‘Donabá’ traz ancestralidade africana e afrofuturismo a Sorocaba
Fanta Konatê apresenta show gratuito com tambores ancestrais, culinária e oficinas culturais
Entre tambores ancestrais, receitas que atravessaram o Atlântico e memórias afetivas construídas há mais de duas décadas no Brasil, a artista guineana Fanta Konatê retorna a Sorocaba com o projeto ‘África Viva em Mim’. O encontro, que ocorre amanhã (16) e no domingo (17) no Ilé Alákétu
àse omo Lógunede, com entrada gratuita, propõe uma travessia simbólica entre continentes, passado e futuro.
Em entrevista exclusiva ao jornal Cruzeiro do Sul, Fanta revelou que Sorocaba ocupa um lugar especial em sua trajetória. Foi na cidade, em 2004, ainda nos primeiros anos de Brasil, que ela realizou um dos shows mais marcantes de sua carreira. “Quando o Sesc ainda parecia uma grande casinha africana, fizemos um espetáculo com projeções, palestra e oficina de dança. Todo mundo participou. Um dos músicos que estava lá, o Manu, anos depois passou a integrar meu grupo. Hoje tenho três músicos de Sorocaba que foram aprender nossa cultura na Guiné e tocam como meus irmãos”, conta.
A relação afetiva ajuda a explicar o tom intimista da nova passagem da artista pela cidade. Além de apresentar a cultura da Guiné-Conacri, Fanta vê o projeto como um espaço de troca com o Brasil profundo, especialmente com a herança africana preservada nas religiões de matriz africana, na música e na culinária.
Um dos momentos mais simbólicos da programação ocorre após o espetáculo “Donabá A Grande Bailarina”, quando o público poderá experimentar pratos ancestrais preparados pela própria artista ao lado da irmã, Koria Konatê.
Mas a degustação vai além da experiência gastronômica. “Eu fiz questão de trazer pratos ancestrais da minha terra que têm conexão direta com o acarajé daqui. Mudam alguns ingredientes, o modo de preparo, mas é impossível não pensar em como essas receitas foram adaptadas quando os africanos chegaram ao Brasil”, afirma.
Entre os pratos servidos estão o Frufru — considerado ancestral do acarajé — além do Ussen Sadi e do Ban Mailaní, preparações que dialogam diretamente com sabores já incorporados à culinária afro-brasileira.
Para Fanta, a cozinha funciona como um elo silencioso entre Guiné e Brasil. “Essa conexão acontece pelo sabor. A comida guarda memória.”
A conexão cultural também aparece nos tambores. Embora explique que a tradição religiosa ligada aos orixás não exista da mesma forma na Guiné, Fanta reconhece semelhanças profundas entre as celebrações africanas comunitárias e o ambiente do samba brasileiro. “Nós temos a música comunitária, a festa de multiplicar a alegria. Isso parece muito com o samba. Inclusive, na língua Malinkê, ‘samba’ significa presente. E junto com o presente sempre vem alegria.”
A declaração ajuda a sintetizar o espírito do projeto: aproximar culturas que foram separadas historicamente, mas continuam ligadas pela memória coletiva.
O ancestral e o afrofuturismo
No palco, o espetáculo “Donabá” mistura instrumentos tradicionais africanos — alguns ligados a canções preservadas há mais de 800 anos — com guitarra, saxofone, violão e elementos eletrônicos inspirados no afrofuturismo.
Mas Fanta faz questão de esclarecer um ponto importante sobre sua própria origem cultural. Apesar de ter crescido próxima à tradição oral africana, ela não pertence ao clã dos griôs. “Minha família vem da linhagem dos reis do Mandén. Os griôs são os guardiões da memória, os grandes comunicadores. São eles que preservam as histórias, conciliam conflitos e transmitem os conhecimentos do povo.”
Segundo ela, foi justamente essa estrutura cultural que permitiu que a identidade do povo Malinkê sobrevivesse ao colonialismo e às guerras. “O que mantém viva a cultura não é a roupa nem o som dos instrumentos. É aquilo que está dentro deles. O povo Malinkê tem muito orgulho da própria identidade”, explica.
A modernização da música, portanto, não representa ruptura. “A mistura com elementos contemporâneos é natural. Ela amplia o alcance da alma do Mandén, da Guiné, da África. É uma forma de continuar vivo no mundo moderno.”
Radicada no Brasil há 20 anos, Fanta Konatê construiu uma carreira internacional levando a cultura da África Ocidental para palcos de diversos países.
Agora, ao retornar para Sorocaba, ela revisita uma cidade que ajudou a consolidar sua trajetória no país. “Sorocaba desperta muita coisa em mim. É uma cidade importante na minha história.” (Camila Santos)
SERVIÇO
Projeto “África Viva em Mim” Fanta Konatê
Quando: sábado (16), a partir das 18h - roda de conversa ‘Kumá Lací’, oficina de dança e percussão
domingo (17), 18h, show “Fanta Donabá A Grande Bailarina” e degustação de culinária ancestral africana
Onde: rua Maximiano Domingues da Silva, 53
Entrada: gratuita