Museu inaugura hangar com aviões históricos em Itu
Exposição de aeronaves reforça projeto cultural voltado à memória, tecnologia e educação
A chegada de aeronaves históricas ao Centro Cultural Fábrica São Pedro, em Itu, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), marcou mais um capítulo do projeto que busca transformar o espaço em um dos principais polos de integração entre arte, tecnologia, memória e educação no interior paulista. O Museu Asas de Um Sonho inaugurou na quinta-feira (14) o Hangar Comandante João Francisco Amaro, novo espaço expositivo que passa a reunir aviões históricos incorporados ao acervo permanente do Museu Fama.
O novo hangar recebeu modelos que ajudam a contar diferentes momentos da aviação brasileira, como o caça Xavante, utilizado pela Força Aérea Brasileira, o HS, ligado ao desenvolvimento da aviação comercial regional, e o Neiva Regente, associado à aviação agrícola e ao transporte rural. O espaço também abriga um Cessna que pertenceu ao comandante Rolim Amaro, mantido preservado pela família e considerado uma das peças mais afetivas da coleção.
A inauguração reuniu representantes do museu, convidados e profissionais ligados ao projeto de preservação das aeronaves, marcando a expansão de uma proposta cultural que pretende aproximar visitantes da história da aviação por meio de experiências educativas e imersivas.
Segundo a presidente do Museu Fama, Sandra Senamo, a criação do hangar representa uma realização pessoal e institucional. Ela lembra que o projeto do museu começou oficialmente em agosto de 2024, com uma exposição dedicada a Santos Dumont, e desde então vem ampliando o diálogo entre arte contemporânea e tecnologia. “Os aviões trazem uma história e um aprendizado muito grande. Hoje tivemos crianças de Sorocaba visitando o espaço e elas conseguiram entender a importância dos aviões para o museu. É a tecnologia com a arte formando uma cultura muito especial”, afirma.
Sandra destaca que o novo espaço homenageia o comandante João Francisco Amaro, irmão de Rolim Amaro. Segundo ela, os dois compartilhavam, há décadas, o sonho de preservar aeronaves históricas encontradas em diferentes países ao longo da vida.
Ela contou ainda que a ideia de transformar parte do complexo em um hangar surgiu quando o museu recebeu a confirmação de que três aeronaves seriam trazidas para Itu. O principal problema, no entanto, era a falta de espaço adequado para acomodar estruturas de grande porte. “Quando falaram que chegariam três aeronaves, nós ficamos preocupados porque não havia espaço. Então fomos estudar como construir uma pista que suportasse até dez toneladas”, relata.
A solução encontrada foi adaptar uma área externa do complexo cultural e transformá-la em uma espécie de pista de exposição. Sandra afirma que chegou a estudar técnicas construtivas para garantir que o solo suportasse o peso das aeronaves. O resultado foi um hangar a céu aberto, integrado aos jardins e às obras de arte contemporânea já existentes no local.
Apesar da estrutura provisória, a presidente do museu explica que o projeto definitivo já está em andamento. A proposta é transferir as aeronaves para um novo galpão de aproximadamente 5 mil metros quadrados, atualmente em processo de restauro e adaptação. “Quando os aviões forem transferidos para o novo galpão, conseguiremos trazer novas aeronaves. Hoje nosso espaço já está completamente ocupado”, afirma.
Segundo Sandra, o futuro espaço deverá unir o acervo aeronáutico às coleções de arte contemporânea do Museu Fama, criando um grande centro cultural voltado à preservação da memória, à educação e ao turismo.
O diretor institucional do Museu Asas de Um Sonho, Felipe Savi, explica que o projeto atual é uma continuidade do antigo Museu TAM, em São Carlos, considerado durante anos o maior acervo privado de aviação da América Latina.
Ele relembrou que a iniciativa foi idealizada originalmente por Rolim e João Amaro como forma de preservar a história da aviação brasileira. Após o falecimento de Rolim, o projeto foi mantido pela família e retomado em 2024 por Marcos Amaro, filho do empresário, que decidiu transferir parte do acervo para Itu. “O Marcos Amaro decidiu assumir essa empreitada para dar continuidade à preservação da história da aviação. A ideia foi construir uma narrativa que mistura arte contemporânea, aviação, cultura, tecnologia e educação”, diz.
Logística desafiadora
Além do desafio estrutural, a transferência das aeronaves exigiu uma operação logística considerada complexa pelos organizadores. Segundo Felipe, o processo completo levou cerca de oito meses, envolvendo negociações, contratação e homologação de empresas especializadas, desmontagem das aeronaves, transporte e remontagem. “Não é simplesmente desmontar e transportar. Existe todo um cuidado museológico para manter a autenticidade histórica das aeronaves”, explica.
As aeronaves chegaram a Itu durante a madrugada, acompanhadas por escoltas e equipes especializadas. O transporte foi realizado em etapas para evitar danos às peças originais e minimizar impactos no trânsito urbano.
De acordo com o museu, somente o processo de desmontagem, deslocamento e remontagem consumiu 13 dias de trabalho, além de outros seis dias necessários para a instalação definitiva das aeronaves no hangar. Componentes como asas, sistemas internos e instrumentos precisaram ser retirados temporariamente e reinstalados com extremo cuidado.
Felipe destaca que um dos principais valores históricos do acervo está justamente na preservação das peças originais das aeronaves. Muitos dos instrumentos internos permanecem intactos e conservam tecnologias utilizadas nas décadas de 1980 e 1990. “No caso dessas aeronaves, o principal valor está justamente na preservação da originalidade. Muitos equipamentos internos permanecem os mesmos da época”, afirma.
Embora os modelos não tenham participado diretamente de conflitos militares ou episódios históricos específicos, os representantes do museu ressaltaram que as aeronaves são importantes registros da evolução da aviação nacional.
O Xavante, por exemplo, ajuda a representar o desenvolvimento da aviação militar brasileira e complementa outros modelos de caça já expostos no jardim do museu. Já o HS recorda uma fase de expansão da aviação comercial regional no país, enquanto o Neiva Regente preserva a memória da aviação agrícola e do transporte rural.
História Viva
Além da preservação histórica, o novo hangar também deve fortalecer o trabalho educativo do museu. As aeronaves passarão a integrar visitas monitoradas e atividades pedagógicas voltadas a estudantes, grupos e empresas.
Segundo Sandra Senamo, o objetivo é transformar o espaço em uma ferramenta de aprendizado capaz de despertar o interesse de crianças e jovens pela cultura, pela tecnologia e pela história. “A cultura de um museu transforma a vida de uma criança”, afirma.
Ela destaca que escolas públicas e particulares podem participar gratuitamente dos programas educativos oferecidos pelo museu mediante agendamento. A expectativa é ampliar o número de visitas nos próximos meses, especialmente com a chegada de novos eventos culturais.
Entre eles está uma programação prevista para o dia 27 de maio, quando o complexo deve receber mais de mil crianças de escolas públicas em atividades ligadas ao brincar, à cultura e à educação. Também está prevista a realização de um simpósio cultural em Sorocaba, voltado ao setor empresarial e a representantes do governo estadual e do Ministério da Cultura.
O Museu Fama funciona de quinta-feira a domingo, das 12h às 18h, na rua Padre Bartolomeu Tadei, 9 - Alto, Itu. O agendamento de visitas escolares e grupos pode ser realizado pelos canais oficiais da instituição.