Dramaturgia perde dois ícones em menos de 24 horas
Atrizes fizeram história no teatro, no cinema e na televisão e ajudaram a construir a teledramaturgia ao longo de mais de seis décadas
O Brasil perdeu, em menos de 24 horas, duas de suas mais importantes atrizes. Laura Cardoso, aos 98 anos, morreu na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. Ontem (18), Glória Menezes deu adeus ao palcos aos 91 anos, em São Paulo. As duas estavam entre os grandes nomes da primeira geração de artistas que ajudaram a consolidar a televisão brasileira e deixaram uma extensa trajetória no teatro, no cinema e na dramaturgia.
As mortes encerram trajetórias que atravessaram diferentes fases da cultura brasileira. Laura Cardoso, considerada uma das grandes damas da dramaturgia nacional, começou no rádio ainda adolescente e chegou à televisão nos primeiros anos do veículo no Brasil. Glória Menezes, por sua vez, estreou profissionalmente no fim da década de 1950 e se tornou uma das protagonistas mais reconhecidas da teledramaturgia, especialmente ao lado do marido, o ator Tarcísio Meira.
Laura Cardoso: uma vida dedicada ao ofício
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, Laura Cardoso começou a se interessar pela representação ainda criança. Aos 15 anos, contrariando a resistência dos pais, fez um teste para o rádio e acabou aprovada para atuar em radionovelas.
A experiência no rádio, em uma época em que as produções eram realizadas ao vivo, ajudou a formar a disciplina que marcaria toda a sua carreira. Em 1952, chegou à televisão, na TV Tupi, apenas dois anos depois da inauguração da emissora e da televisão brasileira.
Durante os primeiros anos, Laura trabalhou em uma televisão sem as facilidades técnicas atuais. Antes da popularização do videotape, programas eram transmitidos ao vivo, exigindo dos atores domínio do texto e concentração absoluta.
A atriz também construiu uma importante trajetória no teatro. Sua estreia nos palcos ocorreu em 1959, em "Plantão 21", de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Filho.
Ao longo das décadas seguintes, tornou-se presença constante em novelas e séries. Entre seus trabalhos estão "Irmãos Coragem", "Vale Tudo", "Mulheres de Areia", "A Viagem", "O Rei do Gado", "Chocolate com Pimenta", "Caminho das Índias", "Avenida Brasil", "O Outro Lado do Paraíso" e "A Dona do Pedaço".
Mesmo depois de mais de sete décadas de carreira, Laura nunca tratou a atuação como uma atividade da qual pudesse simplesmente se afastar. Em entrevistas, costumava afirmar que não pensava em aposentadoria.
Sua última atuação foi no curta-metragem "Dona Rosinha", em 2025. Laura deixou duas filhas, três netos e um bisneto. O velório ocorreu nesta terça-feira (18), em São Paulo.
Glória Menezes: pioneira da novela diária
Nilcedes Soares de Magalhães, nome de nascimento de Glória Menezes, nasceu em 19 de outubro de 1934, em Pelotas (RS), e se mudou ainda criança para São Paulo, onde construiu sua carreira e sua família.
O primeiro contato com a atuação aconteceu de forma inusitada. Aos cinco anos, participou de uma apresentação teatral em um navio, depois de ser levada escondida para os ensaios por um grupo de artistas argentinos.
Na juventude, estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-USP), mas deixou o curso para se dedicar ao teatro. No fim da década de 1950, iniciou a carreira profissional e chegou à televisão.
Sua estreia foi na TV Tupi, em "Um Lugar ao Sol", em 1959. Naquele início de carreira, contracenou justamente com Laura Cardoso, com quem construiu uma amizade que atravessou décadas.
Glória Menezes tornou-se uma das pioneiras da telenovela diária no Brasil e participou de mais de 40 novelas, além de minisséries e seriados. Entre seus personagens mais marcantes estão Ana Preta, de "Pai Herói", e Laurinha Figueroa, de "Rainha da Sucata", além de trabalhos em "Irmãos Coragem", "Cavalo de Aço", "A Próxima Vítima", "Torre de Babel", "Senhora do Destino", "Páginas da Vida" e "A Favorita".
No cinema, esteve no elenco de "O Pagador de Promessas" (1962), filme dirigido por Anselmo Duarte que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ao todo, participou de sete longas-metragens.
Sua última novela foi "Totalmente Demais", em 2015, na qual interpretou Stelinha. O último trabalho na televisão ocorreu em 2018, quando participou como ela mesma de um episódio de "Tá no Ar: a TV na TV".
Trajetórias que se cruzaram
Além da amizade, Laura Cardoso e Glória Menezes tiveram suas trajetórias profissionais entrelaçadas desde os primeiros anos da televisão. Trabalharam juntas quando o veículo ainda dava seus primeiros passos e acompanharam as transformações técnicas e artísticas que fizeram da teledramaturgia brasileira uma das mais reconhecidas do mundo.
A morte das duas, em sequência, representa o fim de mais um capítulo da geração de artistas que ajudou a criar a linguagem da televisão no país. Elas são mais que personagens inesquecíveis, pois ambas atrizes deixam como legado uma longa defesa do trabalho do ator — feito com estudo, disciplina e dedicação ao ofício.
A cortina se fecha. Mas o legado de Laura e Glória permanecem. (Com informações da BBC e CNN)