Fotógrafo 2T retrata a cultura brasileira pelas lentes

Nascido no Ceará e criado em Sorocaba, Mattheus da Silva Santos faz da imagem um registro das diferentes brasilidades

Por Camila Santos

Futebol também faz parte do olhar atento

Há fotografias que apenas registram um instante. Outras conseguem revelar histórias, identidades e modos de viver. É nesse território que atua o fotógrafo Mattheus da Silva Santos, conhecido artisticamente como 2T. Nascido no Ceará e criado no interior de São Paulo, ele construiu um trabalho que ultrapassa o simples ato de fotografar e se aproxima da arte como forma de interpretação da cultura brasileira.

Desde 2015, quando começou a fotografar como hobby, 2T vem transformando o olhar atento sobre o cotidiano em profissão. O interesse surgiu de maneira espontânea, ainda no ensino médio, ao experimentar a câmera de um celular novo. Uma imagem de paisagem feita em Tatuí e a reação positiva das pessoas despertaram algo maior.

"Eu achei bonito e a reação das pessoas acendeu uma chama. A diretora da escola me chamou para fotografar os eventos e foi aí que percebi que gostava mais de fotografar pessoas do que paisagens", conta.

O percurso o levou a uma fotografia marcada pela observação dos espaços populares, das manifestações culturais e das relações humanas. Em vez de buscar cenários grandiosos, 2T prefere os lugares onde a vida acontece de maneira espontânea: a rua, a periferia, os campos de várzea, os ônibus lotados, as festas, os teatros e as arquibancadas.

Para ele, a fotografia é também uma forma de preservar memórias e valorizar identidades que muitas vezes permanecem à margem dos grandes discursos culturais.

"Hoje eu me considero um fotógrafo cultural. Não se trata apenas de registrar eventos, mas de fotografar as diferentes culturas que formam o Brasil. Gosto de estar na aldeia indígena, na periferia, no futebol de várzea, na cultura de arquibancada, no teatro, no circo. É tudo isso que ajuda a construir a nossa cultura brasileira", afirma.

Essa percepção aparece também na maneira como o fotógrafo entende a brasilidade. Distante dos estereótipos frequentemente explorados pela publicidade, seu trabalho busca o país real, encontrado nos pequenos gestos e nos territórios do interior.

"O verdadeiro gingado brasileiro está nos becos e vielas úmidas, dentro de um ônibus lotado, longe dos grandes centros e principalmente nos interiores do país. É esse Brasil que me interessa fotografar", diz.

A estética das imagens de 2T é marcada pelo uso intenso das cores. Em suas fotografias, elementos aparentemente comuns ganham força poética e se transformam em narrativas visuais.

"Eu gosto de transmitir vida. Minhas fotos são sempre muito coloridas porque a cor traz isso. Existem ambientes aos quais ninguém dá importância, e eu quero transformá-los em algo vivo. O mundo já é muito cinza e sem graça, então, na minha fotografia, eu quero fazer o contrário", explica.

Entre os trabalhos que mais o marcaram está um ensaio realizado em um canavial de Tatuí para a peça teatral *Labuta*, em que atores vestidos como trabalhadores carregavam facões com os nomes de suas mães. Outra imagem que ganhou grande repercussão foi o retrato de um cachorro caramelo diante de uma bandeira do Brasil, fotografia que viralizou durante a Copa do Mundo e ultrapassou 1,5 milhão de visualizações.

Ao longo de pouco mais de uma década, o fotógrafo transformou uma curiosidade juvenil em profissão, sem abandonar o sentimento que o levou a fotografar pela primeira vez: a vontade de observar e compreender o mundo.

Em um tempo marcado pela velocidade das imagens, o trabalho de 2T lembra que a fotografia também pode ser arte, memória e documento cultural — uma maneira de revelar a beleza escondida nos encontros cotidianos e nas múltiplas expressões que formam a identidade brasileira.