Guilherme Arantes canta 5 décadas em palco de Sorocaba
Em entrevista ao Jornal Cruzeiro, o cantor falou sobre longevidade, sucessos, novelas e reconhecimento do público
Aos 73 anos, Guilherme Arantes celebra cinco décadas de carreira com a disposição de quem ainda tem muito a dizer por meio da música. Em Sorocaba, onde se apresentou com a turnê "50 Anos-Luz", no Recreativo Campestre, no sábado (8), o cantor recebeu o jornal Cruzeiro do Sul no camarim, onde falou sobre trajetória, criatividade, sucessos e o reconhecimento conquistado ao longo dos anos.
A longevidade da carreira, segundo Guilherme, é algo que ele próprio não imaginava quando começou. "Esses 50 anos são uma surpresa para mim, porque eu não imaginei que eu ia durar", afirmou.
Ele conta que sua geração cresceu sob a tensão da Guerra Fria e do medo de uma guerra nuclear, o que alimentava uma sensação de que a vida poderia ser breve. Hoje, olhando para sua trajetória, demonstra surpresa e satisfação. "Eu estou com 73 anos, mas eu estou, assim, muito bem em termos de criatividade, de fazer músicas, ainda tenho muita ilusão", disse.
Para o cantor, a maturidade trouxe uma relação diferente com a música. Se nos anos 1970 e 1980 havia o sonho do estrelato, hoje ele valoriza a possibilidade de continuar produzindo e apresentando novas canções. "Eu chego, assim, na terceira idade, fazendo um trabalho qualificado de músicas bonitas. Eu mostro muitas músicas novas, coisas, ideias novas, que têm nobreza, que têm harmonia, beleza", afirmou.
Gratidão pela trajetória
Guilherme também falou com carinho sobre a relação que construiu com a indústria fonográfica, a televisão e as novelas, veículos que tiveram papel fundamental na popularização de suas músicas. "Eu fui muito feliz com a indústria fonográfica, com a televisão, com as novelas, tenho muita gratidão", declarou.
O artista considera que vive hoje uma das fases mais importantes de sua carreira, justamente pelo reconhecimento conquistado ao longo do tempo.
"Eu acho que esse é o melhor tempo da minha vida, no sentido, assim, que as coisas deram certo, eu tenho credibilidade, as pessoas gostam de mim", afirmou.
Essa relação com o público, segundo Guilherme, atravessa diferentes estilos musicais. Ele cita a admiração que recebe de artistas ligados ao pagode, rap, samba, MPB, sertanejo e forró. "Eu sou um cara que agrado o pessoal do pagode, do rap, do sertanejo gostam de mim, até o pessoal do forró."
Sucessos que ganharam vida própria
Ao falar sobre o legado de sua obra, Guilherme destacou canções que ultrapassaram o universo do entretenimento e ganharam significado próprio. Entre elas estão "Planeta Água", "Amanhã" e "Brincar de Viver", esta última composta para Maria Bethânia. "Eu tive tantas músicas de sucesso, músicas populares que chegaram no povão, músicas que chegaram na elite, músicas que viraram institucionais", afirmou.
Sobre "Brincar de Viver", o cantor admite que não imaginava a dimensão que a música alcançaria na carreira de Bethânia. "Eu nunca pude imaginar que Brincar de Viver ia ser o grande destaque de uma carreira tão completa como a da Bethânia", disse.
A televisão também ocupa um lugar especial nessa memória. Suas músicas fizeram parte de novelas que marcaram época e acabaram criando uma ligação entre as composições, personagens e atores. "Eu peguei cada novela inacreditável, novelas muito boas de qualidade, de dramaturgia, de elenco", relembrou.
Guilherme cita ainda atores como José Wilker e Raul Cortez, com quem acabou criando relações de amizade a partir desse universo. "Pessoas que foram amigos e que se tornaram amigos porque tiveram personagens com as minhas músicas. Então, isso aí, nossa, eu olho assim, é um valor agregado muito grande."
Guilherme também fez questão de lembrar os artistas de sua geração. Djavan, Belchior, Fagner, Fábio Júnior, Zizi Possi, Sandra de Sá, Cassiano, Luiz Melodia e Lenine foram alguns dos nomes citados pelo cantor. "Nós somos uma geração maravilhosa, nós plantamos coisas tão boas", afirmou.
Para ele, o fato de muitos desses artistas continuarem ativos é motivo de orgulho. "Nós estamos vivos, nós estamos fazendo shows, levando músicas bonitas, conteúdos."
Encontro com as fãs
Depois do bate-papo, o cantor recebeu fãs no camarim, entre elas Silvana Pontes Villas Bôas, contemplada em uma ação cultural promovida pelo Cruzeiro do Sul.
Fã de Guilherme Arantes desde os anos 1980, Silvana conta que as músicas do cantor acompanharam momentos marcantes de sua vida. Na lua de mel, em abril de 1990, ela e o marido ouviam diariamente um conjunto que ensaiava e apresentava canções de Guilherme. Anos depois, durante uma gravidez de risco, a música do artista voltou a fazer parte de um momento decisivo. O casal não sabia o sexo do bebê nem havia escolhido o nome. Quando o filho nasceu, uma música de Guilherme Arantes tocava em um quarto próximo. Ao descobrir que era um menino, o pai decidiu: "Será Guilherme Pontes Villas Bôas."
A homenagem acompanhou a família ao longo dos anos. No camarim, Silvana contou a história ao cantor e se emocionou ao ser recebida com carinho. Guilherme ainda autografou uma camiseta que ela entregou ao filho, que desde pequeno sabe o motivo de seu nome e também é fã das músicas do artista.
Música de mãe para filha
A paixão por Guilherme Arantes também atravessa gerações. Luísa Nicoletti, de 11 anos, contou que começou a conhecer melhor o trabalho do cantor por influência da mãe, Lucy Mara Nicoletti, e se encantou especialmente com "Cheia de Charme" e "Lindo Balão Azul".
"Eu assisti à novela 'Cheia de Charme' duas vezes e sempre escutei aquela música. Sempre me admirei com essa música. Aí minha mãe falou que era dele e comecei a escutar mais o Guilherme Arantes." "Lindo Balão Azul" também ganhou um significado especial para a menina. "É só ouvir que já bate aquela saudade, vontade de ouvir de novo", contou.
Para o encontro com o cantor, mãe e filha prepararam uma surpresa, levaram chocolates e uma carta escrita especialmente para Guilherme, reunindo o carinho e a admiração das duas. "Eu fiz e coloquei o meu amor, o meu e o da minha mãe por ele."
No palco, Guilherme Arantes transformou as cinco décadas de carreira em uma celebração coletiva.
Ao som de sucessos como "Cheia de Charme", 'Lindo Balão Azul', "Amanhã", o cantor reencontrou uma plateia formada por diferentes gerações, algumas que cresceram com suas músicas e outras que chegaram a elas por meio dos pais, das novelas e das novas formas de ouvir música.