Peixe Vagalume amplia acesso à cultura na RMS
Projeto gratuito leva espetáculos, cursos, oficinas e formação em acessibilidade cultural a pequenos municípios, criando oportunidades para artistas e público
A partir de agosto, moradores de pequenos municípios da Região Administrativa de Sorocaba (RA) terão acesso a uma ampla programação cultural gratuita que reúne espetáculos, cursos, oficinas e oportunidades de formação profissional. O projeto "Peixe Vagalume: Voos e Mergulhos em Pequenos e Férteis Territórios", realizado pelo Núcleo Peixe Vagalume com recursos do Programa de Ação Cultural (ProAC), pretende fortalecer a produção artística regional tendo a acessibilidade como eixo central das atividades.
Com sede em Porangaba, o grupo percorrerá municípios com menos de 50 mil habitantes entre as regiões de Sorocaba e Botucatu. A programação inclui a circulação de três espetáculos do repertório do núcleo, três cursos voltados à acessibilidade cultural, oficinas práticas e um ciclo de formação que oferecerá estágios supervisionados e remunerados para artistas da região.
Mais do que adaptar espetáculos para pessoas com deficiência, a proposta busca incorporar a acessibilidade desde o nascimento das obras, tornando-a parte da criação artística.
Segundo a coordenadora, atriz e pesquisadora do Núcleo Peixe Vagalume, Tejas, a iniciativa surgiu da percepção de que o próprio grupo precisava aprofundar seus conhecimentos sobre o tema. "A gente foi entendendo, ao longo do tempo, que esses recursos são superimportantes, mas também pode ser muito interessante pensar modos de criação em que os recursos de acessibilidade estejam inerentes à estética dos espetáculos. Eles deixam de ser algo acrescentado no final do processo e passam a fazer parte da criação desde o início", explica.
Ela ressalta que a acessibilidade não é vista apenas como um conjunto de ferramentas técnicas, como audiodescrição ou tradução em Libras, mas como um princípio que atravessa toda a produção artística. "Temos pensado a acessibilidade como um princípio ético, estético e político do trabalho. Ela está presente nos espetáculos, nas oficinas, na comunicação e na forma como nos relacionamos com o público."
Formação para artistas e educadores
Um dos pilares do projeto é a qualificação de profissionais da cultura. Serão oferecidos gratuitamente três cursos: dramaturgia da escuta para acessibilidade; formação de espectadores, mediação teatral e acessibilidade e acessibilidade cultural na música.
Os cursos serão ministrados por especialistas da área e destinam-se principalmente a artistas e professores dos municípios participantes.
Além disso, o projeto selecionará 12 artistas para um ciclo completo de formação. Eles participarão dos cursos, acompanharão o processo criativo de um novo espetáculo do grupo e realizarão estágios supervisionados e remunerados durante a circulação das apresentações.
Cada participante receberá uma bolsa-auxílio para atuar em ações de mediação teatral e acessibilidade, colocando em prática os conhecimentos adquiridos.
Sob a perspectiva da acessibilidade
Um dos diferenciais da iniciativa será a chamada "transcriação" do espetáculo "Bailinho com B - A pista que toca o lado B da vida".
Em vez de apenas receber recursos de acessibilidade depois de pronto, o espetáculo será reconstruído considerando essas questões desde sua concepção. Para isso, o grupo contará com a colaboração de especialistas de diferentes áreas, entre eles o músico cego Matheus Costa.
Segundo Tejas, sua participação vai muito além de avaliar se o espetáculo é acessível. "Ter uma pessoa cega participando da criação ajuda a pensar o espetáculo a partir de outra experiência perceptiva. Isso contribui para construir soluções que não sejam capacitistas e amplia nossa forma de compreender a dramaturgia, os sons e a relação com os sentidos."
Outro objetivo do projeto é descentralizar o acesso às atividades culturais. Embora a região possua intensa produção artística, a maior parte dos cursos e espetáculos costuma concentrar-se nas cidades maiores.
Para a coordenadora, investir nos pequenos municípios significa fortalecer toda a rede cultural regional. "Existe uma manifestação cultural muito rica nesses municípios, mas os recursos ainda chegam de forma muito escassa. Queremos ampliar a democratização do acesso à cultura e criar redes de intercâmbio entre artistas, grupos e educadores."
Ela afirma que a proposta também busca aproximar profissionais de diferentes cidades. "A ideia é construir uma floresta da cultura, em que as pessoas possam trocar conhecimentos, fortalecer seus trabalhos e criar laços que permitam continuar produzindo arte mesmo diante das dificuldades que o setor enfrenta."
Espetáculos e oficinas
Além da formação, o projeto prevê a circulação de três produções do Núcleo Peixe Vagalume.
O espetáculo "Iato - Entre o Brilho do Relâmpago e o Canto do Trovão" realizará seis apresentações. Já o recriado "Bailinho com B - A pista que toca o lado B da vida" também passará por seis municípios, levando música, palhaçaria e interação com o público.
A programação ainda inclui duas edições da "Serenata Caipira", intervenção itinerante, além de oficinas de Teatro de Máscaras, Música Corporal e Som, Jogo e Improviso.
As atividades começam em 8 de agosto, com a Serenata Caipira. Os cursos terão início em 15 de agosto.