Guyra Pepo celebra nove anos de demarcação
Programação reúne música, grafismo, cinema indígena e troca de saberes em meio à Mata Atlântica
A Terra Indígena Guyra Pepo, localizada no bairro Turvo, em Tapiraí, celebra no sábado (20) os nove anos de sua demarcação com uma programação voltada à valorização da cultura, da memória e dos saberes tradicionais do povo Guarani Mbya. O evento será aberto ao público e contará com apresentações culturais, oficinas, visita à agrofloresta e exibição de cinema indígena.
A data representa um marco na trajetória da comunidade. Em entrevista exclusiva ao jornal Cruzeiro do Sul, a liderança da aldeia, Willians Macena, destacou que a conquista do território fortaleceu a vivência dos conhecimentos tradicionais, especialmente pela proximidade com a natureza.
Segundo ele, a mudança para a atual área permitiu que as crianças e os adultos passassem a experimentar, na prática, aquilo que antes era apenas transmitido por meio das histórias e ensinamentos. "A gente falava sobre os rios, sobre os animais, sobre os passarinhos, mas não tinha essa convivência. Hoje as crianças acordam ouvindo o canto das maritacas, dos sabiás, veem os tucanos, escutam os animais. Isso fortalece o conhecimento porque elas conseguem vivenciar aquilo que estamos ensinando", afirma.
Macena ressalta que a identidade Guarani Mbya não depende do reconhecimento territorial para existir. Segundo ele, a cultura está presente na língua, nos costumes, no artesanato e no modo de viver do povo. "A identidade está na gente. Eu sou Guarani Mbya independentemente do espaço onde estou. O território não cria a nossa identidade, mas ele fortalece nossa maneira de nos relacionarmos com a natureza e de praticarmos os conhecimentos dos nossos antepassados", explica.
Combate à desinformação
Além das atividades culturais, a celebração busca aproximar a população não indígena da realidade dos povos originários. Para Macena, ainda existe um grande desconhecimento sobre a diversidade indígena existente no Brasil.
Ele observa que muitas pessoas sabem da existência dos povos indígenas, mas desconhecem aspectos fundamentais como a quantidade de etnias, as diferentes línguas faladas e os troncos linguísticos presentes no país. "As pessoas perguntam se eu sou indígena, mas raramente querem saber qual é a minha língua, qual é o meu povo ou qual é a minha história. Falta interesse em conhecer a diversidade que existe entre os povos indígenas", afirma.
Para a liderança, o acesso à informação ainda é um desafio. Embora as aldeias utilizem redes sociais e outros meios para divulgar seus conhecimentos, muitas vezes esses conteúdos não despertam a atenção do público. "A gente tenta levar essas informações para toda a população, mas muitas vezes as pessoas olham e pensam que aquilo diz respeito apenas aos indígenas. Na verdade, é um conhecimento que pode contribuir para toda a sociedade."
Relação com a natureza
Entre os ensinamentos que os Guarani Mbya compartilham está uma visão da natureza que vai além da preservação ambiental tradicional. "Quando visitamos uma nascente, por exemplo, pedimos permissão. É uma forma de demonstrar respeito. Para nós, não basta preservar a árvore; é preciso respeitar também o ser que cuida dela."
A liderança destaca que essa compreensão foi transmitida por gerações e continua presente no cotidiano da aldeia. Embora muitos desses elementos sejam frequentemente tratados como folclore pela sociedade não indígena, eles fazem parte da espiritualidade e da cosmologia Guarani.
Celebração na aldeia
A celebração dos nove anos da Terra Indígena Guyra Pepo inclui café da manhã comunitário, apresentações do Coral das Crianças Guarani, oficina de grafismo, almoço coletivo, visita à agrofloresta com troca de saberes sobre o cuidado com a terra e a exibição de um filme do cinema indígena.
Para a comunidade, a comemoração representa a continuidade de uma história construída pela resistência e pela preservação dos saberes ancestrais. "Esse território é respeitado por todos nós porque sabemos que ele vai continuar oferecendo água limpa, plantas medicinais e vida para as próximas gerações. Guyra Pepo é memória, é vida e é futuro", destaca Macena.