própria USP o levou ao encontro da professora Renata Pallottini e, mais tarde, de José Celso Martinez Corrêa, conhecido no meio artístico como Zé Celso.
O convite para integrar o Teatro Oficina mudou sua trajetória. "Eu estou sozinho lá no Teatro Oficina. Queria atores e atrizes para recompor a companhia. Você não quer ir para lá?", relembra Pascoal, sobre o convite feito por Zé Celso.
A experiência foi fundamental para sua formação. No Oficina, Pascoal acompanhou a construção do espaço e conviveu com artistas, arquitetos e intelectuais. Para ele, Zé Celso ensinava que o teatro deveria ocupar seu espaço diante do poder econômico.
"Ele não se sentia menor por ser uma pessoa do teatro. Pelo contrário: sentia-se maior, igual, e às vezes até superior a outras pessoas."
Dr. Abobrinha
A televisão entrou na carreira do ator enquanto ele ainda trabalhava no Teatro Oficina. Atuando como freelancer na TV Cultura, surgiu a oportunidade de fazer um teste para Castelo Rá-Tim-Bum.
Inicialmente, Pascoal pretendia interpretar outro personagem, mas a equipe lhe apresentou um papel ainda em desenvolvimento: um especulador imobiliário que queria derrubar o castelo para construir um prédio de cem andares.
Como estava careca na época, o ator foi convidado a improvisar. O resultado foi o Dr. Abobrinha, um dos personagens mais marcantes de sua carreira.
Para Pascoal, a ligação com sua experiência no Teatro Oficina era evidente: "Ele é um empreendedor imobiliário, um especulador imobiliário. Passou na frente do castelo, viu aquele castelo e resolveu derrubá-lo para construir o prédio dele de 100 andares."
Mário de Andrade
Além do personagem que marcou sua passagem pela televisão, Mário de Andrade ocupa lugar de destaque na trajetória de Pascoal. Considerado um dos principais intérpretes da obra do escritor, o ator vê em Macunaíma uma síntese da diversidade brasileira. "O Macunaíma é uma caixinha cheia de coisas brasileiras", define.
Ao imaginar um encontro entre Macunaíma e Dr. Abobrinha, Pascoal aponta uma característica em comum entre os dois: a tentativa de encontrar soluções fáceis para os problemas.
"Os dois, como nós, brasileiros, sonham, às vezes, em resolver os problemas assim, ganhando na loteria."
A relação com Mário de Andrade também surgiu quando Pascoal falou sobre Sorocaba e o rio que corta a cidade. A situação dos rios o fez lembrar de "Meditação sobre o Tietê", poema em que o escritor aborda a degradação do rio paulistano.
Um novo ciclo
Depois de mais de cinco décadas de carreira, Pascoal afirma que não mudaria suas escolhas, nem mesmo as dificuldades enfrentadas pelo caminho.
"Hoje, eu faria tudo do mesmo jeito, igualzinho, inclusive com as dificuldades."
É com essa bagagem que ele passou a dedicar parte de seu trabalho à transmissão de conhecimento, como na oficina "100 Anos de Macunaíma", realizada no Sesi Sorocaba.
Para Pascoal, a iniciativa une duas áreas fundamentais: educação e cultura.
Em Sorocaba, o encontro teve um significado especial: o jovem que um dia passou a noite na rodoviária voltou décadas depois como um ator consagrado, trazendo consigo uma trajetória construída entre o Teatro Oficina, a televisão e a obra de Mário de Andrade.