Da tela a literatura: Liliana Alves lança livro e se destaca na SP-Arte

Entre pesquisa, memória e experimentação, artista transforma trajetória em obra e conquista público em uma das principais feiras de arte do país

Por Caroline Mendes

‘A pintura, para mim, é um campo de estudo’, afirma a sorocabana que participou, pela terceira vez, do evento no Parque do Ibirapuera

Há artistas que constroem sua trajetória camada sobre camada como a própria pintura. É nesse território de investigação contínua que a obra de Liliana Alves se insere e ganha, agora, um novo capítulo de reconhecimento na SP-Arte.

Participando pela terceira vez da feira, realizada no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, a artista de Sorocaba não apenas apresentou suas obras, mas também lançou um livro monográfico que se esgotou em apenas 24 horas, um feito que sintetiza, de forma direta, a potência de sua produção.

O livro, predominantemente visual, reúne trabalhos desenvolvidos a partir de 2008, período em que Liliana intensifica sua pesquisa sobre cor, forma e composição. Com curadoria da crítica Paula Alzugaray, a publicação não se limita a registrar uma trajetória: ela revela um pensamento artístico em construção, onde cada obra é resultado de um processo rigoroso de investigação.

“Eu sempre tive essa necessidade de pesquisar. A pintura, para mim, é um campo de estudo”, afirma a artista. Essa postura se reflete em séries que exploram, por exemplo, os valores tonais de uma mesma cor ou a complexidade cromática de materiais cotidianos, como o papelão, elemento recorrente em sua produção recente.

Ao escolher um material aparentemente simples, Liliana desloca o olhar do espectador para o que está além do óbvio. O que poderia ser apenas “marrom” se desdobra em uma infinidade de nuances, criando composições que transitam entre o rigor técnico e a sensibilidade poética. É nesse equilíbrio que sua obra se sustenta.

Mas há também um outro eixo que atravessa seu trabalho: a memória. Não como representação literal, mas como atmosfera. Em muitas de suas pinturas, o que se apresenta é um espaço de evocação, onde formas, cores e volumes sugerem lembranças, afetos e experiências compartilhadas.

“Quero que as pessoas criem suas próprias leituras. Que a obra desperte algo, uma memória, um pensamento”, explica. Essa abertura ao olhar do outro é uma das marcas de sua produção, que dialoga diretamente com os princípios da arte contemporânea.

Na SP-Arte, esse diálogo se concretizou de maneira imediata. O livro, lançado durante a feira, teve sua primeira tiragem completamente vendida no mesmo dia. Além do público, nomes relevantes do circuito artístico passaram pelo estande, entre eles a idealizadora da feira, Fernanda Feitosa, que adquiriu um exemplar.

O reconhecimento, no entanto, não é percebido pela artista como ponto de chegada, mas como continuidade de um percurso. Com mais de 40 anos dedicados à arte — incluindo uma longa atuação como professora —, Liliana mantém uma rotina intensa de produção e participação em editais, sempre orientada pela ideia de que o fazer artístico exige constância. “É um trabalho de formiguinha. A gente precisa estar sempre produzindo, pesquisando, se colocando”, resume.

Entre os próximos projetos, estão novas exposições e iniciativas que ampliam o alcance de sua obra, como experiências desenvolvidas com pessoas com deficiência visual, nas quais a arte é explorada também pelo tato, a partir de texturas e materiais.

Na contramão da pressa, a trajetória de Liliana Alves se constrói no tempo da pintura — aquele que exige repetição, escuta e risco. E é justamente nesse tempo, feito de insistência e sensibilidade, que sua obra encontra ressonância.

Na SP-Arte, esse encontro foi imediato. E, como suas próprias telas sugerem, talvez seja apenas mais uma camada de um percurso que segue em expansão.