Contador dos muitos Brasis se despede
Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos e deixa um legado que transformou o Brasil rural em protagonista da teledramaturgia
A teledramaturgia brasileira perdeu, ontem (7), um de seus maiores nomes. Morreu, aos 95 anos, o escritor e dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, autor de clássicos como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra, Cabocla e Sinhá Moça. Ele estava internado no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, e morreu em decorrência de complicações de uma insuficiência renal crônica, diagnosticada há cerca de três anos.
Criador de sucessos de audiência, Benedito construiu uma obra que ajudou milhões de brasileiros a conhecer diferentes regiões, culturas e conflitos do País. Nascido em 1931, em Gália, no interior paulista, e criado em meio aos cafezais e às comunidades formadas por descendentes de imigrantes, transformou suas memórias, vivências e observações em narrativas que fizeram do Brasil rural protagonista da televisão.
Para o jornalista e pós-graduando em Escrita de Telenovelas Erick Rodrigues, o diferencial do autor estava justamente na forma como construía suas histórias.
"Um elemento muito marcante da obra do Benedito Ruy Barbosa: a memória. As histórias dele nasciam das lembranças, dos causos contados, dos sentimentos, das experiências de vida e do afeto. E, também, de um profundo interesse que o autor demonstrava ter pelos universos e personagens que queria apresentar. Era tudo muito genuíno e não havia superficialidade. Acredito que isso permite que as novelas dele sigam vivas no imaginário popular."
Os muitos Brasis
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Benedito levou para a televisão paisagens e personagens pouco explorados até então. Das fazendas de gado ao Pantanal, das lavouras de café às histórias da imigração italiana, da cultura caipira às lendas populares, suas novelas apresentaram um Brasil distante dos grandes centros urbanos.
Para Erick Rodrigues, essa foi uma das maiores contribuições do dramaturgo para a cultura nacional.
"No livro Autores - Histórias da Teledramaturgia, o Benedito disse que o universo dele era o Brasil. Eu acho que vai além: o universo dele são os muitos Brasis que existem no Brasil. Somos um país de dimensões continentais e multicultural."
Segundo o pesquisador, ele mostrou ao público realidades que muitos brasileiros desconheciam.
"Como autor de novelas, Benedito apresentou ao público o Brasil do cacau, do gado, do Pantanal, das lendas, da população que vive nas margens do Rio São Francisco. E também nos confrontou com as nossas mazelas, com o Brasil da desigualdade, do poder do mais forte, da vassoura-de-bruxa e da politicagem."
Essa capacidade de aproximar diferentes realidades fez de suas novelas um importante instrumento de construção da identidade nacional.
"Ao levar tantos Brasis diferentes para os lares de 40, 50 milhões de espectadores todas as noites, Benedito conseguiu conectar todas essas diferentes realidades através da emoção e isso fortaleceu nossa identidade enquanto povo e país."
Temas que
continuam atuais
Embora muitas de suas novelas tenham sido escritas há décadas, seus temas permanecem atuais. Questões como reforma agrária, preservação ambiental, imigração, relações familiares, desigualdade social e condições de trabalho seguem presentes no debate público.
Para Erick Rodrigues, essa permanência explica por que suas produções continuam conquistando novas gerações, inclusive por meio de reprises e remakes.
"Esses assuntos não apenas dialogam com o Brasil de hoje, eles ainda estão aí. Essas questões ainda estão postas e isso se prova a cada reprise de uma novela dele."
Ele destaca que as obras de Benedito nunca se limitaram ao entretenimento.
"Reforma agrária, condições de trabalho dignas, respeito ao tempo e ao espaço da natureza, a educação como elemento de transformação. Todas essas discussões foram colocadas com as novelas dele e ainda se fazem muito necessárias."
Um contador de histórias
Para além do reconhecimento como um dos maiores autores da televisão brasileira, Erick acredita que o maior legado deixado pelo autor está na essência de seu trabalho.
"Benedito Ruy Barbosa era um genuíno contador de histórias e o maior legado que ele deixa como autor é justamente essa característica."
Segundo ele, o dramaturgo tinha um interesse verdadeiro pelas pessoas e pelos lugares que retratava.
"Essa paixão dele por ouvir e, depois, transformar memórias, relatos e causos em novelas é a maior inspiração e exemplo para os autores que surgem e ainda vão surgir. Ele se interessava de verdade pelo campo, pelas pessoas que ali viviam, pelo contexto em que estavam inseridas e pelas necessidades que tinham."
Na avaliação do pesquisador, suas novelas preservaram uma tradição oral que atravessa gerações.
"Também dá para dizer que as histórias dele prolongaram as rodas de conversa ao redor do fogo, levando-as para dentro dos lares das pessoas, mantendo-as vivas com o passar do tempo e o desenvolvimento da tecnologia. Isso é muito bonito."
Com a morte de Benedito Ruy Barbosa, encerra-se a trajetória de um dos escritores que melhor compreenderam o Brasil e seus contrastes. Permanecem, porém, personagens, paisagens e histórias que continuam atravessando gerações e ajudando milhões de brasileiros a reconhecer, na ficção, a própria realidade.