Livro aborda fandango caiçara como linguagem de resistência

Por Cruzeiro do Sul

Livro traz o fandango como articulador oralidade, símbolos, religiosidade e performance como formas comunicativas legítimas

O fandango caiçara costuma ser reconhecido pela música, pela dança e pelas festas tradicionais do litoral brasileiro. Mas, para o pesquisador e produtor cultural Rodrigo Fonseca, essa manifestação revela algo ainda maior: uma forma própria de comunicação construída pelas comunidades populares ao longo dos séculos. Essa é a reflexão central do livro “A Comunicação da Cultura Popular”, obra em que o autor investiga como tradições populares resistem, se transformam e continuam produzindo sentido em um cenário marcado pela globalização e pela cultura de massa.

Resultado de pesquisa etnográfica e anos de convivência com mestres e mestras fandangueiros, o livro parte do fandango caiçara -- expressão que reúne música, dança, religiosidade, poesia e modos de vida tradicionais do litoral sul e sudeste do Brasil -- para refletir sobre identidade, pertencimento e resistência cultural.

Segundo o autor, o contato com o fandango começou ainda em 1998, durante viagens à Ilha do Cardoso, em Cananéia, no litoral paulista. “Ele teve um papel central na minha vida, pois despertou em mim uma paixão pelas culturas populares”, afirma. Com o passar dos anos, porém, a proximidade trouxe mais perguntas do que respostas. “Sentia que meu entendimento sobre o fandango caiçara ainda era muito superficial. Eu precisava de um tempo dedicado a compreender essa expressão cultural tão antiga e importante do nosso litoral”, explica.

Foi dessa inquietação que nasceu a pesquisa. Ao mergulhar no cotidiano das comunidades caiçaras, Rodrigo percebeu que não investigava apenas uma tradição artística, mas formas próprias de produção de sentido e comunicação social. “Durante essa jornada, ficou claro para mim que o que eu buscava era compreender a produção de sentido na comunicação popular”, diz.

Um dos eixos centrais da obra é a folkcomunicação, conceito desenvolvido pelo pesquisador brasileiro Luiz Beltrão para explicar como grupos populares criam seus próprios canais de expressão, transmissão de saberes e circulação de mensagens. No livro, Rodrigo mostra como o fandango articula oralidade, símbolos, religiosidade e performance como formas comunicativas legítimas.

“A oralidade é a base da transmissão de conhecimento e das relações sociais. Depois temos o cinético, presente nas apresentações; o icônico, nos instrumentos artesanais, como a rabeca e a viola caiçara; e também o religioso, presente na devoção a São Gonçalo”, explica.

Inspirado ainda nas reflexões do teórico colombiano Jesús Martín-Barbero, o autor propõe um “diagrama das mediações”, ferramenta que ajuda a compreender as relações entre tradição, mídia, território e transformações sociais.

Ao longo do livro, Rodrigo também combate a ideia de que culturas populares precisam permanecer congeladas no passado para serem autênticas. Para ele, tradição e transformação caminham juntas. “As culturas populares, para existirem em seu tempo, precisam ser vividas, ritualizadas e praticadas nos territórios onde fazem sentido. Não se trata de um retrato fixo do passado, mas de um movimento contínuo”, afirma.

Segundo o pesquisador, o limite entre adaptação e descaracterização surge quando as mudanças deixam de dialogar com a própria comunidade. “Enquanto a transformação nasce do próprio grupo e continua fazendo sentido para ele, estamos falando de adaptação, não de perda”, defende.

Em um cenário marcado pela globalização e pela cultura de massa, o autor reconhece ameaças como a padronização estética e o enfraquecimento dos vínculos comunitários, mas também enxerga possibilidades de resistência. “A força está na capacidade dessas comunidades de transformar novas referências sem romper com suas raízes”, observa.

Para Rodrigo, o próprio fandango caiçara é prova dessa resistência histórica. “Estamos falando de uma expressão cujas origens remontam aos séculos XVII e XVIII, mas que segue viva até hoje nas comunidades caiçaras. Isso, por si só, já revela sua força e sua atualidade”, conclui.

Publicado pela editora Cataia Ações Artísticas e Culturais, o livro tem 212 páginas e foi aprovado pelo ProAC e pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). A obra é voltada a pesquisadores, estudantes, produtores culturais e leitores interessados em compreender como a cultura popular continua produzindo sentidos no Brasil contemporâneo. (Camila Santos)

 

FICHA TÉCNICA

A Comunicação da Cultura Popular - O fandango caiçara em perspectiva

Autor: Rodrigo Fonseca

Editora: Cataia Ações Artísticas e Culturais

Páginas: 212

Preço: R$ 45,00

Onde comprar: Amazon e Loja da Editora

Distribuição: gratuita para bibliotecas públicas: (11) 98250-6122 - estoque limitado