Bienal propõe novo olhar sobre a história de Sorocaba
Evento reúne pesquisadores, artistas e coletivos para discutir memória, patrimônio e direito à cidade
Sorocaba ganhará um novo espaço de debate sobre sua história, sua cultura e os desafios do desenvolvimento urbano. A 1ª Bienal Repensar Sorocaba, que será realizada entre julho e agosto, reunirá pesquisadores, artistas, coletivos e agentes culturais em uma programação composta por caminhadas históricas, cine-debates, rodas de conversa, oficinas, exposições e mesas temáticas. O objetivo é ampliar a discussão sobre a construção da memória da cidade e dar visibilidade a narrativas que, segundo os organizadores, ficaram à margem da história oficial.
A iniciativa é organizada pela Cubile Editorial e pelo Labcine e tem à frente o historiador Pedro Carvalho, o editor Cicero Santos, a jornalista Fernanda Ikedo, o geógrafo Carlos Rufini e o cineasta Bruno Lotelli.
Em entrevista exclusiva ao jornal Cruzeiro do Sul, a jornalista Fernanda Ikedo explicou que a proposta nasceu da necessidade de ampliar o olhar sobre a história de Sorocaba.
"Estamos organizando a Bienal porque existe a intenção de repensar a própria história da cidade. Queremos promover mesas de debate e oficinas que permitam discutir diferentes formas de olhar para Sorocaba e para a construção da sua memória."
Com o subtítulo "Entre Ruínas e Fagulhas: História e Direito à Cidade", a primeira edição é inspirada nas reflexões do filósofo Walter Benjamin. A proposta parte da ideia de que as "ruínas" representam os apagamentos, as desigualdades e as destruições produzidas ao longo da história, enquanto as "fagulhas" simbolizam a memória, a resistência cultural e a possibilidade de construção de novos caminhos para a cidade.
Segundo Fernanda, um dos principais objetivos é romper com a ideia de uma narrativa única sobre o passado sorocabano.
"Durante muito tempo, predominou uma história oficial centrada apenas nos bandeirantes e nos chamados desbravadores. Mas existem as histórias dos povos indígenas, da população negra, das mulheres e de tantos outros grupos que foram invisibilizados. A Bienal nasce justamente para ampliar esse debate."
Ela ressalta que a intenção não é substituir uma narrativa por outra, mas ampliar as possibilidades de interpretação da história local.
"Queremos que as pessoas possam compreender que a cidade é feita por diferentes sujeitos, diferentes memórias e diferentes experiências. Quando ampliamos esse olhar, conseguimos entender melhor também os desafios do presente."
Primeiras atividades
Embora o evento principal esteja marcado para os dias 15 e 16 de agosto, a programação começa hoje (11), com a atividade "Bienal em Movimento - Bienal e IAB ocupam a Feira da Vila Operária: Deriva pelo Santa Rosália". A caminhada histórica ocorrerá das 10h às 12h, com saída da Praça Pio XII.
A ação é realizada em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e convida o público a percorrer as ruas do bairro observando sua arquitetura, seu patrimônio e as transformações urbanas ao longo do tempo.
"Além dos dois dias principais da Bienal, nós quisemos construir um processo. A caminhada em Santa Rosália é a primeira atividade e pretende aproximar as pessoas da história da cidade a partir do próprio território, observando as paisagens urbanas e refletindo sobre suas transformações."
Ao longo de julho e agosto também serão promovidas sessões especiais do Cine Farol, rodas de conversa sobre cultura, patrimônio e história e outras atividades preparatórias para a Bienal.
Evento principal
A programação principal será realizada nos dias 15 e 16 de agosto, no Núcleo ETC da UFSCar Sorocaba, em Santa Rosália. O primeiro dia terá como tema "Memória e Narrativas da Cidade", abordando patrimônio, historiografia, preservação e diferentes formas de pertencimento entre centro e periferia.
Já o segundo dia será dedicado ao eixo "Direito à Cidade e Práticas Sociais", reunindo debates sobre políticas públicas, ocupação do espaço urbano, atuação de coletivos culturais e movimentos sociais. O encerramento contará com uma mesa sobre a história como direito coletivo e apresentação musical.
A Bienal reunirá pesquisadores de Sorocaba e de outras regiões do país. Entre os convidados confirmados estão João Sette Whitaker Ferreira, Maria Encarnação Beltrão Sposito, Lilian Solá Santiago, Francisco Dias de Carvalho e Marta Rovai. Também participarão pesquisadores e pesquisadoras de Sorocaba, como Viviane Melo Mendonça, Larissa Girardi, Daia Moura, Marcos Francisco Martins, Potyra Kambemba, Ari Holtz, Marco Massari, Gustavo de Campos, Ariely Diniz, Wellington Ataíde e Miriam Bonora.
Além das mesas de debate, a programação inclui oficinas, uma exposição de arte indígena, uma mostra sobre patrimônio negro e a plataforma audiovisual "Terras Rasgadas".
Fernanda acredita que a iniciativa pode fortalecer o debate sobre o futuro da cidade.
"Esperamos que a Bienal seja um espaço permanente de encontro entre pesquisadores, artistas, coletivos e a população. A história não pertence apenas aos livros ou às universidades; ela faz parte da vida das pessoas e precisa ser construída de forma coletiva."