‘Vim para Sorocaba pela fé’, diz Saulo di Tarso ao projetar a cidade como polo cultural
Artista defende a arte como ferramenta de transformação humana, diálogo e desenvolvimento cultural
O artista visual, curador e pesquisador Saulo di Tarso chegou a Sorocaba por um motivo incomum. Acostumado a circular entre o Brasil e a Itália em projetos ligados à arte contemporânea, ele afirma que a decisão de se mudar para a cidade não teve origem em oportunidades profissionais, mas em uma experiência de fé.
“O que me trouxe para Sorocaba foi literalmente a fé”, revela em entrevista exclusiva ao jornal Cruzeiro do Sul. Segundo ele, a mudança ocorreu após um período de reflexões e transformações pessoais vivido entre 2023 e 2024. “Eu fiz uma meditação e tive uma resposta no dia seguinte. Simplesmente segui. Vim para cá morar em uma casa que eu nem cheguei a ver pessoalmente.”
Com mais de 30 anos de trajetória nas artes visuais, Saulo construiu uma carreira que transita entre produção artística, curadoria, pesquisa e articulação cultural. Sua atuação inclui projetos no Brasil e em outros países da América Latina, além de uma forte conexão com a Itália, país onde também mantém residência e desenvolve parte de suas atividades.
Para ele, a escolha por Sorocaba está ligada a um processo de reconstrução pessoal após anos marcados por mudanças profundas, incluindo a experiência da pandemia na Europa, separações e transformações em sua vida profissional. “Sorocaba significa primeiro estar em dia com a minha missão espiritual, individual e interna, e segundo estar em paz com o propósito de visualizar a cidade como um novo polo de arte e cultura”, afirma.
Arte acima da polarização
Um dos temas centrais da trajetória recente de Saulo é o projeto “Para Falar de Amor”, exposição coletiva que ganhou repercussão em São Paulo ao reunir mais de uma centena de artistas em torno da ideia de promover diálogo em um cenário marcado pela polarização política.
Segundo o curador, a proposta surgiu da necessidade de devolver à arte sua autonomia diante dos conflitos ideológicos. “A arte é para libertar o ser humano. Se você diz que é artista de esquerda ou artista de direita, não funciona. A arte precisa ter liberdade para estar diante da sociedade”, defende.
A primeira edição do projeto, realizada no antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, em São Paulo, superou todas as expectativas. Pensada inicialmente para uma semana de duração, a mostra recebeu milhares de visitantes e transformou um prédio histórico em um espaço de encontro entre diferentes gerações e linguagens artísticas.
Agora, uma nova etapa da iniciativa está em andamento. Embora uma versão do projeto esteja em exibição na capital paulista, Saulo considera que o verdadeiro “Para Falar de Amor 2” nasceu em Sorocaba. “O projeto que está em São Paulo é carinhosamente um ‘Para Falar de Amor 1,5’. O 2 nasceu aqui, em Sorocaba, e será realizado na cidade”, adianta.
Recuperação de espaços
Outro eixo importante do trabalho desenvolvido por Saulo é a ressignificação de edifícios históricos por meio da arte. Ele destaca a parceria com a plataforma Cura, iniciativa voltada à ocupação cultural de imóveis abandonados e construções de valor histórico.
Para o curador, a arte pode desempenhar um papel decisivo na revitalização urbana e na geração de desenvolvimento econômico. “As pessoas esquecem que a arte é uma alavanca muito potente da economia. Sempre foi”, afirma.
Essa visão está presente também em sua relação com Sorocaba. Embora ainda esteja conhecendo a cidade e suas dinâmicas culturais, ele acredita que o município reúne condições para ampliar sua relevância no cenário artístico paulista. “Eu acredito que Sorocaba seja o lugar perfeito do interior do Estado para capitanear um novo movimento cultural”, diz. (Camila Santos)